Críticos musicais contam o dia a dia da profissão, que não se limita a analisar os últimos lançamentos do mercado
“Não sou um guia de consumo”, a Jotabê Medeiros, crítico de música de O Estado de S. Paulo, quando fala a respeito de sua profissão. Seu primeiro trabalho foi há 25 anos, quando escreveu uma resenha sobre o álbum The Wall, do Pink Floyd. Eram tempos de faculdade e, na esperança do primeiro emprego e dinheiro extra, enviou o texto para Mauricio Kubrusly, então editor da SomTrês, a primeira revista com a qual Jotabê colaborou.
Muito antes dele, nos anos 1930, Mario de Andrade já mantinha uma coluna no extinto Diário de S. Paulo, tornando-se o primeiro crítico musical do país. Os 160 artigos publicados revelavam o pensamento que Andrade tinha sobre os compositores da época, assim como o valor das obras e sua importância social e política. Jotabê Medeiros acredita que o trabalho realizado pelo escritor há tantas décadas mantém-se atual, já que o jornalista de música não apenas sugere ao leitor aquilo que é fundamental para ouvir. “Tenho a pretensão de que o texto possa a ter uma função reveladora de sua circunstância histórica, indicando como se pensava em uma determinada época e qual era a ideia que as pessoas tinham de arte”, explica.
Fazer uma crítica musical, além de tudo, exige envolvimento com o trabalho de outra pessoa e análise imparcial. Do grego krinein (separar, decidir, julgar), a crítica é o exercício de desconstruir uma obra de arte e interpretá-la, sem permitir que suas preferências e gostos pessoais interfiram. “Crítica é o cara se debruçar sobre um músico e discorrer profundamente sobre aquilo depois de conhecer toda a discografia do artista e ter ouvido o disco umas cinco ou seis vezes”, define Marcus Preto, crítico musical da Folha de S.Paulo. Para ele, os artigos que são publicados nos jornais atualmente não podem ser considerados críticas. “A notícia chega hoje e você tem de publicar amanhã. Então, consigo escutar um disco no máximo duas vezes”, explica. “Não é exatamente crítica, é mais um comentário com as primeiras impressões que aquele disco me causou.”
Ter referências é essencial para obter um texto de qualidade na correria do jornal diário, segundo Preto. “Quanto mais o crítico tiver ouvido coisas e conhecer estilos, mais riqueza ele imprimirá em seu texto. Senão, ele irá ouvir aquilo e não fará sentido nenhum”, afirma. Jotabê Medeiros concorda: “Por exemplo, você vai resenhar o novo disco do Arctic Monkeys. É bom que tenha conhecido Syd Barret e os primórdios da música psicodélica inglesa, senão você irá achar que eles acabaram de inventar alguma coisa”. Para o crítico do Estadão, escrever sobre música, em qualquer veículo, exige uma formação complexa “que não tem escola”, apenas o maior contato possível com as obras dos artistas.
Pablo Miyazawa, editor-chefe da Rolling Stone, por outro lado, procura analisar discos como produtos que os músicos colocam nas lojas. “Não conheço muita gente que saiba transmitir, em palavras, a emoção que se tem ao escutar uma música. É muito complicado”, opina, deixando claro que sua análise se baseia na intenção do artista ao lançar o disco. “Cada um escuta música de uma maneira. Você pode falar que tal canção te emociona ou dá vontade de dançar. Isso sim pode ser descrito.” Para ele, o artista vende sua arte, estando, dessa maneira, sujeito a ser avaliado.
Assim como Mário de Andrade, Miyazawa é músico – o que, segundo ele, o ajuda na hora de escrever. Apesar disso, não acredita que seja necessário saber tocar algum instrumento para ser um profissional da área. “Acho que tenho uma visão de análise diferenciada, ajuda muito no entendimento, mas isso não quer dizer que uma pessoa sem base teórica esteja impedida de escrever sobre música”, diz, constatando que a maioria dos críticos que conhece não sabe tocar nada. Assim como Jotabê, que confessa não saber “tocar nem campainha” e afirma conhecer gente que toca “Maravilhosamente bem, mas não consegue escrever uma linha direito”.
Para o editor-chefe da Rolling Stone, tocar e ouvir música não é a parte principal da cobertura do jornalismo musical, mas ele acredita, no entanto, que “Seria ótimo se todo mundo pudesse ter a habilidade de tocar um violão, de entender do que está falando”. Mesmo assim, Miyazawa, músico antes de tornar-se jornalista, não se considera um profissional especializado somente em assuntos musicais. “Prefiro ser um jornalista sem ‘complemento’ porque assim estou aberto a outras oportunidades que poderão aparecer”, justifica.
