O protagonista Marcos Felipe conta detalhes sobre a peça, que retrata a intolerância de uma sociedade dos anos 60 à homossexualidade
Luis Antônio-Gabriela, da Cia. Mungunzá de Teatro, que recebeu destaque no festival Satyrianas, encerrado no dia 14 de novembro, estará nos palcos do Complexo Cultural Funarte São Paulo, até fevereiro de 2012. O espetáculo já recebeu três indicações ao prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), cinco para o Prêmio Shell de Teatro e três nomeações para o Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro.
O grupo, formado em 2006, reestreou a peça no último mês de outubro. O diretor Nelson Baskerville, com a intervenção dramatúrgica de Verônica Gentilin, apresenta a história de seu irmão Luis Antônio, que enfrentou agressões e preconceitos ao tentar assumir a homossexualidade diante de uma sociedade brasileira conservadora dos anos 1960. Ele se muda, então, para a Espanha, onde vive até o final de seus dias, sob o codinome de Gabriela.
Seis atores interpretam personagens reais da família do diretor como o pai Paschoal, a madrasta Doracy, o amigo da família Serginho, a irmã Maria Cristina, o próprio diretor Nelson, o irmão Luis Antônio e outros. Uma curiosidade sobre a peça é que os próprios atores fazem, em cena, a trilha sonora e a iluminação do espetáculo. O protagonista e produtor geral, Marcos Felipe, conta sobre o processo de montagem do espetáculo e também sobre seu próprio personagem na entrevista abaixo.
Qual é a importância do tema da peça?
Esse espetáculo traz uma coisa que é riquíssima: a gente faz uma revolução sem pegar em armas. As pessoas que vêm assistir saem daqui modificadas através da poesia. A gente tem plena noção de que as pessoas saem do teatro, encontram um travesti na primeira esquina e já olham pra ele com outros olhos. Na peça não existe mocinho ou bandido, porque todo mundo é humano. Todo mundo, em algum momento da vida, foi bandido ou mocinho. E não tem problema, o importante é reconhecer esses momentos e se desculpar com quem pisou na bola. É um espetáculo que fala disso. As pessoas saem daqui com vontade de serem mais humanas. E é isso que eu acho incrível.
Como foi o trabalho de pesquisa dos atores para montar os personagens?
Eu acho que pra mim foi um pouco mais fácil do que pras pessoas que interpretam personagens vivos. Os únicos que já faleceram foram o personagem do pai e o que eu faço. Então, não foi tão difícil porque eu não precisava parecer com alguém que estava vivo. As minhas referências foram todos os travestis. Fui buscar em filmes, na vida real, a maneira de falar, como eram todas as coisas. Eu estou representando uma classe de travestis, não necessariamente o Luis Antônio. Tudo o que era criado era parecido com esse universo. E aí o diretor falava “isso aqui está faltando, isso precisa ser mais”. Eu lembro que ele ficava me puxando, porque eu tinha uma dificuldade muito grande de rir. Ele falava: “este personagem é alegre”. Foi difícil pra mim, mas depois que eu comecei a rir, ficou bacana.
Como foi a produção da trilha sonora?
Desde o primeiro trabalho a gente já tinha uma vontade de tocar um instrumento. E como foi um ano improvisando, isso surgiu. A gente chegou com uma guitarra, com um baixo, sem saber tocar. Eu já tocava guitarra e morria de vontade de tocar acordeão. Então, foi a deixa. Aí todo mundo foi aprendendo. O diretor musical falava “se você fizer isso com o baixo e isso com a guitarra fica bonito”. Mas tudo isso saiu da gente.
E a montagem do cenário e da iluminação?
Eu sou produtor, assino iluminação e cenário. Mas todo mundo faz tudo. Eu assino porque eu executei. Não foi um belo dia que a gente decidiu: “nosso cenário vai ser assim”. A gente ficou um ano ensaiando, todo mundo trouxe e criou. A gente trabalhou com luz fria, porque não queria depender da luz do teatro. A gente não queria depender de técnico. A figura do técnico que a gente queria, era um técnico em cena. Um técnico performer.
Como é ter tanto reconhecimento, sendo um grupo tão jovem?
Eu não sei se a nossa ficha não caiu. O que a gente costuma dizer é que você faz o processo com um objetivo. Sucesso não é o objetivo principal. Quando você tem o sucesso de um trabalho que você fez, você não se apega a ele. Chegar aqui, duas horas antes do espetáculo, e ver que tem uma fila e vai esgotar, isso é incrível. A gente fica feliz, mas esse negócio do sucesso subir à cabeça não rola muito, porque aqui todo mundo chega cedo, monta, desmonta, cada um tem uma função.
Luis Antônio - Gabriela
Quinta a domingo, às 21h30
Complexo Cultural Funarte São Paulo
Rua Alameda Nothmann, nº 1058 - Campos Elíseos
Ingresso: R$ 5,00
Telefone: (11) 3662-5177
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