Arte do canal

índice geral



Home / Cultura Geral / Filmes

11/10/2011 - 11h10 - Atualizado em 23/05/2012 - 18h43

Paixão em estágio fetal

Por Rodrigo Oliveira, Editor do site

"Closer - Perto Demais" investiga o universo dos relacionamentos numa perspectiva indigesta

Compartilhe:


Reprodução
O quarteto Julia Roberts, Jude
Law, Clive Owen e Natalie
Portman

Incalculáveis demonstrações de afeto, - geralmente precipitadas - ceder aos caprichos do outro, entregar-se sem prever o que está por vir, domesticar os acessos de raiva diante de costumes e manias detestáveis. Em suma, incluir a tolerância em nossas vidas. É disso que o incipiente encanto sobrevive, mesmo nunca evoluindo para amor. Um feitiço é lançado e ninguém sai incólume desse logradouro sem vazão, nem mesmo as personagens de Closer - Perto Demais (2005), obra-prima de Mike Nichols.

Dan, Alice, Anna e Larry, quatro vítimas de um jogo cujas regras desconhecem, revelam-se autodidatas no passatempo da implacável mútua atração, como mostram as consequências dos atos de cada um. Dan (Jude Law) é um escritor de obituários que conhece Alice (Natalie Portman), devido a um acidente sofrido pela moça. A jovem, que trabalhava como stripper em Nova York decide ganhar a vida em Londres. Eles engatam uma relação, que sofre abalos com a chegada de uma linda mulher.

A fotógrafa Anna (Julia Roberts) é a responsável pela foto inclusa no livro de Dan, inspirado na vida de Alice. Ele se sente instantaneamente atraído por Anna e tenta persuadi-la para que possam se encontrar mais vezes. Mas o enlace do futuro casal é adiado, graças à aproximação de Anna e do médico Larry (Clive Owen), que se conhecem devido a uma maliciosa brincadeira de Dan em um chat na internet. 

A companhia de Larry não é suficiente para afastar o desejo de Anna por Dan. O reencontro da fotógrafa e do escritor não destrói somente as atuais relações que mantém, mas desviam os seus antigos cônjuges de suas, até então, regradas vidas. Conclusão: Alice volta a trabalhar como stripper, e Larry passa a frequentar a noite atrás de uma profissional que alivie as suas sórdidas fantasias, propiciando o encontro com a ex de Dan. Vidas que se uniram ao desassossego e foram de encontro a uma sequência desconcertante de equívocos guiados por sentimentos efêmeros, sem razão de ser, já que em Closer - Perto Demais, a lógica do sentir inexiste.

O diretor Mike Nichols presenteou os espectadores, ao realizar grandes filmes como A Primeira Noite de Um Homem, revelando astros como Dustin Hoffman e Anne Bancroft e na certeira adaptação da peça de Edward Albee, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, com Elizabeth Taylor integrando o elenco. Mas parece que o potencial do aclamado realizador hibernou durante quase 40 anos, pois desde os longas da década de 60, Nichols não dirigia um filme tão bem afamado. Coincidência ou não, assim como Quem Tem Medo..., Closer - Perto Demais é baseado em texto originalmente escrito para o teatro e foi transportado para as telonas pelo retentor da ideia original, Patrick Marber.

O texto é ferramenta crucial para o desempenho dos atores. Os dilacerantes diálogos esfregam na face do espectador as mágoas transformadas em francas grosserias que se proliferam do meio até o final da película. Marber categoriza as personagens, cada uma dentro de suas particularidades, oferecendo ao público um revival diante das apresentações dos papéis antes de se envolverem nesse círculo vicioso da atração. 

Destaque para a atuação de Clive Owen, que desperta sensações diversas no espectador, devido às facetas que a sua personagem adquire durante o filme, como a do charmoso médico de arrogância ímpar até a do cafajeste munido de inenarrável aspereza. Outro ponto alto é a trilha sonora, que insere logo na cena inicial, The Blower's Daughter, de Damien Rice, bela música que o tornou conhecido e possibilitou que muitos se interessassem por seu trabalho.

"Hello, stranger", primeira frase do filme e dita por Alice ao avistar Dan, sintetiza perfeitamente a escolha do quarteto, ao embarcar rumo a um terreno desconhecido. O egoísmo, mesquinhez e cabotinismo dessas quatro peças chaves criadas por Marber, os levaram a enfrentar a paixão em seu estágio fetal; fase em que é comum deixar o encantamento ludibriar a maturidade adquirida com experiências passadas e abortar um futuro sentimento devido às recorrentes escolhas equivocadas de corações sedentos por afeto, nem que seja de segunda mão.

O roteiro de Marber unido à imponente direção de Nichols (que "recheia" a tela com planos que explicitam até as mais sutis emoções das personagens), tornam Closer - Perto Demais um filme em que todos são doutores de si, onde cada um descobre o próprio remédio para amenizar a dor causada pelos seus erros. Mal sabem eles que essa automedicação de nada vale, já que vivem sem coragem para enfrentar os efeitos colaterais.



Comentários Comentários Postados
Comentários Envie o seu comentário

Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler

Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.

Os comentários devem se ater ao texto publicado.

Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.

restam caracteres.