Sempre presente nos meios de comunicação, o jornalismo sensacionalista é fórmula de sucesso garantida nas emissoras de televisão. Mas será que toda essa valorização vale à pena?

“É o meu dever ler esta notícia”, fala às câmeras ao vivo Wagner Montes em tom choroso, no dia 8 de outubro de 2009. Faz cara de luto, pede para a produção aumentar o volume da triste trilha sonora de fundo e passa a narrar a história de três criminosos mortos pela polícia. “Foi na Comunidade Rio D’ouro. Eles estavam com granadas, dois revólveres, rádios transmissores, maconha, cocaína, material para endolação e roupa camuflada. Algemas e munição. Um dos bandidos mortos é suspeito de ter executado um policial há dois meses no bairro do Irajá. A polícia teve de reagir à injusta agressão por parte dos marginais”.
Fingindo lágrimas com algodão encharcado, Montes começa uma falsa oração, com voz empostada e mãos trêmulas. “Pai! Que os três que trocaram tiros com a polícia, encararam a polícia com granadas, descansem em paz”. Uma pausa. O apresentador olha para a câmera, pisca e completa: “No colo do capiroto! Monstrengo, tá me vendo aí? Esquenta a caldeira que foram mais três para o colo do capiroto! Mexe a caldeira e esquenta o bumbum deles!”. Tudo acaba com a “Dança do Capiroto”, uma forma de comemoração pela morte de algum bandido.
De segunda à sexta-feira ao meio dia é hora do programa mais popular da cidade do Rio de Janeiro. É hora do Balanço Geral, telejornal exibido pela Rede Record carioca. É hora de Wagner Montes. “A proposta editorial do jornalismo popular é a seguinte: prestação de serviço à comunidade. É a pessoa que precisa de internação e não consegue, que é mal tratada numa repartição pública, que é vítima de alguma falcatrua por parte de um mal comerciante, que enfrenta falta de água na rua. Enfim, todo e qualquer problema que afete a população e que possa ser trazido à televisão.” É assim que o apresentador define seu programa, à frente do qual está desde 2005. A fórmula do telejornal local deu tão certo que a Rede Record a espalhou por vários estados do Brasil, como São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso do Sul.
No Rio de Janeiro, o Balanço Geral manteve uma média de audiência de 10 pontos no Ibope nos últimos 12 meses. Atingiu o pico de 22 pontos no dia 26 de novembro de 2010, ficando em primeiro lugar. Isto graças à cobertura da operação do Exército, da Marinha e da Polícia Militar fluminense no Complexo do Alemão, conjunto de comunidades carentes sob a influência de traficantes.
Wagner Montes nasceu na cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, divisa com a capital do Rio de Janeiro. Começou sua carreira na comunicação na Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Na televisão, deu os primeiros passos no SBT em 1980, onde ficou por 17 anos e participou de programas como O Povo na TV, Jornal Policial e Aqui e Agora. Este último foi o telejornal referência do estilo policial: sem cortes de edição, com imagens fortes, narrações pesadas e tratamento agressivo com os “marginais”. “Eu acho que o Balanço Geral tem algumas coisas do Aqui e Agora. Tem alguma coisa de mostrar a verdade, de não se preocupar com imagem bonitinha. O programa se resume desta forma: é o retrato fiel, sem retoques, sem maquiagem do que está acontecendo no Rio de Janeiro”, comenta o apresentador.
O bordão “Escracha!” do apresentador parece resumir a personalidade que assume frente às câmeras. A palavra de efeito é repetida toda vez que o Montes pede punição a criminosos. A prisão, às vezes, parece ser pouco. “Eu, Wagner Montes, torço para eles reagirem à voz de prisão e a polícia largar o aço e botar eles na vala!”, esbravejou no dia 29 de setembro de 2009, quando criminosos assaltaram uma escola pública na capital do Rio de Janeiro.
No entanto, a personalidade intempestiva do apresentador lhe rende popularidade – que não se reflete somente nos índices de audiência. Em 2006, Montes foi eleito deputado estadual do Rio de Janeiro pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) com expressivos 111.802 votos, sendo o político mais votado da capital fluminense. Em 2010, foi reeleito, desta vez quebrando o recorde da história do estado, com 528.628 votos.
Por que tão popular? “Eu tenho a minha própria linguagem. O que falo na televisão é aquilo que falo fora dela, na minha casa, na Assembleia. Na verdade, utilizo a linguagem que o povo entende. Não adianta você falar palavras difíceis que não sejam compreendidas por parte do teu público para mostrar uma sabedoria, um conhecimento, uma cultura, para mostrar que você tem educação superior”, comenta. “Eu me preocupo ser o que sou. Tanto é que todos os dias minha audiência alterna em primeiro e segundo lugar.”
