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05/10/2011 - 16h14 - Atualizado em 21/05/2012 - 15h56

Um trabalho para poucos

Em encontro na Faculdade Cásper Líbero, Jon Lee Anderson conta suas experiências na cobertura de guerra

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Divulgação

Guerra, destruição, explosões, sangue, morte. Elementos que fazem parte do trabalho do americano Jon Lee Anderson, referência no jornalismo internacional e especializado em coberturas de conflitos. Jon Lee esteve no Brasil para participar do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, realizado pela revista Cult e o SESC Vila Mariana.  De quebra, veio também à Faculdade Cásper Líbero no dia 21 de maio para conversar e compartilhar suas experiências com estudantes, professores e outros jornalistas.

Filho de diplomata, Jon Lee passou a juventude na América Central e conta que seu início de carreira se deu “por acaso”. Segundo ele, parte da vontade em ingressar na profissão nasceu com o desejo de ver com os próprios olhos o porquê de os latinos não simpatizarem com a política norte-americana. “Sempre tive um espírito aventureiro. O jornalismo apareceu como ferramenta para explorar o mundo.”

O reconhecimento internacional de Jon Lee veio graças ao livro Che Guevara: Uma biografia (Objetiva), publicado em 1997. Trata-se da mais completa biografia do revolucionário argentino que foi um dos protagonistas da Revolução Cubana de 1959 e tornou-se um símbolo mundial. Após a publicação da obra, Jon Lee ingressou na seleta equipe de jornalistas especiais da revista americana The New Yorker, famosa por suas longas reportagens.

 Recentemente, esteve na Líbia para cobrir a onda revolucionária que ficou conhecida como “Primavera Árabe”. No entanto, não foi a primeira vez que trabalhou com conflitos no Oriente Médio. Em 2004, publicou o livro A Queda de Bagdá (Objetiva), uma extensa e detalhada cobertura da Guerra do Iraque e do regime de Saddam Hussein.  A seguir, confira alguns destaques da conversa que Jon Lee Anderson teve com os alunos na Faculdade Cásper Líbero.

A primeira vez

A primeira vez que estive em uma guerra foi como se estivesse no filme Apocalypse Now. Eu estava em um combate real, mas minha sensação era de estar em um filme. Há coisas que vimos, mas que, internamente, sabemos que não deveríamos ter visto. Isso nos faz algum dano que não sabemos ao certo quantificar. Pude perceber isso na Líbia. Vi jovens jornalistas cobrindo os conflitos e dependendo de seus iPhones. Eles estavam à frente de prédios caindo, pessoas correndo e homens morrendo, mas agiam como se estivessem vendo um filme, não percebiam o local de extremo perigo em que estavam. Não tinham experiência, vivência.

Líbia

Estive na Líbia entre os meses de fevereiro e abril e passei mais três semanas escrevendo a reportagem para a The New Yorker, um trabalho que durou cerca de três meses. Tive que entrar no país pelo Egito, já que [Muammar] Kadafi não estava permitindo que estrangeiros chegassem à capital do país, Trípoli. Quando cheguei, as tropas do governo ainda não haviam contra-atacado os rebeldes. Mas, em poucos dias, a guerra estourou.

Muitas crianças e estudantes se converteram em soldados. E, com isso, resolvi escrever uma história que resumia em parte esse cenário. Conheci um homem que falava de seu filho de 21 anos, que era estudante de medicina e havia se alistado como guerrilheiro na revolução contra Kadafi. Tive uma conversa de pai para pai, e ele chorou, mostrando-se preocupado com seu filho na guerra. Um dia depois da conversa, nos encontramos novamente e ele me disse que havia recebido a notícia de que seu filho estava morto. E como o assassinato ocorrera em um território dominado pelas tropas do governo, não podiam recuperar o corpo.

Quando a OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] passou a atacar as forças de Kadafi, o Exército retrocedeu e aquele pai pôde finalmente ir para a cidade em que seu filho havia sumido. Osama, esse era o nome do pai, ainda acreditava que seu filho pudesse estar vivo. Mas o corpo do jovem havia sido encontrado por seus amigos e ele foi enterrado antes que o seu pai o visse. Disseram a Osama que o corpo do filho estava inusitadamente preservado. E isso, no mundo muçulmano, é significado de santidade, de ser bendito por Deus e que você morreu por uma causa justa. Assim, o pai começou a crer que seu filho era um santo. Fui com Osama até onde encontraram o corpo do filho, além de acompanhá-lo ao cemitério.

