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05/10/2011 - 16h49 - Atualizado em 22/05/2012 - 18h20

Rádio em novos ares

Jaqueline Guetierres

Ele se refaz em forma e conteúdo, adaptando-se mais uma vez às mudanças tecnológicas

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Petrus Lee

Com a invenção do rádio, o jornal impresso morrerá. Com a chegada da televisão, o rádio tem seus dias contados. A criação da televisão acabará com o cinema. Com o ‘boom’ da internet, todas as outras mídias terão fim. Essa história é mesmo antiga, mas nenhuma dessas previsões catastróficas sobre um veículo de comunicação mais moderno ocupar ou tirar o lugar de outro mais antigo se concretizou. Pelo contrário. No caso do rádio, ele se adaptou muito bem e até melhorou em qualidade com todas essas novidades. “Quando a internet surgiu, falou-se que o rádio morreria. Mas não, o rádio foi para lá e ocupou seu espaço na rede, assim como atualmente está no telefone celular. O rádio está sempre presente porque continua sendo rápido e eficaz”, afirma Fernando Solano, diretor de conteúdo da rádio MitFM e professor da Faculdade Cásper Líbero.

O grande diferencial do rádio é que ele fala com todos os públicos. “Quem não sabe ler irá ouvir, quem não pode enxergar, também vai ouvir”, exemplifica Solano. Além disso, em termos econômicos, um aparelho portátil de rádio simples custa em média R$ 5,00. “É por isso que não existe meio de comunicação mais democrático. Mesmo que uma emissora afirme que seu conteúdo é para a classe A, alguém da classe E pode sintonizá-lo e ouvi-lo”, enfatiza.

Com alto poder de adaptação às outras mídias, o rádio encontrou seu espaço na rede, nos celulares, nos tablets, e modificou sua relação com a plataforma original: o próprio aparelho receptor de rádio. “Desde que comecei a trabalhar em rádio na década de 1970, o dial passou pelo fenômeno da segmentação. Muitas emissoras ecléticas deram lugar às especializadas e outras a rádios exclusivamente de notícias. Creio que a maior mudança foi implantar o all news em FM”, declara Heródoto Barbeiro. O jornalista, atualmente trabalhando no canal de televisão Record News, se refere a emissoras com conteúdo exclusivamente noticioso em frequência modulada (FM), o que não existia até a criação da BandNews FM, em 2005.

Assim, a adaptação do rádio às diferentes tecnologias muda não só a técnica, mas o conteúdo e o modo de pensar essa mídia. “Hoje, quem está em rádio produz conteúdo. Onde ele será veiculado não importa”, explica Filomena Salemme, editora-chefe da recém-criada Estadão/ESPN, e professora de Radiojornalismo na Faculdade Cásper Líbero.

 

Petrus Lee

AM e FM, parceria ou disputa?

A Central Brasileira de Notícias, mais conhecida como Rádio CBN, além de ter sido a primeira emissora 100% informativa em AM, foi precursora na reprodução de parte desse conteúdo para a FM. Inaugurada em São Paulo em 1995, o objetivo da retransmissão era atingir o público que estava migrando de dial – da amplitude modulada para a frequência modulada. “A transmissão em FM foi um sucesso, tanto com relação à resposta dos ouvintes quanto ao interesse dos anunciantes”, relembra Mariza Tavares, diretora nacional de jornalismo da CBN.

Com os bons resultados da pioneira, outras emissoras de relevância na cidade seguiram seus passos: Bandeirantes, Jovem Pan e Eldorado passaram a retransmitir seus conteúdos informativos para a FM. “A concorrência levou um bom tempo para perceber que a diferença entre FM e AM não era a programação, mas a qualidade técnica do som e o público alvo. Quando entenderam isso, também fizeram a mudança”, conta Heródoto Barbeiro, que trabalhava na CBN quando se debatia a validade de transmitir notícias em FM.

Com as principais rádios da cidade operando simultaneamente em AM e FM, uma das verdades absolutas sobre o rádio foi colocada em xeque: a relação entre frequência modulada (FM) e amplitude modulada (AM) mudou. “O que sempre se falou era que a AM era uma rádio falada e a FM uma rádio tocada, e ninguém podia mexer nisso, pois era um dogma. Então quando se muda essa ordem há espanto”, explica Elisa Marconi, coordenadora do curso de Rádio e TV da Faculdade Cásper Líbero.