Em 2011, Wagner Montes é um dos poucos deputados que não faltou na Assembleia uma vez sequer. Antes de ocupar sua cadeira no Legislativo, o público que assiste ao Balanço Geral, de alguma forma, já se sentia representado pelo apresentador. “Acho que muitas vezes você é tido como Sassá Mutema, o salvador da pátria. Então as pessoas nos escrevem pedindo ‘Wagner, já fomos a todos os lugares, já batemos em todas as portas, não conseguimos nada, só você que pode resolver’”, conta.
Assim foi com o caso do taxista Sérgio Andrade. No dia 31 de agosto, o telejornal pediu doações para o motorista, que teve 35% do corpo queimado por assaltantes no viaduto do Benfica, no Rio de Janeiro. O intuito era arrecadar cerca de mil reais para a compra de material médico para o tratamento das queimaduras. O programa conseguiu o dinheiro e o taxista segue bem: “Quero agradecer ao Wagner Montes, que mesmo sem me conhecer me ajudou demais”, afirmou na matéria exibida naquele mesmo dia.
Montes é popular também no Youtube graças às reações que tem diante das notícias. De tão exagerados, os comentários se tornam cômicos. O vídeo em que o apresentador finge luto pelos três bandidos mortos em Irajá passou de cem mil visualizações no site. “Por que eu faço isso? Porque eu tenho um público infantil e infanto-juvenil muito grande. Então normalmente depois de qualquer matéria que considere forte, faço uma brincadeira ou levo para o lado jocoso para tirar o foco da brutalidade da cabeça do jovem. Entendeu?”, explica. “Há um limite. Às vezes, eu extrapolo. Não me lembro de um caso específico, porque não extrapolei uma vez só. Extrapolei não no intuito de valorizar ou de subjugar o acusado, mas sim justamente para tirar o foco da matéria que era muito forte.”
O que garante reações tão espontâneas quanto cômicas é o improviso. Segundo o próprio apresentador, 90% do telejornal são realizados ao vivo. “Não sei o que vai entrar no ar. No começo, chamei a minha produção, meu editor-chefe, e disse: ‘Olha, nós vamos estrear segunda-feira. Eu não quero saber quais são as matérias que vão ter no programa’. Então leio o TP [teleprompter] e assisto à matéria como quem está em casa e emito um comentário: ou vou me emocionar ou vou me indignar”, descreve.
Em junho deste ano, o menino Juan Moraes, de 11 anos, morreu durante operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro na comunidade do Danon, Baixada Fluminense. Segundo a perícia, os disparos que tiraram a vida do garoto saíram de dois fuzis calibre 762, usados pelos próprios policiais. O assassinato foi destaque na imprensa nacional, em especial no Balanço Geral. Para Montes, este é o caso mais impactante que já cobriu nos últimos anos. “Nós ouvimos todo mundo da família, fizemos reconstituição, acompanhamos a exumação do corpo. Acompanhamos o caso sempre mostrando que o interesse é que tudo seja apurado com rigor”, conta.
Casos de grande comoção, como o de Juan Moraes, são cobertos a exaustão pela mídia. Assim foi, por exemplo, com as histórias da adolescente Eloá Pimentel, 15 anos de idade, e da menina Isabella Nardoni, 6 anos, mortas em Santo André e em São Paulo, respectivamente. A primeira foi sequestrada pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes Alves, e assassinada por ele. Por sua vez, o pai e a madrasta de Isabella foram presos pela morte da filha, jogada do sexto andar do edifício onde morava o casal. “Coberturas assim não podem ser consideradas abusivas. Quando o fato é esmiuçado você vai fundo no acompanhamento da noticia. Quando a imprensa retrata fielmente o que aconteceu, não acho abuso”, comenta Wagner Montes.
Abuso ou não, emoções e sensações se tornam ferramentas de trabalho em programas como Balanço Geral. A morte de Juan é um exemplo, assim como outros casos de mães que perdem seus filhos de maneira trágica. Tocar o telespectador por meio destas histórias é um objetivo. “A minha preocupação é elucidar o fato, ajudar a polícia. Às vezes, quando uma pessoa chora durante uma entrevista, deixo um pouco para tocar no coração das pessoas e todos meus editores sabem disso.”
