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05/10/2011 - 16h46 - Atualizado em 23/05/2012 - 23h35

Todos querem humor

Tiago Mota

Cada vez mais presente, o humor torna-se a menina dos olhos dos meios de comunicação. Por que esse gênero empolga tanto?

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Marcelo Tas comanda a equipe do CQC, que é exibido na
Band e tem uma linguagem que mescla humor e jornalismo

Do teatro para o rádio, do rádio para a televisão, invadindo o noticiário e explodindo na internet. O humor está cada vez mais presente nos meios de comunicação. Só para ter ideia, de todos os seis seriados estreados pela Rede Globo em 2011 – Batendo o Ponto, Mulher Invisível, Tapas & Beijos, Macho Man, Divã e Lara com Z – nenhum deixa de fazer uso do apelo cômico e humorístico. Na mesma emissora, os programas Fantástico e Globo Esporte, noticiosos de berço, também não abrem mão de exibir piadas entre uma manchete e outra. “Há uma síndrome geral em todas as mídias de investir em humor. É uma doença de querer ser engraçado com o objetivo de seduzir, mas nem sempre a piada tem graça”, analisa Cristina Padiglione, jornalista e editora do suplemento TV & Lazer do jornal O Estado de S. Paulo. Para Marcelo Tas, o homem experiente à frente desta geração de humor, “A única coisa que acrescento é que essa ‘doença’ existe com o homem desde seus primórdios. Quando um filósofo grego disse ‘Só sei que nada sei’, fez uma frase de humorista. Sócrates é um cara que foi acometido dessa doença. Talvez por isso que a gente repete essa frase até hoje”.

No ar desde março de 2008, o Custe o que Custar, ou CQC, liderado por Tas, mantém a média de 6 pontos de Ibope na cidade de São Paulo, ou aproximadamente 1,1 milhão de TVs ligadas na Rede Bandeirantes. Mais novo, o Legendários está na Record desde abril de 2010, com cerca de 8 pontos de audiência, ou 1,5 milhão de televisores. Já o Pânico na TV nasceu em 2003, oriundo do programa homônimo no rádio e garante a audiência da RedeTV! aos domingos com 9 pontos do Ibope, ou cerca de 1,6 milhão de aparelhos ligados.

Os três programas são centrais nas discussões atuais sobre humor na televisão, cada um adotando uma maneira diferente de interagir com seu público. No entanto, guardam uma característica em comum: praticamente todos seus integrantes são jovens humoristas oriundos do estilo de stand up comedy. Apesar de já existir há décadas, a comédia em pé se destacou desde meados dos anos 2000 no Brasil e hoje é febre no país.

No entanto, ao mesmo tempo em que surgem novas formas de produção na TV, modelos antigos de humor, como Zorra Total e A Praça é Nossa sobrevivem. Para muitos, as piadas ali contadas já não fazem rir, provando que essas fórmulas estão em crise. Mas os índices de audiência discordam. Zorra Total mantém a liderança no horário nobre aos sábados com a média de 20 pontos, na casa dos 3,7 milhões de televisores ligados, enquanto A Praça É Nossa garante ao SBT, nas quintas-feiras, 8 pontos de audiência e oscila entre o segundo e o terceiro lugar na preferência do público em seu horário.

Uma coisa é certa: o riso seduz e atrai público. Anderson Bizzochi, integrante da Cia. Barbixas de Humor e formado em Rádio e TV pela Faculdade Cásper Líbero, acredita que “As pessoas estão procurando rir e o mercado está aberto para produzirem isso”. Porém, em meio a tanta gargalhada, é difícil separar o joio do trigo. Afinal, a produção de humor chega ao público em quantidade ou qualidade? Como programas tão antigos sobrevivem? Vivemos de fato um novo momento no gênero? É neste contexto que a Cásper propõe um debate para entender parte desse “fenômeno” do humor.

