Com “A Noite dos Mortos Vivos”, George Romero faz uma análise ácida da sociedade americana durante a Guerra Fria

Uma estrada vazia. É com essa imagem que se inicia A Noite dos Mortos Vivos (1968), de George Romero. Mais do que influenciar o gênero do horror, o filme traz uma série de críticas à sociedade americana e à Guerra Fria.
Por exemplo, os mortos vivos são vistos como pessoas normais, diferindo apenas nas roupas rasgadas, na movimentação moribunda e, obviamente, no canibalismo.
A primeira aparição de um zumbi acontece nos primeiros minutos. Os irmãos Johnny e Barbra prestam homenagens ao pai falecido, enquanto um homem aparentemente comum caminha na direção deles. Somente após serem atacados é que se estabelece o medo. Portanto, chegamos à conclusão que os mortos vivos metaforizam a ameaça à sociedade americana da época: os socialistas.
Aos poucos, o grupo atípico de homens se aproxima sem suspeitas, misturando-se. Mais do que temer o ataque, os vivos temem a ideia de que o mundo ‘normal’ possa não mais existir depois da contaminação.
O ataque resulta na morte de Johnny e na fuga de Barbra, que encontra uma casa aparentemente vazia. Uma vez lá, a moça se depara com cabeças de animais empalhados. Trata-se de uma cadeia alimentar: os animais, símbolos do consumo, foram presas do homem capitalista. Este, por sua vez, será a caça de um novo predador.
Em meio ao horror surge Ben, outro sobrevivente. Vale observar o estereótipo dos personagens: Barbra é loira de olhos claros, feminina e frágil, simbolizando a Europa pós-guerra. Ben é negro, seguro e racional, norte-americano comum. Mais uma referência ao conflito com os soviéticos: para combater o mal, os ‘mocinhos’ deveriam se unir.
Um rádio informa que “uma onda de assassinatos atinge o país, e que os criminosos comem a carne das vítimas”, revelando, ainda, o medo dos agressores pelo fogo. A metáfora acentua-se: os ataques se devem à satisfação de um instinto básico - o objetivo é engolir os privilegiados. O medo do fogo demonstra outro caráter primitivo dos mortos, um retrocesso ao estágio pré-civilizado.
Novas personagens são apresentadas: Harry, homem controlador; sua mulher, Hellen e Karen, filha do casal, mordida por um morto vivo. A cooperação logo se mostra insustentável: Harry e Ben, numa disputa pela liderança, separam-se. A sociedade é incapaz de se unir, e as diferenças e interesses individuais prevalecem.
A televisão da casa fornece novos dados: a contaminação devia-se a um satélite carregado de radiação, referência ao conflito nuclear. Em seguida, um repórter interroga autoridades do exército sobre o incidente, que, constrangidos, são incapazes de explicar - o governo causou a crise, e quem pagava com a carne eram os cidadãos.
Finalmente, um especialista diz que “caso um conhecido venha a falecer, não há tempo para rituais fúnebres. Deve-se queimar o corpo imediatamente, já que uma mordida inicia a contaminação”, o que expõe de forma crua a mentalidade da época: não há espaço para sentimentalismos; se um ente virar um deles, queime-o.
A desordem impera. Em vez de unirem-se, Ben e Harry novamente se confrontam, agora pela posse de uma arma. Em meio à confusão, Harry sofre um disparo. O inimigo externo já não é mais necessário: os sobreviventes se destroem.
À iminência da invasão da casa, Hellen se depara com a filha, já morta-viva, devorando o próprio pai, que morreu ao seu lado. A garota parte para a mãe, que domada pelo instinto maternal, permanece imóvel e é assassinada. Barbra é morta pelo próprio irmão e apenas Ben se salva, trancado no porão.
A destruição pelos próximos intensifica a mensagem tão difundida durante a Guerra Fria - ninguém é confiável. Por outro lado, existe a crítica inversa: o horror da guerra atingiu tão intensamente os cidadãos ao ponto de fazê-los delatar entes queridos.
Pela manhã, uma equipe de extermínio chega e se aproxima da casa para procurar sobreviventes. Veem Ben, de longe, e atiram. O final é uma nova crítica: a ânsia em combater o inimigo nos cega, fazendo-nos atirar sem pensar duas vezes. Quem deveria nos salvar é quem nos coloca em perigo. A última cena do filme mostra o corpo de Ben, junto aos outros mortos, empilhados e queimados numa fogueira: todos iguais, no mesmo destino.
Assim, A Noite dos Mortos Vivos se mostra efetivo. Como crítica social, dissecou uma sociedade que, encolhida pelo medo, toma decisões inconcebíveis. A estrada vazia do início é um prelúdio do filme: numa sociedade internamente afetada pela paranoia e conduzida pelos instintos e interesses, não há quem socorra no percorrer do caminho.
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