Sangue, sexo e escândalo
Alguns o chamam de jornalismo popular. Outros preferem classificá-lo como sensacionalismo. De uma maneira ou de outra, a proposta editorial em que se encaixa o Balanço Geral, de Wagner Montes, e tantos outros telejornais é polêmica, porém comum nos meios de comunicação. Não só na televisão. Jornais e rádios já usaram e ainda usam de moldes como este. “Parece novo, mas isto tudo é muito antigo”, comenta o jornalista Danilo Angrimani, autor do livro Espreme Que Sai Sangue: Um Estudo do Sensacionalismo na Imprensa (Summus, 1995), no qual analisa as características do sensacionalismo.
De fato, a prática sensacionalista é tão antiga quanto o próprio jornalismo. No século XIX, na França, surgiram os canards, jornais populares de apenas uma página que exibiam imagens de cadáveres em pedaços, crianças violentadas e afins. Porém, foi nos Estados Unidos que o sensacionalismo se tornou gênero jornalístico de fato. Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst estiveram à frente dos jornais New York World e Morning Journal, respectivamente, no final do século XIX. As duas publicações ganharam a alcunha de Imprensa Amarela, termo usado até os dias atuais para definir um jornal como sensacionalista.
Tanto o World quanto o Journal ficaram conhecidos por usar tom escandaloso nas notícias, tornando sensacional um fato muitas vezes de pouca relevância. Em alguns casos, a relação da notícia com qualquer fato real era inexistente. A linguagem coloquial, sem distanciamento ou proteção da neutralidade, buscava despertar emoções no público. Mesmo com o descrédito, o New York World, por exemplo, tinha um lucro anual líquido de US$1,2 milhão.
No Brasil, o Notícias Populares foi o principal jornal do gênero. O NP, como era conhecido, circulou de 1963 a 2001. Em 11 de maio de 1975, o jornal noticiou o nascimento do “Bebê Diabo” em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo. “Era uma história completamente inventada. Uma lenda urbana. O jornal deu voz a isso e por 22 edições o bebê foi manchete. Um fato completamente inverídico. Aquilo foi retroalimentado pela população, pelos leitores”, detalha Angrimani.
O sensacionalismo foi transportado em grande parte para a televisão. O telejornal Aqui e Agora, no ar pelo SBT de 1991 a 1997, moldou o gênero no Brasil. Hoje em dia, porém, programas como o Balanço Geral são mais amenos em seu conteúdo e imagens. Isto porque o Ministério Público coíbe alguns exageros, como exposição de ferimentos graves na televisão no horário da tarde.
Sexo, violência, escândalos, lendas urbanas e tabus, como casos de incesto, são alimentos para o gênero. Na lógica sensacionalista, fatos que apresentam quaisquer destes elementos merecem o devido destaque. Este tipo de notícia é conhecido pelo termo em francês fait divers (fatos variados). “O jornal sensacionalista coloca uma lente de aumento no fait divers tornando-o algo sensacional, mas que para a imprensa ‘séria’ não seria tão sensacional assim”, descreve o autor de Espreme Que Sai Sangue.
A cobertura de tais fatos visa a, como o próprio nome sugere, atiçar sensações no expectador da notícia. “Isto vai alterar todo o processo de criação da reportagem partindo do principio de que o elemento fundamental não é o fato, mas o acontecimento jornalístico que tenha um potencial mais forte de ser dramatizado”, explica Luís Mauro Sá Martino, doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e professor da Faculdade Cásper Líbero.
Para Claudio Novaes Pinto Coelho, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, o sensacionalismo é, na verdade, uma opção de mercado. “Pelo potencial que este tipo de notícia tem de gerar comoção maior na opinião pública, esta repercussão vai além do fato por si só. No fundo, porque ela vende bem”, analisa o sociólogo. Ainda segundo Coelho, a televisão é o espaço ideal para tal expressão. “Na produção do espetáculo há a valorização das imagens. Nós somos incentivados em consumir mercadorias pelas imagens. É grande o peso mercadológico da televisão, do ponto de vista do consumo, porque trabalha fundamentalmente com imagens.”
“Jornalismo sem meias palavras”
O slogan do Balanço Geral sugere uma interpretação do programa. “O apresentador representa muito mais explicitamente a figura de alguém envolvido em resolver problemas do público, cobrando de autoridades. A imagem de salvador da pátria. Não por acaso que temos casos de vários jornalistas com este perfil que ingressam na vida pública”, descreve Coelho, especialista em Sociedade do Espetáculo. O termo foi usado pela primeira vez pelo pensador francês Guy Debord, em 1967. Na teoria, o capitalismo e a lógica de produção e consumo de mercadorias invadem todas as esferas da sociedade. No jornalismo, especificamente, deixa-se de lado o debate e a análise da notícia para a produção de conteúdos que dão audiência, que atraem patrocinadores e, consequentemente, vendem.