Mesmo com as rádios jornalísticas reproduzindo seus conteúdos ou produzindo matérias para FM, a AM – até então responsável por esse serviço – não perde o sentido de existir. “A AM tem seu espaço, seu público e seu conteúdo. Além dessas grandes emissoras jornalísticas que se mantêm em AM e FM, a grande audiência vem das rádios populares, voltadas para as classes C e D”, explica André Luiz Costa, diretor de jornalismo da BandNews FM. A dificuldade da amplitude modulada é a baixa qualidade de som, que prejudica a captação de um novo público. “Se é mais agradável ouvir em FM, as pessoas procuram mais e a tornam mais atrativa comercialmente. Mas isso não quer dizer que elas não possam ser complementares”, concorda Fernando Solano.

As dificuldades técnicas da amplitude modulada, segundo Heródoto Barbeiro, não devem ser empecilhos por muito tempo. “Adaptando-se à internet, a AM passa a ter a mesma qualidade de som e o mesmo alcance da FM”, comenta. Uma previsão nem tão otimista é a de Elisa Marconi: “A amplitude modulada cumpre um papel importante, já que existem lugares no Brasil onde a frequência modulada não funciona. Por isso, ela terá sobrevida, mas tende a acabar. Será um processo lento que só se encerrará quando a FM conseguir atender a todo esse público”.

 

Busca de novos públicos

A programação mista de música e notícia em frequência modulada foi a grande novidade até 2005, quando entrou no ar a BandNews FM, a primeira emissora exclusivamente jornalística em FM. Baseando-se em pesquisas com ouvintes e com o mercado publicitário, André Luiz Costa, diretor de jornalismo da emissora, e sua equipe perceberam que havia espaço na FM para uma rádio com notícias 24 horas por dia. “A ideia era criar uma rede jornalística de referência na FM, voltada ao público jovem”, conta o diretor. Sempre foi característica da frequência modulada ter ouvintes mais novos que os da AM, por isso a produção de conteúdo para esse público.

A boa recepção e a ampliação do espaço das emissoras jornalísticas são reflexos da satisfação de um público que antes não encontrava seu lugar. “São ouvintes que não estão migrando de lugar nenhum, mas que faziam parte de uma demanda reprimida”, explica Elisa Marconi. Pessoas que, segundo Mariza Tavares, perceberam a importância de estar bem atualizadas. “Esses ouvintes entendem que, atualmente, a informação é uma ferramenta poderosa na formação dos indivíduos e na tomada de decisões”, considera a diretora de jornalismo da CBN.

As mudanças bem sucedidas na FM paulistana levaram a novas apostas. Emissoras especializadas como a SulAmérica Trânsito, criada em 2007, com conteúdo exclusivo sobre trânsito, presta serviço ao motorista que deseja saber a melhor rota para chegar a seu destino. Outra novidade foi a Mitsubishi FM, lançada em 2008, uma emissora customizada com grande parte de conteúdo musical.

Apelidada Mit FM, a emissora é uma parceria entre o Grupo Bandeirantes, a Mitsubishi Motors e a agência de publicidade África. Por isso mistura interesses das três empresas, criando uma programação voltada ao público adulto e com gosto por esportes radicais. Tem como objetivo ir contra a “setorização” que existe nas rádios musicais. “O dial é muito bem definido, há muitas rádios para jovens, outras para determinado tipo de música, como MPB, clássica, rock e sertanejo. Não havia uma rádio que agregasse o todo”, comenta Fernando Solano, diretor de conteúdo da Mit FM. O jornalista afirma que a novidade vem sendo bem aceita pelos ouvintes. “Eram pessoas que se sentiam órfãs de rádio e ouviam apenas CD, porque não tinham uma emissora musical pensada para elas.”

