Responsável por encontrar obras de arte desaparecidas durante a Segunda Guerra Mundial, Hector Feliciano prova que o jornalismo cultural deve ser levado a sério

Além de conquistar toda a Europa, Adolf Hitler tinha outros objetivos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): construir um magnífico museu em homenagem ao “Terceiro Reich”. Para isso, saqueou obras de arte por todo o continente europeu, com destaque especial à França. Famílias judaicas que possuíam pinturas e esculturas de grandes artistas, além das galerias de arte dos países ocupados, foram sumariamente roubadas pelas tropas nazistas. Algumas peças conseguiram ser recuperadas pelos seus antigos donos após o final do conflito. Outras milhares permaneceram desaparecidas.
Décadas depois, parte dessa história foi revelada graças ao trabalho do jornalista porto-riquenho Hector Feliciano, autor do livro O Museu Desaparecido. Ainda sem edição brasileira, a obra, publicada em 1997, é fruto de um minucioso trabalho de pesquisa realizado durante oito anos. Além de dar luz à história do saque nazista, o jornalista foi responsável por encontrar mais de 3.000 obras de arte roubadas, a maior parte delas localizada em grandes museus, galerias e coleções particulares.
Segundo Feliciano, “A investigação era como um ato de loucura produtiva que me permitiu chegar ao ponto máximo, que era encontrar a obra roubada. Meu grande objetivo era encontrar o quadro, a pintura”. Primeiro livro que trata sobre o assunto, O Museu Desaparecido foi finalista do Prêmio Pulitzer na categoria não ficção.
Nascido no ano de 1952, o jornalista formou-se inicialmente em História da Arte, trabalhando na curadoria de museus. No entanto, como gostava de escrever e se interessava pela carreira jornalística, decidiu fazer um mestrado na famosa Escola de Jornalismo de Columbia, localizada em Nova York. Seu primeiro trabalho foi no jornal The Washington Post, sendo correspondente cultural em Paris.
Na entrevista, Hector Feliciano conta sobre o trabalho realizado em O Museu Desaparecido; a atual realidade do jornalismo cultural latino-americano; além da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, escola jornalística criada por Gabriel García Márquez, com sede na Colômbia e na qual Feliciano é professor. Segundo o porto-riquenho, “O jornalismo cultural deve ser tratado a sério”. Sua carreira não deixa dúvidas disso.

Como o senhor decidiu seguir a carreira de jornalista?
Fiquei atraído pelo tipo de vida levado pelo repórter, que é muito flexível, uma profissão onde se pode conhecer muitas pessoas. Além do mais, não há nenhum chefe em cima de você, eu podia evitar os chefes. Quando fui correspondente do Washington Post na Europa, na editoria de cultura, tive uma grande liberdade. E isso me encantava. Além disso, gostava muito de escrever.
E como surgiu a oportunidade de trabalhar no The Washington Post?
Foi uma grande chance que tive, trabalhei por muitos anos no jornal. O Washington Post tinha uma redação muito grande em Paris. Então, quando fui contratado, pouco a pouco fui mostrando a importância de o jornal ter um correspondente voltado exclusivamente para os temas da cultura.
E o que motivou o senhor a fazer uma pós-graduação em Jornalismo?
Fiz um mestrado na Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, com duração de um ano. Era voltada exclusivamente ao jornalismo e não à comunicação em geral. Nos Estados Unidos, há uma separação entre os estudos do jornalismo e da literatura, por exemplo. E isso é uma grande pena. Costumo dizer que em Columbia criam-se Clark Kents sem o Superman. E para mim, não me interessa apenas o Clark Kent. Me interessa também o Superman.
O senhor acredita que é necessário fazer uma graduação específica em jornalismo?
O que ajudou em minha vida de jornalista foi justamente a experiência não jornalística que tive, quando trabalhei em outros lugares. Vivi muitos anos na França e fiz outros trabalhos e essa experiência foi maravilhosa porque me enriqueceu. Quando tive que escrever, por exemplo, sobre um sistema administrativo, burocrático, ou como se desenvolvia uma exposição em um museu, sabia detalhes de como aquilo funcionava.
Quais são os autores e jornalistas que inspiram seu trabalho?
Gosto muito de [Gabriel] Garcia Marquez, Guimarães Rosa, [Jorge Luis] Borges, [Julio] Cortázar. Mais da metade daquilo que leio é literatura. Também leio muitas crônicas, como as de Martín Caparrós. E acredito que para ser um bom jornalista é necessário ler muita literatura, especialmente quando se trabalha nos meios impressos.
O senhor conhece alguns jornalistas brasileiros?
Infelizmente, conheço os jornalistas dos jornais impressos e não aqueles que escrevem livros. Mas sei que muitos escritores brasileiros fizeram jornalismo, como Clarice Lispector. Eu lia as colunas que ela escrevia aos domingos, no Rio. E era uma jornalista muito boa, fazendo uma mescla interessante de literatura e jornalismo.
A obra de Márquez, por exemplo, é conhecida no Brasil e em todo o mundo. Mas autores brasileiros são conhecidos no exterior, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector?
É uma pena, mas conhecem pouco a obra de Guimarães Rosa. Para mim, ele é um dos escritores mais importantes do século XX, com a magnífica obra Grande Sertão: Veredas. Mas isso acontece porque não teve uma promoção suficiente no mercado estrangeiro. Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, são autores reconhecidos internacionalmente, autores de clássicos. Mas aquilo que foi produzido dos anos 1950 em diante ainda não é tão divulgado.
O senhor acredita que se está fazendo jornalismo cultural de qualidade na América Latina?