Para Coelho, o sensacionalismo e a figura representativa que apresentadores deste gênero assumem são frutos da lógica de mercado. “Os jornalistas acabam se tornando também celebridades, viram também um produto. Dá audiência? Sim. Você gera uma sensação de proximidade. O público vê o jornalista como ‘gente da gente’”, analisa o sociólogo.
No entanto, para Danilo Angrimani, este tipo de representação não é nova nos meios de comunicação. “Quem é o apresentador de um telejornal? Um demagogo. Parece novo, mas isto é muito antigo. Se você pegar os jornais do Hearst, vê que ele dizia ‘Nós somos o seu advogado. Você que é sozinho, não se preocupe. Nós vamos buscar por justiça em um mundo injusto’.”
Para gerar emoções no espectador da notícia e aproximá-lo suficientemente ao ponto de se sentir representado, é preciso, primeiro, quebrar os “escudos” entre o meio de comunicação e seu público. Para Luís Mauro Sá Martino, isto se faz, majoritariamente, por meio da linguagem destes produtos editorias. “Basicamente usando uma linguagem próxima ao que o leitor ideal utiliza no cotidiano”, explica. “É preciso usar todo tipo de recurso dramático, desde um exagero de expressões que possam refletir sensações ruins ou boas, mas de qualquer maneira exageradas, até uma construção narrativa que vai reforçar os elementos exclusivamente dramáticos.”
Dentro desta linguagem, o uso de clichês e estereótipos se torna comuns. Segundo Martino, “O clichê e o estereótipo promovem uma espécie de economia do reconhecimento. Eu não preciso pensar para reconhecer. Eu não tenho que me preocupar. Eles exigem pouco esforço mental. Eles me tocam mais rápido, por isso posso usar o tempo todo”.
Por que consumimos?
Mesmo com as críticas, programas como o Balanço Geral não somente sobrevivem, mas também rendem bons resultados a suas emissoras. Isto porque, do outro lado da tela, existe um público segmentado que consome este produto editorial. “Quando fiz a pesquisa, eram basicamente as classes C e D que consumiam estas notícias. Pessoas de pouca escolaridade e trabalhadores”, relata Angrimani.
No entanto, mais do que uma questão de classe, o sensacionalismo responde a pulsões psicológicas do espectador. Durante sua pesquisa, Danilo Angrimani perguntou a um carteiro que lia o Notícias Populares por que gostava daquele jornal. O carteiro respondeu que adorava ler sobre crimes, saber em detalhes como o assassino matou sua vítima. “Existe um prazer de carne. O jornal se torna meio para descarregar esta pulsão criminosa da pessoa. Ela se coloca no papel do criminoso para em algum momento viver aquele prazer que se limita ao criminoso. Não só com o carteiro, é um caso de descarga de pulsão instintiva”, explica.
Segundo a teoria Freudiana, o homem (o ego) está sob influência constante de duas partes de seu subconsciente: o superego, que assume papel hipermoralista; e o ID, que corresponde às pulsões e desejos socialmente inaceitáveis. “O jornal sensacionalista trabalha em um pêndulo. Em alguns momentos ele é conservador e em outros transgressivo”, descreve Angrimani. “Posso entender que o sensacionalismo é imoral, porque ele mostra tudo o que não presta, tudo o que está errado. Mas posso também fazer a leitura inversa: ele é altamente moralista. Na hora em que rompo com a moral, reafirmo o que é certo. Quando mostro o que é errado, implicitamente sugiro um padrão”, analisa Luís Mauro Sá Martino.
Mesmo assim, não é possível afirmar que o sensacionalismo é a raiz de todos os males. Culpam-se os jornais sensacionalistas, por exemplo, pela banalização da violência no cotidiano. Porém, como afirma Martino, não é possível provar empiricamente que os jornais sensacionalistas são capazes de manipular as pulsões do espectador. “Até que ponto a mídia é efetivamente tão capaz de fazer alguma coisa? Ela contribui, mas nunca a colocaria como causa de algo. Eu a colocaria como um elemento dentro de um sistema multifatorial, mas não como causa isolada.”
Por outro lado, Coelho faz uma leitura diferente dessa realidade. “A banalização da violência tem a ver com o contexto da despolitização da sociedade. Não existe uma discussão séria a respeito das causas da violência ou uma análise objetiva do assunto. Tudo pode ser banalizado na sociedade do espetáculo.”
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