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07/11/2011 - 12h17 - Atualizado em 19/06/2013 - 23h15

O desejo de nobre inquieta: mulheres no páreo

Por Alessandra Campos, Gabriela Valdanha, Júlia Daher, Júlia Mel e Runan Braz, alunos do 1º ano de Jornalismo

Entrevista com a filósofa Márcia Tiburi, uma das precursoras do feminismo

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Reprodução

Ser mulher e filósofa, isso é possível? Porque existem tão poucas filósofas brasileiras? Esse fenômeno é mundial? As mulheres já atingiram o mesmo patamar de importância política, social e econômica dos homens? Ou elas ainda são submissas? Isso vai mudar? Essas são perguntas polêmicas que não podem ser respondidas por qualquer um. Por isso, a filósofa Márcia Tiburi (41) tentou, a partir de um paralelo mundial e de sua própria experiência, explicar tais processos.

Desde sempre a mulher sofreu preconceito, era vista como um objeto sexual feito apenas para servir ao homem, desprovida de qualquer capacidade intelectual. Ela deveria aprender, mas apenas o que convinha a sociedade, ou seja: passar, cozinhar, lavar, ter bons modos e boa aparência. No entanto alguns inquietos perceberam que isso não estava certo. Quem disse que a mulher não pode pensar? Na verdade, todo mundo, mas mesmo assim alguns curiosos procuraram e acharam escritos de mulheres que tentavam quebrar os paradigmas das suas respectivas épocas e aos poucos foram expondo-os para a sociedade. Márcia Tiburi foi uma dessas pessoas inquietas. Insatisfeita com o fato de que apenas os homens faziam filosofia foi uma das precursoras do feminismo. E contrariando o que muitos pensam feminismo não significa uma superioridade, mas apenas a igualdade entre sexos que as mulheres sempre buscaram.

Márcia relaciona temas atuais com a filosofia. Seu último livro, por exemplo: Filosofia Pop, Poder e Biopoder (Ed. Bregantini, 2011) reúne seus artigos publicados desde 2008 na Revista Cult. Além desse livro, ela já escreveu vários outros, entre eles as antologias: As Mulheres e a Filosofia (Ed. Unisinos, 2002) e O Corpo Torturado (Ed. Escritos, 2004), Uma Outra História da Razão (Ed. Unisinos, 2003), Diálogo Sobre o Corpo (Ed. Escritos, 2004) e Filosofia em Comum (Ed. Record, 2008). Ela é Doutora em Filosofia pela UFRGS, professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie e foi apresentadora do programa Saia Justa no GNT.

A que fatores, primordialmente, você relaciona o fato de termos poucos nomes femininos na história da filosofia brasileira?

O Brasil obedece às mesmas leis do patriarcado mundial e com um agravante que é o período da ditadura militar, que proibiu a filosofia, banindo-a das escolas. Mas essa filosofia que foi banida já era excluída da produção intelectual das mulheres. As mulheres não participavam tanto da universidade. Claro que algumas faziam curso de filosofia, mas, na divisão histórica do trabalho, a filosofia sempre foi um assunto de homens. A cultura patriarcal sempre atribuiu aos homens a capacidade de pensar. A tarefa do pensamento foi tomada por eles para si mesmos e sobrou para as mulheres cuidar das crianças, limpar a casa e tirar foto nua para revistas da sociedade patriarcal.

E quem são as filósofas brasileiras?

Quando eu penso aqui no Brasil e leio os textos das minhas colegas, vejo quem é que está saindo dessa linhagem de subserviência acadêmica e tentando fazer alguma coisa diferente. Acho que são muito raras; gosto muito das minhas colegas, mas acho que várias estão engatinhando. Gosto da Suzana Albornoz, uma gaúcha, essa tem voos muito próprios. Tem voos próprios também a Lívia Guimarães, voos feministas. Gosto da Imaculada Kangussu, que é outra mineira bem interessante. Tem uma relacionada a teoria da arquitetura, mas que também trabalha com filosofia crítica que é a Cic Carc, que também é mineira; muito raras as mulheres que estão ligadas a questão da filosofia e fazendo algo diferente.

Em seu texto “Mulheres e Filosofia” (da revista Cult de maio de 2007) você fala do “pensamento para além do gênero”, citando o “Feminismo como defesa dos direitos da humanidade” de Mary Wollstonecraft, que foi uma das primeiras mulheres a pensar o feminismo como meio de educação e reivindicar os direitos das mulheres, ainda no século XVIII. Você acredita que o “movimento feminista” é uma via possível para se chegar a um certo “equilíbrio” entre vozes femininas e masculinas?