 

A parceria Estadão e ESPN

Há anos consagrada em AM e em FM, a Rádio Eldorado, pertencente ao Grupo Estado, passou por uma reformulação em 2011 e agora está dividida em duas sintonias na frequência modulada. A parte musical mudou de estação e foi para os 107,3, em parceria com a fundação Brasil 2000, recebendo o nome de Eldorado Brasil 3000. Já os 92,9 MHZ (megahertz) ficaram com a parte jornalística: a Estadão/ESPN, fruto da parceria entre o Grupo Estado e a ESPN, empresa de comunicação especializada em cobertura esportiva. “O Grupo decidiu deixar a plataforma de música com a marca Eldorado e a plataforma de jornalismo com a marca Estadão unida à ESPN, com quem já mantém uma parceria há três anos”, conta Filomena Salemme, editora-chefe da emissora.

A união com a empresa de esportes é bem sucedida. Segundo Salemme, isso acontece pelo perfil de ouvintes que ambas tentam atingir. “Tanto o Estadão quanto a ESPN têm um público das classes A e B, por isso sabíamos que daria certo.” Ainda sobre o público-alvo, a editora-chefe ressalta que em comparação com os ouvintes da antiga Eldorado, os da Estadão/ESPN são mais jovens. “A estimativa é que tenham mais de 25 anos, com gosto por esportes. Dos mais populares, como o futebol, aos mais radicais, como motociclismo. Por isso, acreditamos que seja um ouvite mais masculino também.”

Para um público novo, o conteúdo da rádio também se modificou. Apenas um programa se manteve, devido a sua boa audiência: o Leitura de Domingo, transmitido nesse dia da semana, das 10h às 12h. Toda a programação foi pensada para misturar jornalismo e esporte, “É uma rádio que tem em média 70% jornalismo e 30% esporte, mas que, independentemente disso, preza pelo ouvinte bem informado, seja sobre jornalismo ou sobre esporte”, explica Salemme.

Para que o conteúdo chegue até o ouvinte, sua produção reúne o maior número de jornalistas que uma rádio já teve no país. “Contamos com quase 800 jornalistas, entre a rádio, o jornal O Estado de S. Paulo e a ESPN, dispostos a entrar no ar”, ressalta Salemme. Esses profissionais estão divididos nos três estúdios da emissora, dois no prédio do Grupo Estado – um na redação da Estadão/ESPN e outro na redação do jornal – e um terceiro na ESPN, no Sumaré. “Essa divisão ajuda na montagem da grade e, dependendo do programa, ele é feito em cada estúdio ou, em alguns casos, em mais de um simultaneamente.”

 

O dial de São Paulo, 90 a 100

Além de líderes de audiência e com perfil parecido de público, há outro ponto comum às quatro grandes emissoras jornalísticas de São Paulo (Bandeirantes, CBN, Estadão/ESPN e Jovem Pan) que não pode ser ignorado: a proximidade de suas frequências no dial. “Não é por coincidência que essas emissoras têm frequências próximas: elas criam uma faixa jornalística que vai dos 90,5 aos 100,9. Com isso, a FM musical é arrastada para as pontas do dial”, ressalta Elisa Marconi.

Além disso, as emissoras que tradicionalmente transmitiam programação musical passaram a diversificar seu conteúdo. “Jamais acontecera isso. É algo novo que cria um público novo e muda o jornalismo de rádio em São Paulo”, enfatiza Marconi. Essas mudanças, que ocorrem primeiramente no dial paulistano, não devem ficar restritas à cidade. Segundo Marconi, a rádio de São Paulo influencia outros estados que têm contato com ela, por isso a tendência é essas modificações irem para o restante do Brasil. “Há pouco tempo, Salvador, a terceira maior cidade do país, com 3 milhões de habitantes, não tinha AM nem FM jornalística,  até que chegou a BandNews já em FM.”

 

Tecnologia bem-vinda

O conteúdo produzido para rádio não é apenas para consumo no dial. “Isso vem mudando há quinze anos com o aparecimento da internet nas redações. Atualmente, não se está fazendo rádio para o aparelho convencional de transmissão, mas para ser distribuído de diversas maneiras e em vários outros lugares além de São Paulo”, afirma André Luiz Costa, da BandNews. “Não se pode confundir rádio com a caixinha de botões por onde estávamos acostumados a ouvi-lo. Ele é mais do que isso, o que é perceptível quando vemos a adaptação à internet”, enfatiza Heródoto Barbeiro.