É uma longa história, mas para mim demonstra como a morte destroi e desestabiliza. Além disso, revela como as pessoas tendem a buscar explicações espirituais frente a atos tão crueis.

Reprodução

Che Guevara

Percorrendo o mundo das guerrilhas, vi que pessoas de ideologias completamente diferentes ao marxismo veneravam o Che. Ele era um ponto de referência, por exemplo, para os extremistas mulçumanos do Afeganistão. Era a encarnação de um tipo de pessoa que, por um ideal, muda sua vida completamente e vai até a clandestinidade, até a morte. Entretanto, mesmo sendo uma figura emblemática, eu pouco sabia sobre sua vida. Fiz pesquisas em livros e, os poucos que achei, não eram muito completos. Ele viveu 39 anos, a maior parte deles na atividade pública e, mesmo assim, havia muitas lacunas em sua história.

 

Escrevendo uma biografia

Para escrever Che: uma biografia, vivi em Cuba por três anos, passei por muitos países onde ele esteve, investigando e conversando com pessoas que o conheceram. Foi um trabalho de investigação jornalística e histórica que durou cinco anos ao todo. Não foi fácil trabalhar em Cuba, as pessoas que viveram ao lado de Che eram desconfiadas em contar suas histórias, afinal eu era um “ianque”. Mas tive a sorte de receber diários inéditos de guerrilha de Che e esse foi o melhor modo de pesquisa, pois não há jeito melhor de conhecer alguém do que lendo os seus próprios registros. E, pouco a pouco, fui rompendo a barreira que me separava de quem realmente era Che. Entrevistando seus amigos de infância e juventude, passei a descobrir quem foi o jovem Ernesto Guevara. Ele passou a se tornar um personagem crível para mim.

O trabalho demorou muito tempo para ser feito e os recursos, obviamente, não eram ilimitados. Os editores começavam a me pressionar e, no decorrer do projeto, a única coisa que não vendi foi minha alma. Mas creio que a hipotequei em algum momento...

O trabalho na The New Yorker

Após o lançamento de Che, voltei a atuar em uma redação jornalística na revista The New Yorker, uma publicação muito importante nos Estados Unidos, sendo a maior referência cultural e política de língua inglesa.  Desde 1998, trabalho de forma exclusiva para a revista, em uma atividade muito privilegiada, pois a publicação tem muitos recursos e uma audiência significativa, com mais ou menos um milhão de assinantes.

Escrevo crônicas, perfis políticos, apurações realmente longas. Para um perfil, por exemplo, entrevisto mais ou menos quarenta pessoas. Obviamente, todas essas fontes não entrarão no texto, mas busco submergir no mundo do perfilado, conhecendo diferentes realidades daquela pessoa.

Experiência real

Quando ligamos na CCN ou na Al Jazira, vemos apenas uma imagem. Pode morrer alguém em frente à câmera, mas é uma imagem que poderia ser exibida no cinema, por exemplo. Definitivamente não é a mesma sensação de estar presencialmente no campo de batalha. Se a tela pudesse emitir a dor da morte, seria genial. Horrível, mas genial. Quando se é um espectador passivo, só um sentido é estimulado: a visão. Falta o odor, o tato. Na guerra, há um odor de medo que as pessoas exalam. Não é um cheiro desagradável, mas muito forte. É um odor que só se sente quando se está perto da morte. Este tipo de coisa não é transmitida pela CNN.

Sri Lanka

No ano passado, escrevi uma história muito longa, que me custou sete meses. Foram quase treze mil palavras, não sei quantos caracteres ao certo, mas somavam vinte páginas na revista. Era uma reportagem sobre o Sri Lanka, onde uma guerra de guerrilha que já durava trinta anos foi aniquilada militarmente pelo governo. Foi um extermínio cruel, o Exército encurralou os combatentes e seus familiares. Em um dado momento, 5 mil guerrilheiros e 300 mil civis estavam cercados em um espaço equivalente a quatro estádios de futebol, recebendo artilharia pesada. Com o tempo, o governo foi expulsando os jornalistas e as ONGs. Apesar de não confirmarem, milhares de civis foram mortos durante o cerco. Quando os guerrilheiros se renderam, foram mantidos em um campo de concentração até que os lideres começaram a sumir subitamente, sendo assassinados. Quando fui para lá, me parecia inconcebível que nada estivesse sendo escrito sobre aquilo.