A vocação do riso

Desde Aristóteles, inúmeros foram os teóricos que descreveram a estrutura e os efeitos do humor. Conforme conta Elias Thomé Saliba, livre-docente em História pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em história do humor, “O humorismo é ambíguo, é o doa a quem doer. Embora distorcido, ele é um reflexo da sociedade”. Em seu livro Raízes do Riso (Cia. Das Letras), Saliba expõe as teorias de três autores sobre o assunto: Henri Bergson, em 1899; Sigmund Freud, em 1905; e Luigi Pirandello, em 1908. Para os estudiosos, o humor não possui essência, mas é uma história. É na antítese, no inesperado e na ruptura de expectativas que o gênero se compõe. “Fazer humor é jogar com o status quo, querer quebrar o que é determinado”, explica o professor.

Além disso, é o humor que contém a capacidade de eliminar o distanciamento e a noção de superioridade, provocando a reflexão. A este fenômeno, Pirandello deu o nome de “sentimento do contrário”, no qual o sorriso é, na verdade, o que nos leva a pensar. Em exemplo simples, é como rir da piada feita sobre alguém e perceber que suas próprias atitudes podem também ser vítimas da mesma risada. Para Saliba, “A força do humor é exatamente esta: eu vou lá para me divertir, mas, de repente, as cócegas são feitas no meu cérebro”. Marcelo Tas concorda: “O humor é uma linguagem de contato entre inteligências, entre consciências. A risada é o barulho de uma fixa caindo: ‘Ah, entendi o que aquele cara falou’”.

Como o humorismo também é uma produção cultural, suas características mais peculiares estão ligadas à sociedade em que está inserido. Sendo assim, o Brasil possui traços particulares no que diz respeito à arte de fazer rir. Saliba se dedicou ao estudo do humor e sua produção no século XX no país, começando pela Belle Époque e chegando aos primeiros anos do rádio. Embora seja gênero difícil de ser teorizado, o professor define que “A vocação do humor brasileiro é preferencialmente a da paródia. Não no sentido original de canto paralelo, mas no sentido de ter uma base, um original, e reproduzir uma espécie de cópia criativa”. Isto porque a cultura brasileira, conforme explica o estudioso, nasceu com forte influência de outras, sobretudo a europeia.

Hoje, segundo Saliba, vive-se o momento regido pela lógica do mercado, que invade o campo cultural. A separação burguesa de público e privado, entre os que produzem e os que consomem, deu ao humor características de produção industrial. “É quando o humor vira espetáculo e o humorista tem que criar em linha de montagem. Surgem modelos prontos de piadas, assim como os que fazem humor vão cada vez mais exaurindo sua criatividade”, argumenta.

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Em 2009, a equipe do programa contou com a presença
de uma mulher, a humorista Monica Iozzi

Riso em pé

O stand up comedy é o estilo mais popular de humor nos dias de hoje. Porém, um detalhe passa batido em meio à sensação de novidade e frescor que se atribui a este: ele não é tão novo assim. “Na realidade, é uma grande bobagem se falar tanto em comédia stand up agora, visto que um grande volume de humoristas fazia isso décadas atrás”, afirma Saliba. Segundo o professor, a febre atual pelo gênero é fruto de um fator geracional, e não qualitativo. “Quem consome este tipo de humor é a juventude, mesmo sendo majoritariamente da classe média. O stand up entra em um consumo de trivialidade característico de nossa época.”

O estilo nasceu nos Estados Unidos no final no século XIX. As apresentações ocorriam antes de uma peça de teatro ou durante seus intervalos com o objetivo de esquentar ou segurar a atenção do público. Até então, já no século XX, os comediantes eram todos grandes artistas migrantes do rádio, como Bob Hope e Fred Allen. Nos anos 1950, os primeiros clubes destinados ao stand up começaram a surgir, para que, finalmente, na década de 1970, a produção deste tipo de humor se popularizasse entre os americanos. O sucesso foi tanto que seus comediantes passaram a transitar em outros meios, como no televisivo Saturday Night Live, pela rede americana NBC, e no cinema. Entre os mais famosos, passaram pelos palcos solos Eddie Murphy, Woody Allen, Steve Martin, Billy Cristal, Robin Williams, Richard Pryor e tantos outros.

