O 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural abriu espaço para a reflexão sobre produção e repercussão de cultura no Brasil

Há três anos, jornalistas, professores e artistas se reúnem durante quatro dias, sempre no mês de maio, para debater a relação entre cultura e mídia no Brasil. Promovido pela revista Cult, o Congresso de Jornalismo Cultural vem se destacando como um dos principais eventos de discussão e debate sobre o tema. A edição 2011, ocorrida durante os dias 17 e 20, agradou a idealizadora do Congresso, Daysi Bregantini, diretora e editora responsável da Cult. “A ansiedade era grande e fico satisfeita porque tudo correu bem. Eram mais de sessenta convidados e não tivemos problema com nenhum deles. Além disso, a plateia foi bem participativa.”
A ideia do congresso foi colocada em prática em 2008, mas já era idealizada há um bom tempo. “A situação do jornalismo cultural no país é sofrível, porque a formação específica dos profissionais é ruim, o espaço nos jornais diminuiu e os textos perderem seu caráter reflexivo”, enfatiza Bregantini. Dessa maneira, o objetivo do encontro é ser um espaço em que as manifestações culturais contemporâneas possam ser apresentadas e debatidas pelos jornalistas que trabalham nessa editoria.
A curadoria do congresso é uma parceria entre Daysi Bregantini, Welington Andrade, vice-diretor da Faculdade Cásper Líbero, e Gunter Axt, doutor em História Social. Os três se reúnem ao fim de cada edição para decidir quem serão os próximos palestrantes, além de planejar novidades para o encontro cultural seguinte. Em 2011 o evento foi realizado em parceria com o SESC SP, que escolheu a unidade Vila Mariana para abrigar as palestras. O espaço tem um auditório onde aconteceram as mesas, e com um estúdio de televisão onde os palestrantes davam entrevistas, posteriormente exibidas na página virtual que o SESC criou para o congresso.
Entre os convidados nacionais, nomes importantes das artes, do jornalismo e do estudo de cultura estiveram presentes. Como o crítico literário Alcir Pécora, a escritora Esther Hambúrguer, o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão, o diretor de redação da revista Rolling Stone Brasil, Pablo Miyazawa, e o músico Zeca Baleiro. Além deles, também esteve presente no congresso o cineasta argentino-brasileiro, Hector Babenco.
Glauber homenageado
Desde sua segunda edição, um grande nome da cultura brasileira é homenageado pela curadoria do congresso. Em 2010, a escritora Clarice Lispector foi lembrada. Neste ano, o cineasta Glauber Rocha foi o agraciado. “Há a preocupação de não ser apenas um evento que fale sobre cultura, mas um acontecimento cultural. Por isso, na homenagem a Glauber, por exemplo, escolhemos filmes para serem exibidos”, comenta Welington Andrade, o curador acadêmico. Além das sessões com os filmes de Glauber, uma palestra abordou exclusivamente sua cinematografia. Nela, Ismail Xavier, crítico, professor e autor de livros como Sertão Mar: Glauber Rocha e A Estética da Fome (Cosac Naify), discutiu as técnicas utilizadas por Rocha na construção das cenas de seus filmes.
Houve também a preocupação de trazer outros admiradores da obra do diretor brasileiro, como é o caso do cineasta alemão Werner Herzog. Participando da mesa inaugural do Congresso, Herzog elogiou a vivacidade e a qualidade do cinema nacional, dando destaque a Glauber Rocha, com quem conviveu durante três meses em Munique, na Alemanha. “Ele era sempre desorganizado. Recordo que ele tinha vários manuscritos espalhados pelo quarto, se perdia em meio a uma nuvem de papeis”, lembrou Herzog.
Evento internacional
Entre os convidados estrangeiros que participaram do encontro cultural, destaque para Camille Paglia, escritora norte-americana e Ph.D em Língua Inglesa pela Universidade de Yale, que ganhou notoriedade com a publicação de sua tese de doutorado, Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertiti a Emily Dickinson. Dois escritores latinos, que tiveram mesas especiais para tratarem de suas obras, também estiveram presentes no congresso: o espanhol Enrique Vila-Matas e o cubano Pedro Juan Gutiérrez.
Entre os acadêmicos, destaque para o professor esloveno Slavoj Zizek, considerado um dos principais teóricos contemporâneos e referência da esquerda brasileira pelo uso da psicanálise na teoria social marxista, e o historiador francês Roger Chartier, que, além de livros e artigos, escreve para publicações jornalísticas. Do meio estritamente jornalístico, participou o argentino Julián Gorodischer, editor-chefe da revista de cultura Ñ, do jornal El Clarín, que ressaltou as similaridades da situação do jornalismo cultural entre os países da América Latina.
Uma das principais atrações do congresso, o jornalista e escritor Jon Lee Anderson, autor dos livros Che Guevara: uma biografia (Objetiva), publicado em 1997, e A queda de Bagdá (Objetiva), de 2004, aproveitou a vinda ao Brasil e deu uma palestra para os alunos da Faculdade Cásper Líbero. Além de Anderson, o jornalista e escritor porto-riquenho Hector Feliciano, outro participante do evento, também visitou a Faculdade, concedendo uma entrevista exclusiva para os repórteres da Cásper. O resultado dessas conversas pode ser conferido nas próximas páginas.