Experiência na guerra civil de El Salvador  

O exército salvadorenho era maluco. Eles tinham esquadrões da morte que cometiam massacres e odiavam a imprensa, pensavam que os jornalistas eram subversivos ou que éramos espiões dos guerrilheiros. Muitos jornalistas foram mortos, mas logo diziam que foi um acidente, um fogo cruzado. Uma vez, quase me mataram em uma emboscada em um rio. Passaram uma mensagem de que terroristas internacionais estavam cruzando o rio, quando os terroristas eram eu e mais dois fotógrafos. Mas, mesmo assim, temos que falar com essas pessoas. Devemos ir ao palácio do governo e fingir que eles não querem nos matar, que nos respeitam. “Por favor, uma entrevista?”, “Vamos tomar um cafezinho?” Às vezes temos de agir com normalidade mesmo sabendo estar ao lado de criminosos e de pessoas terríveis.

 Momentos difíceis

A pior parte do trabalho é ver gente morrer sem poder ajudar, sobretudo quando crianças são assassinadas. Ou estar presente quando os pais perdem seus filhos. Enfim, é muito difícil estar presente em momentos de grande dor. Recentemente, perdi dois amigos na Líbia. E isso é muito doloroso porque nos lembra do sacrifício que temos de pagar. Uma morte dessas nunca é correta, nos deixa uma sequela. Sempre voltamos mais tristes de cada cobertura de conflito.

Mas, repito, o pior é ter que presenciar a morte de crianças. É uma espécie de vergonha profunda, como adulto, porque a criança morre pela falha do mundo adulto e nada se fez para impedir.

Convivendo com a morte

Eu tento não pensar assim, mas não seria possível. Claro que já pensei na possibilidade real da morte. Mas é como as mulheres: dar à luz é extremamente doloroso, mas ao fim sempre querem outro filho. É como se esquecessem totalmente da dor. Sou algo parecido.

Mas tenho amigos que deixaram a profissão. Há momentos que são muito transformadores. Um amigo fotógrafo me acompanhou durante o massacre de Ruanda [1994]. Vimos pessoas agonizando em nossa frente, foi um momento muito marcante, muito impactante. Para ele, ainda mais: seu primeiro pensamento não era ajudar aquelas pessoas, mas tirar fotos. E, mesmo assim, não fez boas fotos. Pior ainda foi saber que não poderíamos publicar a notícia em nenhum lugar, já que ninguém se interessava por aquilo. Ele se traumatizou depois disso, deixou a câmera e se tornou um vendedor de imóveis.

Escolhendo um lado

Em uma guerra, ou se está de um lado ou de outro. Em Trípoli, o governo dava os vistos para jornalistas porque buscavam usar as notícias como propaganda. E era difícil se esquivar disso, já que agentes do Estado controlavam seu trabalho. Já no lado dos rebeldes, o maior perigo era tentar cruzar a linha e ser capturado ou morto. Amigos meus foram mortos e capturados. É preciso ter intuição e não confiar em nada. O campo de guerra é um lugar muito perigoso, sobretudo para iniciantes. Por exemplo, aquele que acabou de chegar não sabe que determinado local da cidade não pode ser visitado durante a noite. Muitas vezes, esse desconhecimento causa tragédias. Estar na guerra é como estar em um mar em tormenta. Não é um trabalho para todo mundo. É para poucos.

Censura do Exército dos EUA

Não devemos pensar que o Exército americano censura o trabalho dos repórteres. A questão é que o jornalista não pode divulgar certos tipos de informações que poderão afetar a tropa, como declarar a posição em que se encontram. Isso é normal, não podemos vazar informações de inteligência. Outro ponto é que não se pode revelar a identidade de um soldado morto antes que o Exército tenha tempo de notificar os familiares, o que também é lógico.

Tirando isso, o restante depende de você. Se fizer uma nota que irrite os militares, eles pouco podem fazer contra o autor. Mas é provável que você não os acompanhe de novo quando forem ao campo de batalha. No entanto, muitas das informações que recebemos de atrocidades e excessos de militares vêm dos jornalistas que acompanham as tropas.

Relação com as tropas

Apesar de não haver censura, há uma influência psicológica quando se acompanha uma tropa. Quando os militares são do mesmo país que o seu e falam a mesma língua que a sua, são os nativos que se tornam hostis. Assim, fica mais fácil produzir uma nota que privilegie aqueles que te acompanham do que falar bem de um desconhecido que quer te decapitar. Naturalmente, você sente agradecimento por aqueles que te protegem. Às vezes, esses jornalistas descobrem coisas como soldados matando civis, mas que preferem não publicar. 

Por isso prefiro me manter independente. Mas no Iraque e no Afeganistão, isso foi extremamente difícil. As pessoas de lá se tornaram muito hostis, especialmente com os americanos, e muitos não aceitavam sua companhia.