Assim como nos Estados Unidos, a comédia em pé brasileira também nasceu entre os intervalos do teatro em revista e, curiosamente, com o cordão umbilical ligado ao humor de rádio. Chico Anysio – entre as décadas de 1960 e 1970 – e Jô Soares já exploraram este campo com atividades paralelas ao trabalho no rádio e televisão. Maurício Meirelles, de 27 anos, é comediante de stand up e faz parte da atual geração do estilo, além de ser redator e integrante do elenco de Legendários. Para ele, “Isto está bombando no Brasil por causa da internet e da carência de humor que nós já estávamos sentindo há algum tempo. O politicamente correto prejudicou o humor brasileiro e a nossa geração vem para transgredir isto”. Em São Paulo, por exemplo, é possível assistir a uma apresentação de stand up a cada dia de semana, a preços na média de 40 reais.

A formatação deste tipo de espetáculo já é bem conhecida: o comediante, sem figurino teatral e com seu microfone, ocupa o palco vazio. Ficando cara-a-cara com o seu público, o artista passa a comentar sobre diversos assuntos imprimindo o seu olhar cômico. As crônicas do stand up vão de temas cotidianos, como pontos de ônibus, até as principais notícias da semana. “O mundo nos alimenta em conteúdo. É isso que faz o estilo não se tornar velho”, explica Meirelles.

Mas nem tudo são elogios. “O responsável pelo stand up tem que ser na verdade um humorista e um ator cômico, mas a maioria deles não consegue juntar as duas coisas”, opina Elias Thomé Saliba. O professor explica que, na comédia em pé, o comediante herdou muito da cultura oral do rádio, apresentando dificuldades para se expressar com o corpo conforme manda o teatro, já que as apresentações se dão neste espaço. “O que é feito hoje é muito pobre. Steve Martin queria sempre sincronizar a piada com o movimento de seu dedo. Se é ao vivo, logo tem que usar o corpo de maneira lúdica.”

Apesar do sucesso nos palcos, Maurício Meirelles não tem formação em teatro, mas sim em Publicidade e Propaganda pela Faculdade Cásper Líbero. Para ele, o estudo de artes cênicas pode ser essencial na apresentação, mas não garante bons resultados. “Muito ator formado que vai fazer este tipo de comédia acaba não se dando muito bem por causa da atuação mais impostada e exagerada. O stand up é mais solto, muito mais para bar do que para teatro”, conta o comediante.

Outro elemento do teatro ausente no stand up, segundo Saliba, é a contextualização. “Nessas apresentações, coisas aparecem muito isoladas, pois os cômicos não têm muita vocação para criar um ambiente narrativo, ou clima. Das duas uma: ou a comédia em pé aceita a sua vocação de humor verbal ou ela aceita que é de teatro e chama alguém para dirigir.” O próprio Maurício Meirelles reconhece que, apesar de ser uma “febre” nas grandes capitais brasileiras, esse tipo de humor já está ficando saturado: “Tem tanto que hoje em dia já ficamos de saco cheio. Você quer comer e tem um cara fazendo stand up. Você vai ao mecânico e tem alguém fazendo stand up”.

Na telinha

A criação de humor se adapta conforme o meio em que está inserida. Com a televisão não é diferente. Para Elias Thomé Saliba, “A TV é muito mais rápida e permite uma edição, que é uma benção e uma praga ao mesmo tempo. É uma benção porque permite selecionar o corte, enquanto é uma praga porque acomoda o humorista. O CQC, por exemplo, tem uma excelente energia de humor, mas se baseia muito na edição.”

Daniel Nascimento, 27 anos, Anderson Bizzocchi, 27, e Elidio Sanna, 26, fazem parte da Cia. Barbixas de Humor. Juntos desde 2004, seu trabalho de esquetes e improvisação foi parar na televisão graças a grande exposição que os vídeos de seus espetáculos alcançaram na internet. Os três fizeram parte do elenco fixo dos programas Quinta Categoria, entre 2009 e 2010, na MTV Brasil, e no É Tudo Improviso, na Bandeirantes, até outubro de 2010. Na transição para TV, o grupo sentiu as diferenças de um veículo para outro. “A TV tem muito aspecto técnico que às vezes atrapalha nosso trabalho”, conta Anderson. Já Elidio explica que “Na TV existe a direção do programa, a direção do núcleo, o dono da emissora e tantas outras coisas. São muitas variáveis que começam a entrar no trabalho e alteram o resultado final”.

