O escritor Fernando Morais fala sobre a sua obra e o trabalho de apuração para realizar grandes reportagens
Provocador. É o mínimo que se pode dizer da figura carismática e energética de Fernando Morais, que falou durante a penúltima noite de palestras da 19a Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Libero. O teatro estava lotado por alunos de todos os cursos, inclusive de fora da faculdade, assim como os professores que vieram ouvi-lo.
O ponto inicial da discussão foi a relação entre os livros A Ilha e Os Últimos Soldados da Guerra Fria, que trazem como ambiente o mesmo local: Cuba. "Não sou um teórico da comunicação e não posso dizer como o jornalismo deve ou não deve ser" disse, evitando entrar muito em questões gerais, sem a pretensão de dar uma aula, mas sim de estabelecer um diálogo. Contou, basicamente, sua história na profissão, que esteve atrelada diretamente às suas experiências na ilha de Fidel Castro. Até aquele momento, segundo ele, tudo o que havia sido publicado sobre o país vinha com uma carga pesada de crítica e oposição ao governo castrista e ao comunismo. O objetivo dele, no entanto, era trazer um novo olhar.
A matéria (que só depois viraria um livro) quase não saiu. Quando foi conversar com seu editor, Ruy Mesquita, este sentenciou que, em primeiro lugar, seria quase impossível conseguir um visto. E, mesmo que obtivesse, a censura imposta durante o período de ditadura militar jamais aprovaria uma reportagem sobre Cuba. Todavia, Fernando Morais não deixou de lado a insistência e crença de que conseguiria escrever aquela história. Ao regressar ao Brasil, muitos ficaram apreensivos em conferir o resultado de toda a apuração criteriosa do jornalista.
É impossível desatrelá-lo do discurso político. Declaradamente esquerdista, Fernando tem algumas opiniões que, enquanto incomodam alguns, arrancam aplausos de outros. Sua crítica é mais incisiva ao se referir à tradicional grande mídia. "A mesma mídia que se refere ao general Médici como ex-presidente chama o Chávez de ditador, e é ela que faz com que a atual geração veja o comunismo como um discurso envelhecido" diz em resposta à pergunta de um aluno sobre como os jovens vêem Cuba hoje em dia. "Hoje, qualquer um que tenha um celular e um notebook, se tiver o que dizer, será ouvido", constata.
Para os estudantes de Jornalismo, não tem como não se maravilhar: ao contar seu trajeto, Fernando passa por histórias quase hollywoodianas de destruição de documentos e perigo de sequestro; refere-se a Hugo Chávez, Fidel e Raúl Castro como se fossem velhos amigos; e demonstra que, quando se voa tão perto do poder, não tem como não entrar no jogo.