Então, eu acho que uma das grandes transformações da cultura nos últimos 200 anos foi o feminismo. Penso assim, a invenção da fotografia e do cinema, ou seja, da imagem técnica. Isso deu um novo rumo para a história da humanidade, o feminismo também. Você pode colocar a psicanálise também como novo rumo e muito próxima do feminismo. O que Freud fez, por mais que ele tenha falhas, investigando o pensamento das histéricas, foi fundamental para a história da emancipação das mulheres. As mulheres operárias, em função de saírem de casa para trabalhar, foram muito mais importantes para a história do próprio movimento, mais do que as próprias teóricas. Agora, a teoria sistematiza anseios e questiona verdades impostas no contexto social.
Eu fui percebendo que era muito urgente não só você ler essa história da filosofia na contramão do discurso vigente, mas mais do que isso, era importante você se tornar feminista. Eu fui percebendo que a autoafirmação irritava muita gente. E essa Mary Wollstonecraft defendeu um ideal de feminismo como defesa dos direitos da humanidade. Então é todo mundo, vale pra qualquer um. Não interessa sexo, cor, classe social, nada.

Há um texto da Maria Rita Kell que fala que, até pouco tempo, eram os homens que discutiam o aborto, então está na hora das mulheres tomarem partido disso...

Eu já escrevi exatamente a mesma coisa, há uns 5 anos, na Folha de S. Paulo. O problema é que todas as questões que envolvem as mulheres são primeiro discutidas pelos homens. Nesse texto que vai sair em “Filosofia Feminista”, eu já começo dizendo que é um assunto que não interessa aos homens e escrevo, a todo o momento, me dirigindo as mulheres. Esse assunto é próprio de quem nele tem envolvida sua própria corporeidade, sua sexualidade, e que tenha que patrocinar e pagar a conta da sua própria autonomia.

Na sua opinião, qual é a diferença da relação corpo-mulher que existia e que existe hoje?

Nenhuma. A mesmíssima coisa. As mulheres ainda são vistas como corpos, ainda são marcadas como sexo, e ainda são usadas pelo sistema. As mulheres foram eleitas pelo patriarcado como sendo a casta a ser devorada. Nenhuma diferença em você ver a Venus deitada dormindo do Giorgione de 1513 e a Adriane Galisteu na capa da Playboy. É a mesma coisa, a venda da mesma mercadoria, carne feminina sensualizada, para quê? Os meios de comunicação fazem esse discurso, do ponto de vista do texto e do ponto de vista da imagem. Imagem é texto, texto é imagem. A religião faz a mesma coisa, o discurso biopolítico tentando controlar o corpo das mulheres: “seja mãe, não use camisinha”. E ao mesmo tempo, a cultura mais popular faz a mesma coisa.

A partir dos anos 1960 a mulher conseguiu mais direitos, teve o movimento dos biquínis, a mulher começou...

A meu ver é uma armadilha. É uma libertação quando a Leila Diniz resolve ir para a praia do seu jeito. As mulheres resolvem que vão andar como quiserem. Só que os meios de comunicação, o sistema capitalista, o arranjo patriarcal deram um jeito de transformar essa libertação das mulheres em nova submissão. Revistas de mulher pelada, ninguém vai dizer que é libertação feminina. É escravização. As mulheres do funk dizendo “faço isso, faço aquilo”, não é libertação, você só encontrou um algoz. E você pode ver, nós temos mil discursos e estratégias que tentam sensualizar as mulheres na intenção de despolitizá-las. Vocês se lembram da Michelle Obama quando o Obama se tornou presidente? Era o cabelo da Michelle, o peito da Michelle, a roupa da Michelle, o que fazia o discurso dos meios de comunicação.
A mulher que eu acho mais bacana no Brasil inteiro é o Laerte. É a mulher mais bacana e revolucionária que eu conheço. O Laerte agora é uma mulher.

Não tem chance nnhuma dessa situação se inverter, as mulheres serem o poder, ou pelo menos chegar ao mesmo nível?

Já se inverteu um tanto, 50% da universidade está tomada de mulheres e isso cresce, nas corporações também. Mas só vai mudar mesmo na hora em que o salário ficar compatível. Nesse aspecto, pelo menos, a universidade é uma corporação um pouco diferente das outras, você é um professor e recebe o salário de um professor, tudo igual. Mas no mundo da administração, do governo, as mulheres são muito prejudicadas. Muda sim, mas muda devagar.