A jornalista especialista em TV, Cristina Padiglione, acredita que “O humor televiso brasileiro é caracterizado por piadas de botequim, com a mania de dar graça à desgraça”. Para ela, o grande divisor de águas do gênero foi o TV Pirata, transmitido pela Rede Globo entre 1988 e 1992. “Ele já é o rompimento com o humor de esquetes, apesar de ter um pouco de esquete lá. Foi algo ousado para a época, tanto é que recebeu muita resistência principalmente pelo Chico Anysio, vindo de uma escola de humor mais clássico”, explica.

O CQC brasileiro é uma das jovens iniciativas de humor que têm alcançado sucesso. O modelo do programa foi importado da Argentina, onde existe desde 1996, sem alteração alguma. Hoje também possui suas versões na Itália, Portugal e Chile. Contando com diversos humoristas e comediantes, principalmente do stand up, o trunfo declarado do programa é a mistura entre jornalismo e humor. “Ele informa em partes, mas não no sentido jornalístico. É muito mais humor do que qualquer outra coisa”, expõe Padiglione.

Segundo o líder dos CQCs, Marcelo Tas, o programa consegue aliar informação e riso, embora não acredite que informar e debater devam ser o objetivo principal do humor. “A nossa função é a de comentarista da realidade, mas, como a gente vive em um país absolutamente surreal, tem muita gente que vê o CQC como se fosse o jornal. Eu não recomendo o programa como fonte primária de informação. O humor é uma voz de um espírito de porco. É parcial, irresponsável e impreciso, o inverso do jornalismo”, aponta Tas.

Do outro lado da balança, com uma proposta de humor completamente diferente, Pânico na TV segura a audiência da RedeTV! há sete anos apoiado em celebridades e belas mulheres com roupas mínimas. Se estivesse em outra emissora, talvez o resultado não fosse o mesmo. Para Padiglione, “Em emissoras com audiências um pouquinho mais largas, eles teriam um público mais heterogêneo e resistente ao humor deles. As piadas são para a molecada”. O humor que tende para o bizarro e com referências sexuais pode desagradar alguns, como é o caso do Pânico. Segundo o professor Elias Thomé Saliba, “Sempre houve espaço para este tipo de coisa, que fora de contexto fica apelativo e sem graça. Porém, o único mérito do Pânico na TV é desmistificar a própria televisão e criticá-la”.

Maurício Meirelles faz parte da equipe de Legendários como redator e também interpretando o personagem Clóvis Clichê, repórter que entrevista anônimos como se fossem celebridades. Embora enquadrado como tal, Meirelles não acredita que se trata de um programa de humor. “É um programa de entretenimento. No começo o Marcos Mion errou um pouco em prometer um programa de humor”, explica o comediante. Mion é o idealizador e comandante da produção, que também conta com um elenco de comediantes. A proposta inicial do programa era fazer um “humor do bem”, com utilidade pública. “Eu sou dessa ala que quer enfiar cada vez mais o politicamente incorreto, enquanto o Legendários está em um canal conservador onde piadas ácidas irão ferir a audiência”, comenta Meirelles.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se vê o sucesso de iniciativas consideradas inovadoras, exemplos antigos de humor sobrevivem. Zorra Total estreou na Rede Globo em 1999, mas faz uso de um humor de esquetes e personagens estereotipados que existe no Brasil desde os primeiros anos da televisão – para não dizer do rádio, de onde muitos deles migraram, como o Balança Mas Não Cai.

A Praça É Nossa também usa da mesma fórmula de personagens e está no ar no SBT desde 1987. A Praça, original da extinta TV Paulista, foi criada por Manoel de Nóbrega em 1957, pai do atual apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, 75 anos.