Sim, por exemplo a revista Cult é muito boa, poderia ser facilmente publicada na Europa ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, se está cortando o dinheiro para a cultura, para o jornalismo cultural. E aqui, como na Argentina, Colômbia, se está discutindo o jornalismo cultural, passando a valorizá-lo. Esse dinamismo é muito importante e temos que nos agarrar a isso.
Poderia fazer uma comparação entre o jornalismo praticado nos países desenvolvidos, como os da Europa, e o que se faz na América Latina?
O que o jornalismo latino-americano tem de maravilhoso é o seu dinamismo. Em países da Europa ou nos Estados Unidos, eles já chegaram “ao teto”. É como uma espécie de rotina, parece não ter mais nada a explorar. Já na América Latina, em países como o Brasil, México, Argentina, Colômbia, Porto Rico, vejo que há muitas coisas a serem feitas em relação ao jornalismo. Por isso ele é dinâmico, ainda não chegou a um “tédio”. E esse é um detalhe importante, uma característica muito significativa para nós.
E as principais diferenças entre o jornalismo desenvolvido no Brasil com o de outros países latino-americanos?
O jornalismo brasileiro feito nas grandes cidades, como São Paulo, Rio, se assemelha com o melhor tipo de jornalismo realizado na Colômbia, Argentina ou México. É um jornalismo muito rico. Mas a principal diferença que vejo entre o jornalismo brasileiro e o da América espanhola está na valorização da crônica. No Brasil, há a revista Piauí e não muito mais, parece ser um gênero menos importante. Já na América Latina, a crônica está sendo feita por gente jovem em grande quantidade.
A Fundação não tem nenhum parceiro do Brasil...
A Fundação Nuevo Periodismo, idealizada por Gabriel García Márquez, convidou diversos jornalistas para fazer parte dela, eu sou um deles. Faço oficinas de jornalismo cultural. E a ideia da Fundação é oferecer oficinas pequenas por toda a América Latina. Em vez dos jornalistas irem à Colômbia, nós vamos para Buenos Aires, Caracas, Lima e realizamos oficinas com no máximo quinze alunos, de uma semana, de forma intensiva. Mas é algo que realmente “recarrega suas baterias”, atualizando e fortalecendo a formação jornalística. E agora, estamos tentando estabelecer um convênio com algum parceiro brasileiro, provavelmente em São Paulo. Temos nos esquecido um pouco do Brasil, mas é importante que o país pertença de fato e se integre à América Latina.
O Museu Desaparecido tem temas que versam sobre o jornalismo cultural e também investigativo. Como fazer uma convergência disso?
O interessante é que nunca o jornalismo cultural é tratado a sério. Pensam que é uma irmã menor da seção “Viagem” ou “Vida moderna”, tratada sem muito interesse. E sempre pensei que o jornalismo cultural tem muito valor e é tão relevante quanto à cobertura política, econômica.
Então realizei uma investigação que durou oito anos e resultou no livro O Museu Desaparecido. Encontrei mais de três mil obras de arte roubadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e que hoje estão em museus, galerias de arte, coleções privadas. Demonstrei que o jornalismo cultural tem muita importância.
E como equilibrar os elementos literários com os de jornalismo na obra?
Na realidade, não há elementos de literatura por ser uma não ficção, tudo o que escrevi é verdadeiro. Mas, sem dúvida, há elementos da literatura que estão presentes para atrair o leitor. É como a crônica, que tem elementos da literatura, mas é baseada em fatos reais. E só aprendemos isso lendo literatura, como romances e contos.
Eu pensei bem para saber com qual tema iria começar o livro, e acabei chegando a uma pequena anedota que sintetizava toda a história da obra. E acredito que isso pode ser aplicado ao jornalismo cultural: contar com elementos literários, mas também com características investigativas.
E qual foi o método utilizado para esses oito anos de investigação?
A investigação era como um ato de loucura produtiva que me permitiu chegar ao ponto máximo, que era encontrar a obra roubada. Meu grande objetivo era encontrar o quadro, a pintura. E, para isso, tive que trabalhar com muitas hipóteses que, pouco a pouco, iam sendo descartadas até encontrar uma pista verdadeira.
Após a publicação do livro, o senhor teve problemas com o governo francês e com famílias que possuíam obras de arte roubadas. Como enfrentou esses “adversários”?
Havia situações de cumplicidade entre o governo francês e os museus americanos e, por isso, muitas pessoas não queriam falar sobre o tema. Uma família me levou à Corte por difamação e isso me custou cinco anos nos tribunais, mas ganhei. Esse tipo de coisa é muito difícil para um jornalista independente, ser atacado por um governo, por um indivíduo. Mas, sem dúvida, valeu à pena.
O senhor acredita que a sua investigação foi decisiva para resolver algumas questões deixadas pela História?
Quando o livro foi lançado, se criou um grande alvoroço pela Europa e Estados Unidos. Comissões foram criadas para investigar e buscar as peças roubadas e começaram a devolver algumas obras para os seus antigos donos. Acredito que o livro ajudou para isso, já que ninguém havia escrito sobre o tema.
E por que o tema do nazismo atrai tanto público?
A Segunda Guerra Mundial tem algo de épico, com uma decisão moral que em algum momento os países tiveram que tomar. Isso seduz as pessoas e é um tema que sempre me atraiu, apesar de não ter nascido quando a guerra aconteceu. O que me atrai são essas questões morais, éticas e também por essa face épica. Em nossos dias, não vivemos nada de épico e sempre buscamos isso.
Qual o seu conselho para os futuros jornalistas culturais?
Se tenho algum conselho, é de que é necessário trabalhar muito e, sobretudo, ler, ler e ler. Ler de tudo, principalmente boa literatura, porque isso irá ajudá-lo a expressar aquilo que quer. Afinal, quem não escreve bem, não sabe contar uma boa história.