Arte do canal

índice geral



Home / Cultura Geral / Filmes

12/12/2011 - 13h27 - Atualizado em 24/05/2012 - 02h26

A filosofia por trás do Efeito Borboleta

Por Bruna Caravalho Marques e Livia Di Bartolomeo, alunas do 3º ano de Rádio e TV

Filmes de ficção contém muito mais do que apenas histórias bem escritas

Compartilhe:


Reprodução

Por mais que muitas pessoas digam não gostar de filosofia, ou mesmo não ter interesse pelo assunto, é comum que assistam a filmes baseados em conceitos filosóficos, mesmo que não saibam disso.

Um desses filmes  é o Efeito Borboleta, cujo título original em inglês é Butterfly Effect, lançado em 2004, dirigido e roteirizado por Eric Bress e J. Mackye Gruber. Ashton Kutcher interpreta um rapaz que, assim como seu pai, tinha surtos de falta de memória, ou blackouts, quando criança. São esses momentos que causam os “pontos de virada” do filme.

Ao ficar mais velho, Evan percebe que, ao ler os seus diários,  é capaz de voltar ao passado, especialmente para aqueles momentos dos quais não conseguia se lembrar, mas se recordando do que teria acontecido durante dos blackouts. Porém, sua intervenção durante essa excursão ao passado deixa os outros personagens atormentados, causando até o suicídio de Kayleigh, uma de suas amigas e sua paixão.

Assustado, tenta reler alguns de seus cadernos para voltar e evitar o suicídio de Kayleigh. O problema é que nada permanece igual ao que se lembrava. Qualquer nova decisão que ele toma em suas voltas ao passado se deflagra nas consequências mais diversas ao voltar para o presente.

É aqui que se torna possível comparar o filme com o pensamento do pré-socrático Heráclito (540 a.C a 470 a.C) começando com uma citação retirada do livro Convite a filosofia de Marilena Chauí: “O mundo, dizia Heráclito, é um fluxo perpétuo onde nada permanece idêntico a si mesmo, mas tudo se transforma no seu contrário. A luta é a harmonia dos contrários, responsável pela ordem racional do universo. A nossa experiência sensorial percebe o mundo como se tudo fosse estável e permanente, mas o pensamento sabe que nada permanece. Para Heráclito tudo se torna contrário de si mesmo. O logos é a mudança e a contradição.

O que acontece com Evan se encaixa nesse pensamento, pois ao resolver um de seus problemas, surgem outros, ainda mais complexos. Evan também muda, não em relação aos sentimentos, mas sim em como viveu sua vida. Por isso, a cada nova situação, vemos uma nova personalidade que ele demora a compreender. As pessoas ao seu redor também sofrem as influências dessas mudanças.
Mais uma vez nos utilizamos de um exemplo da teoria de Heráclito. Evan seria o rio modificado, ou seja, ele nunca é o mesmo, pois “nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”.

Outra questão observada no filme é a constante referência ao tempo. Para Heráclito, o conceito de tempo é abstrato e existe a partir dos opostos. Ele é e não é, e está posto numa unidade e, ao mesmo tempo, está separado, ou seja, é abstrata contemplação da mudança já que o conceito de passado, futuro e presente foi convencionado, foi o ser humano que deu sentido e significado ao tempo.

Para o personagem, voltar ao tempo passado significa “reparar” alguns detalhes de sua vida. Mas, ao interferir no que já aconteceu, muda seu presente.
O título do filme remete à Teoria do Caos, citada no início do filme. Esse efeito foi analisado pela primeira vez em 1963 por Edward Lorenz, e diz que o simples bater de uma asa de borboleta pode mudar o curso natural das coisas, podendo até causar um terremoto do outro lado do mundo.A cada pequena ação de Evan, ou seja, um “bater de asas”, diversas mudanças impensáveis se desenrolam a partir disso.

Em oposição, podemos comparar o filme com os pensamentos de outro pré-socrático Parmênides (530 a.C. a 460 a.C.), que sustenta a idéia contrária a de Heráclito, dizendo que a mudança é algo criado no mundo dos sentidos e é ilusória. Ao contrário de Heráclito que afirma que “tudo muda”, Parmênides diz que “nada muda”. Assim, por mais que suas águas mudem de posição, um rio será sempre o mesmo rio. No filme, essa teoria se aplica ao próprio Evan, que mesmo passando diversas vezes pela mesma situação de diferentes maneiras, sua essência permanece a mesma da primeira vez em que resolve voltar ao passado.



Comentários Comentários Postados
Comentários Envie o seu comentário

Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler

Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.

Os comentários devem se ater ao texto publicado.

Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.

restam caracteres.