Para Elias Thomé Saliba, embora antiga, a estrutura desses programas não caracteriza necessariamente um humor ruim. “O humor sempre trabalhou com estereótipos. O problema é que eles acabam se tornando repetitivos. Por outro lado, são programas que não se importam com o mundo lá fora. É um humor alienado”, opina o professor. Segundo Padiglione, são raros os exemplos de ousadia na criação do novo. “O que se faz na televisão já foi testado em algum canto. O Pânico ficou dez anos no rádio antes de ir para a TV. Nesse sentido, quase nada muda.” No entanto, a colunista relativiza: “Não podemos tomar o nosso gosto como o de todos”.

É possível dizer que este tipo de humor “tradicional” está em crise? Os humoristas Maurício Meirelles, Anderson Bizzochi e Elidio Sanna acreditam ser exagero colocar nesses termos. “Não está em crise. O Ibope diz que não. A Globo não está descontente com os resultados do Zorra Total. O povo não é burro, se assiste é porque gosta”, argumenta Anderson. Particularmente, Maurício não acha graça nesses programas, “Mas enquanto houver alguém dando risada é porque tem público. O produto vende, logo esse tipo de humor irá continuar”, garante. Já para Saliba, essas produções são os sintomas da lógica do mercado invadindo a produção cultural. “O outro mal da indústria cultural é o de pegar um humorista e obrigá-lo a fazer um tipo de piada para uma audiência X e Y.”

Na rede

A Cia. Barbixas de Humor deve seu sucesso à internet. Elidio, Anderson e Daniel começaram a postar vídeos no site Youtube, em 2004. Hoje, o canal da companhia recebe cerca de quatro milhões de acessos por mês no site. “Somos a geração que tem a internet como veículo. Essa mudança de meio já formou uma nova geração de pessoas, não só de humoristas”, conta Elidio, complementando que “Humor é uma das coisas que mais atrai na internet, perdendo para o sexo. Infelizmente não trabalhamos com sexo, mas temos muita força de comunicação na internet”.

Os primeiros materiais postados na rede pelo grupo foram curtas cenas, como O Morcego Morto e O Jornal. A princípio, a intenção era passar esses pequenos vídeos no telão do teatro durante os intervalos, enquanto trocavam de figurino. Não demorou para que tivessem a ideia de disponibilizar as esquetes pelos computadores. “Nós desenvolvemos um produto para a internet. É algo para a pessoa assistir enquanto toma um café no intervalo de trabalho – ou durante o trabalho mesmo”, explica Anderson Bizzochi.

Se for possível apontar responsáveis, a internet é um dos fatores que levou ao boom em produção e procura por humor. Maurício Meirelles possui material na rede, assim como todos os comediantes de stand up, e atribuiu parte do seu sucesso a esta exposição. Para ele, agora é mais fácil mostrar seu talento e encontrar bons comediantes: “Há muitos exemplos de gente escondida que se fez aparecer por meio da internet e hoje tem certa fama. Criou-se, inclusive, um universo de humoristas dessa nova geração que se reúne por causa da rede”.

Porém, enquanto muitas iniciativas inovadoras e engraçadas alcançam o sucesso graças à internet, surge também a impressão de que qualquer um pode se tornar um humorista. “Por exemplo, os vlogueiros, como o PC Siqueira, Felipe Neto, Ronald Rios, bombaram com seus vídeos. Tem muita gente que acha que é só pegar a câmera e filmar a si mesmo dizendo qualquer coisa. Que nada, é tudo muito bem pensado. Hoje, como tem muita gente, o cara tem de ser muito certeiro para se dar bem”, expõe Maurício Meirelles.

Humor além do fazer rir

Jair Bolsonaro, deputado federal pelo Partido Progressista (PP) carioca, causou polêmica em entrevista cedida ao CQC e exibida em 28 de março. Em suas declarações, o deputado afirmou ter saudades da ditadura militar no Brasil, além de deixar claras suas tendências homofóbicas e racistas. O conteúdo da entrevista repercutiu em jornais, revistas e em portais de notícia na internet, além de ter sido um dos assuntos mais comentados no Twitter. A OAB do Rio Janeiro encaminhou um pedido de cassação ao deputado por falta de decoro um dia após a exibição do programa, assim como outros 20 legisladores que entraram com representações contra ele.