A tecnologia mudou não só a forma de transmissão, mas a produção do conteúdo. Um dos marcos, segundo Filomena Salemme, foi o início do uso do celular, que agiliza o trabalho do repórter durante a apuração externa. Mas não só. “Internamente hoje é tudo digitalizado. A edição é realizada com programas em que se consegue amenizar até o ruído da respiração, por isso o resultado é uma qualidade de som muito melhor”, explica.

Com as modificações técnicas, muda-se também o modo de entender o rádio. “Atualmente, a tecnologia passa a ser secundária. Não se escuta mais FM ou AM: se escuta rádio jornalística, emissora musical ou se informa por meio do site da emissora. O que interessa é que se trata de um conteúdo audiovisual, tão versátil que pode até virar um vídeo se acrescentarmos imagens”, comenta Tatiana Ferraz, professora de Radiojornalismo da Cásper Líbero.

A internet torna-se uma aliada do rádio. “A rede revolucionou porque fez com que o rádio tivesse uma extensão da sua linguagem. Ao criar um arquivo para as matérias, fez com que as informações fossem fixadas”, diz Ferraz. Além disso, a internet traz a possibilidade de expansão do formato que até então se resumia a podcasts e webrádio. “O rádio ganhará a internet e será uma plataforma de conteúdo multimídia, deixando de se basear apenas em áudio, passando a produzir textos, fotos e vídeos”, projeta Mariza Tavares, da CBN.

 

O futuro no ar

Com os avanços tecnológicos, as mudanças no dial e a abertura para o conteúdo jornalístico, o mercado de trabalho sofre reflexos positivos. “Atualmente em São Paulo, a rotatividade dos empregos em rádio é grande: se equipara à de um jornal impresso da cidade”, exemplifica Elisa Marconi. As vagas surgem não apenas para jornalistas, mas para radialistas e todas as outras profissões ligadas à transmissão. “Será necessário ter mais agilidade e dinamismo na produção de conteúdo, o que é encargo dos jornalistas; e maior qualidade de som, por isso os radialistas serão importantes.”

Além disso, as diferenças entre os meios precisam ser superadas. “O profissional tem que ser multimídia e ultrapassar as antigas fronteiras que separavam FM, AM e internet”, comenta Mariza Tavares. No caso específico do jornalismo, segundo Tatiana Ferraz, alguns cuidados devem ser tomados desde o início da aprendizagem. “No ensino, precisamos entender como passar a informação para o público nos diversos formatos. Mas o principal, em qualquer área do jornalismo, é que o bom texto não muda”, explica.

A ampliação da concorrência na área de comunicação é um importante fator que faz necessário o aumento das habilidades dos profissionais de rádio. Quando estão na internet, as emissoras passam a disputar com todo o mundo, desde outras estações, até usuários que disponibilizam seus áudios na rede. Porém, isso não é de todo ruim: “Emissoras originalmente de TV estão na rede dividindo espaço com emissoras originalmente de rádio e buscando a atenção das pessoas. Isso faz com que aumente a complementaridade entre os meios e é ai que entra o profissional multimídia”, ressalta André Luiz Costa.

Com a rotina das grandes cidades, as novas tecnologias não deixarão o rádio ficar para trás. “Ele é a única mídia que pode acompanhar as pessoas no dia a dia frenético, porque é o único que não exige parar o que se está fazendo para ouvir”, aponta Filomena Salemme. A editora-chefe ressalta a importância de se conhecer a essência da rádio jornalística: prestar serviço ao ouvinte. E brinca dizendo que, com as principais emissões jornalísticas pela manhã e no final da tarde, “As emissoras levam e trazem os ouvintes para casa todo dia”.

Além do conteúdo tradicional, há espaço para novos formatos. “Cabe um tipo de ‘falação’ não jornalística, como documentários, programas de variedade, ficções e projetos experimentais”, opina Elisa Marconi. A professora explica que as mudanças tecnológicas e de conteúdo no dial criam uma nova onda de rádio. “Um mundo novo se abriu e nós não podemos nos deixar dominar por quem estava pensando antes. Nós temos que inventar um novo modo de fazer rádio.”