Essa versatilidade é prezada por Jotabê, que também escreve matérias sobre política cultural. “Você tem de estar atento a diversas áreas: a policial, a política e tantas outras. O Jornalismo Cultural está inserido nesse contexto, assim como Economia e Esportes”, acredita, constatando a dificuldade de críticos, que, ao serem contratados por cadernos de Cultura, param de trabalhar com outros assuntos. “Escrevem apenas críticas, no esquema do ‘gosto’ ou ‘não gosto’. Como se a opinião deles fosse a coisa mais importante do mundo e, na verdade, opinião todo mundo tem”, diz. Para o jornalista, os textos devem revelar ao leitor que “Ali tem uma engrenagem, algo acontecendo. Por exemplo, não se coloca um show no Anhembi sem que haja um mercado de showbiz, um circuito de apresentações, agentes negociando, financiamento de público, Lei Rouanet, essas coisas”.
A escolha dos assuntos publicados, no caso da Rolling Stone, como explica Miyazawa, é feita com base na compreensão daquilo que o momento pede. “É avaliar e entender o que é bom, relevante, essencial”, afinal, “recebemos centenas de discos por mês e é impossível cobrir tudo”. A falta de espaço é sentida, principalmente, no caso dos jornais. Marcus Preto revela que, além de selecionar o que é relevante, tem de “brigar” por espaço. “Muitas coisas que acho legais ficam de fora. Parece que elas foram ignoradas, mas é o contrário”, conta. A maior dificuldade para o jornalista é conseguir publicar matérias sobre artistas iniciantes. “Você tem de provar que ele vai ser relevante, caso ainda não seja.”
Jotabê quase sempre escolhe sobre o que irá escrever, com exceção dos casos em que “Os fatos são muito maiores do que a minha vontade, como um show do U2, por exemplo”. Por tratar-se de uma das maiores bandas do mundo, com a turnê mais lucrativa da história, o evento precisa de cobertura. “Vou ter que ir para o local do show, ficar em porta de hotel, fazer plantão e tudo mais”, conta. Em relação a pautas “não óbvias”, ele acredita que é preciso tê-las e impô-las. “Se você cria isso como hábito, dificilmente será massacrado pela agenda de cultura, que é bem ingrata”, afirma.
Mercado editorial
Segundo Jotabê Medeiros, uma nova relação com música surge com a migração da crítica para o meio eletrônico, “Tanto é que o disco praticamente não existe mais”. Ele acredita que os grandes embates ainda são travados nos jornais, mas que há um bom trabalho sendo feito em blogs e sites.
Alex Antunes, editor da revista Bizz na década de 1980, discorda em parte. “A indústria musical se desorganizou toda e os antigos críticos e veículos que eram levados a sério estão todos uma grande lástima. Não que não tenham boas análises, mas isso já não está se expressando por meio de veículos usuais”, afirma. Para ele, não há espaço nem dinheiro nesses meios, o que faz com que a internet seja o refúgio daqueles que escrevem sobre música, profissionais ou não. “Acho que, por isso, a crítica não tem a menor importância nesse momento. Boa parte das pessoas não tem todo o tempo e toda a disposição do mundo para ficar navegando em milhares de sites, nem escolher as suas prediletas entre todas”, diz, apontando que, em breve, novos “filtros” deverão surgir para indicar o que pode ser relevante.
No Brasil, uma referência no segmento musical foi a revista Bizz, lançada em 1985, ano em que aconteceu a primeira edição do Rock in Rio. Na época, com a redemocratização do país, assuntos ligados à cultura jovem começaram a receber mais atenção, o que impulsionou a criação da publicação que encerrou suas atividades em 2007, deixando uma lacuna em nosso mercado editorial. Desde então, não houve nenhum outro título exclusivamente musical de largo alcance, a não ser as especializadas em heavy metal, Roadie Crew e Rock Brigade, que colocam juntas apenas uns 60 mil exemplares em circulação todo mês. Existem também aquelas dedicadas ao aprendizado de instrumentos, caso da Guitar Player, que traz entrevistas com guitarristas e lições de técnica musical. Alex Antunes acredita que a tendência seja essa, “A segmentação por estilo ou faixa etária”.
De um modo geral, o mercado de publicações de papel sofre com constantes baixas no número de vendas, que não sustentam uma revista por si só. Também são necessários anunciantes, difíceis de serem conquistados pelos títulos de música, segundo Miyazawa. “De alguma forma, os anunciantes pensam que o leitor de uma revista de música só gosta de música, o que não é verdade. Ele também toma refrigerante e dirige carros”, diz. É por esse motivo que a Rolling Stone se assume como uma revista de entretenimento e não apenas de música. “Atrapalharia, comercialmente falando, se fizéssemos assim. A revista não estaria onde está”, revela.
Alex Antunes concorda que não há anunciantes suficientemente dispostos a sustentar uma revista de música. “Além disso, no Brasil, não temos uma grande tradição em publicações especializadas em música, como existe na Inglaterra, por exemplo. É natural que elas não existam mais por aqui”, opina. Já Miyazawa acredita que a internet cumpre essa função. “Acho que existe mais espaço para uma revista que fale de vários assuntos do que uma que seja apenas sobre música. Há bons sites que conseguem preencher essa lacuna da coisa mais específica”, afirma.
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