No final do ano, o evento trouxe importantes discussões mediadas por profissionais como Eliane Brum e Ricardo Kotscho
Acostumados à correria das grandes redações, geralmente os jornalistas não têm a oportunidade de conversar com os seus colegas de trabalho e refletir sobre o exercício da profissão. Porém, no dia 1º de dezembro, profissionais como José Hamilton Ribeiro e Natália Viana participaram de uma discussão mediada por Eliane Brum e Claudiney Ferreira na abertura do programa de TV “Jogo de Ideias”. A iniciativa tem como objetivo apresentar diálogos com repórteres importantes do cenário nacional e alguns programas da série podem ser conferidos no canal do Itaú Cultural do Youtube.
O destaque do primeiro programa foi o jornalista José Hamilton Ribeiro, que tem mais de 50 anos de carreira e já passou pelos mais importantes veículos, como a Rádio Bandeirantes, Folha de S.Paulo e atualmente é repórter e editor do Globo Rural, da TV Globo. “José Hamilton é um ‘novidadeiro’ e sempre está aberto ao espanto do mundo”, define Eliane Brum, curadora do projeto Jogo de Ideias. O repórter de longa data é sempre lembrado pela cobertura que fez durante a Guerra do Vietnã para a revista “Realidade”.
Ao lado dele, estava Natália Viana, que fundou a agência Pública e acredita fazer parte de uma nova proposta para a abordagem e realização de reportagens. De acordo com ela, “o jornalismo independente pode ser comparado com o que aconteceu na indústria musical”, pois hoje um cantor não precisa necessariamente trabalhar em uma grande gravadora para divulgar o seu trabalho ou ser reconhecido. Isso porque ele pode ganhar relevância com a publicação de seu repertório musical na internet, em ferramentas como websites e redes sociais. O mesmo acontece no campo do jornalismo, que, cada vez mais, busca um desenvolvimento mais horizontal do que vertical. A partir de agora, os próprios jornalistas podem atuar sem a necessidade de estar incorporado a um grande jornal, revista ou portal de notícias.
De qualquer maneira, “um repórter deve ter certa generosidade para espalhar o que sabe a todos, deve ter paciência, persistência e sorte”. Pelo menos é o que acredita José Hamilton Ribeiro, que sempre admitiu a importância da convivência do jornalista com os demais elementos ao seu redor, como um verdadeiro observador do mundo. “O repórter não é um lobo solitário, um vingador, um herói, pois há a influência de outros. Senão, a pessoa vai ficando só um solitário, e não um repórter”, ou. Para José Hamilton, outra característica importante que deve existir em qualquer repórter é humildade para confessar para si próprio que não sabe de tudo. “Segundo Rubem Braga, a fórmula para uma boa reportagem é começar com letra maiúscula e terminal com um ponto final”, disse.
SUJAR OS SAPATOS
A internet possibilitou que o campo pudesse ficar mais amplo e os assuntos mais polêmcios, antes vetados em jornais e revistas, pudessem ser difundidos. Foi com isso que projetos como o Repórter Brasil puderam ser criados e conseguirem projetar aspectos da sociedade brasileira pouco mostrados. “O site nasceu por um grupo de jornalistas insatisfeitos”, reconhece Leonardo Sakamoto, que, a partir dessa ferramenta, conseguiu produzir matérias aprofundadas sobre assuntos como a retirada indevida de dinheiro por autoridades públicas. Ao lidar com nomes importantes do cenário político, Sakamoto não teve medo e defende a entrega total do repórter. Ainda na faculdade, ele produziu como TCC a reportagem “Um brasileiro na guerrilha do Timor”. Por isso, ele teve que fazer uma viagem longa até a província da Indonésia, largar tudo e passar por grandes apuros. “Eu cheguei a perder oito quilos e depois mais 12 quilos por causa da malária que peguei”, lembra. Ele entrou no Timor como turista, condição que ficou durante dois meses, e passou uma semana com os guerrilheiros do local. “Adrenalina jornalística é algo viciante. É molecagem, mas animal”, diz.
Dessa forma, torna-se quase um consenso entre os profissionais: a apuração profunda exaustiva que faz uma grande reportagem. Quando o jornalista Ricardo Kotscho foi para a “IstoÉ” a convite de Mino Carta para ser “correspondente de guerra no ABC paulista”, ele estava tão imerso naquele contexto que chegou a se aproximar dos sindicalistas e, mais precisamente, o ex-presidente Lula, que estava no auge naquele momento. “Lula era o grande centro da resistência democrática”, assegura Kotscho. Prova desse relacionamento com o líder foi o convite, em 1989, no período das eleições, para trabalhar como assessor de Lula e deixar o posto de repórter especial do “Jornal do Brasil”. E foi exatamente o que Ricardo Kotscho fez. Mas ele garante: “eu deixei a redação, mas não o jornalismo”.
CARACTERÍSTICAS PSICOLÓGICAS DO JORNALISTA
Ricardo Kotscho elenca quatro condições essenciais para todo profissional da área:
- “Muita vontade de trabalhar e descobrir histórias”;
- “Ser honesto com as fontes e os leitores”;
- “Ser humilde”;
- “Ter paciência”.
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