Episódios assim chamam a atenção para uma função do humor além do entretenimento, pautando inclusive os assuntos discutidos publicamente. Segundo Elias Thomé Saliba, “O humorista segue a vocação de mediador da Esfera Pública e sempre foi crítico. Durante a ditadura militar no Brasil, ele tinha muito mais essa força”. Em concordância, Marcelo Tas, envolvido diretamente no caso Bolsonaro, acredita que “Essa função do humorista representa um momento delicado da civilização. Se está precisando de humorista para ser mediador, é porque a coisa está feia”. Tal afirmação remonta à chamada Sociedade Humorística, termo usado por Gilles Lipovetsky em seu livro Era do Vazio, na qual a descrença subtrai a seriedade de todos os eventos. “É quando tudo na sociedade, de catástrofes à política, vira piada”, explica Saliba.

E se o humorista tem sua função ampliada no espaço social, quais são suas responsabilidades? O barbixa Anderson Bizzocchi crê que há uma: “A grande responsabilidade do humorista é fazer rir, as outras coisas vêm no pacote. Isso é até meio polêmico, mas defendo que qualquer assunto pode virar piada. Cada humorista é que impõe seu limite”. Apesar de levantar esta bandeira, a cautela existe. “Daqui a pouco eu não posso fazer piada sobre ninjas porque a ‘Associação Brasileira de Ninjas’ pode me esculhambar. O humorista pensa duas, três vezes antes de fazer uma piada.”

Mas o humor tem poder? “Acredito que sim, mas não conte isso para ninguém”, opina Tas. “O humor tem que ser irresponsável. Não deve caber aos humoristas a responsabilidade de promover a educação de um povo. Cabe ao humorista às vezes apontar a falta de educação. Se os humoristas virarem juízes ou professores, aí a coisa está perdida.”

Boa fase?

No meio da euforia que a atual produção de humor provoca, fica difícil analisar se a explosão é em qualidade ou em quantidade. “O humor é muito difícil de analisar. Você pode ter uma seleção de piadas das quais 60% são sem graça, mas os 40% que sobram formam um volume grande de ideias que valem à pena”, acredita a jornalista Cristina Padiglione. Para os Barbixas, há tanto qualidade quanto quantidade. “O que vai acontecer é uma seleção natural. O público irá selecionar os bons. Pode ter surgido com quantidade, mas é a qualidade que vai se manter”, afirma Bizzochi.

Já Maurício Meirelles acredita que o humor vive uma fase de reinvenção: “O mundo mudou. A sogra não é mais chata, o argentino é gente boa, a loira não é mais burra, o são-paulino não é gay. As piadas estão mudando.” Mesmo assim, ele concorda que a quantidade de produção acaba ofuscando o talento de bons artistas. “Quando essa bolha estourar vamos ser obrigados a entrar em um novo período de mudança”, prevê Meirelles.

Por outro lado, Elias Thomé Saliba não acredita que a atual geração de humor tenha tanta qualidade. “Não são todos ruins, mas eu vejo o atual momento como empobrecido. O humor não é mais transgressivo como deveria ser, é a época do consumo de trivialidades”, afirma. “Quanto mais a gente envelhece, mais o balanço vai ficando ruim. É uma produção muito efêmera, provavelmente isso vai passar.”

“Eu tenho uma visão muito otimista em relação à qualidade do humor, porque acredito que aumentam as chances de aparecerem novos talentos sem que isso fique restrito a uma coisa puramente de privilégios. Não é preciso morar em uma cidade grande nem tampouco aparecer na televisão para que seu trabalho seja reconhecido”, conta Marcelo Tas. E como não poderia deixar de ser, o apresentador encerra seu pensamento com uma piada.  “Vivemos em um ambiente mais propício para o talento emergir. Se alguém tem alguma dúvida disso, pense dessa maneira: ‘Se até o Danilo Gentili conseguiu, eu também consigo’.”