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05/10/2011 - 16h20 - Atualizado em 23/05/2012 - 16h57

Coisa de Fã

Lidia Zuin

Produção underground elevada à condição de fetiche, o fanzine busca se reinventar na era da internet

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Nas décadas de 1980 e 1990, era comum estudantes do Ensino Médio e universitários se reunirem para manifestar suas ideias numa publicação independente chamada fanzine. A palavra aglutina os termos ingleses fan e magazine, ou seja, trata-se de uma revista feita por fãs. Com pouca ou nenhuma estrutura, os fanzineiros produziam e distribuíam cópias xerocadas em lugares muito específicos de acordo com o público-alvo almejado. “Geralmente, eles eram deixados em pontos isolados de São Paulo, como entradas de faculdades, alguns bares e botecos, porta de teatros e outros locais em que sabiam que o fanzine encontraria leitores”, comenta Luis Mauro Sá Martino, professor da Faculdade Cásper Líbero e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Os motivos para que esses jovens resolvessem montar seu próprio veículo de comunicação variavam. Hugo Vera, formado em Publicidade e Propaganda, criou em 1992 o Tchongo Magazine porque seu sonho era ter suas próprias revistas publicadas. “Sempre gostei de fazer quadrinhos e escrever textos”, conta. Já o publicitário José Calazans Junior, autor do Camisa Nova e Offline, explica que, em sua origem, o fanzine buscava abordar assuntos que a grande mídia não discutia. “Isso acontecia fosse pela tentativa de combate à repressão, como durante a ditadura militar, ou simplesmente diversão. O fanzine era uma alternativa para quem queria publicar seus pensamentos, mas não tinham espaço para tal. Por isso a publicação é considerada alternativa ou underground”, explica o paraense.

No entanto, JM Trevisan, publicitário e redator de fanzines, acredita que já não se pode mais dizer que falta espaço de publicação. “Hoje em dia fica difícil falar em falta de espaço na mídia com os blogs ao alcance de um clique. O fanzine é mais um fetiche, um meio de a pessoa ver sua obra impressa, já que ser publicado por uma editora de porte continua não sendo uma tarefa fácil”, opina ele, que já participou do 3ª Dimensão e do Zine Insano.

 

Brincadeira séria

As dificuldades enfrentadas por fanzineiros como o jornalista Zé Dassilva, que fazia histórias em quadrinho (HQ) para a publicação catarinense Futio, eram várias: “Para ser independente, tive que depender de muita gente. Desde o cara que vendia anúncio, até quem botava o fanzine nas bancas e os colaboradores”. Além disso, como ressalta Sá Martino, a experiência de fanzineiro costuma ser solitária. “Às vezes, você tem uma equipe, mas é raro. Acaba sobrando para uma única pessoa botar a mão na massa.” O professor, que afirma nunca ter conhecido um exemplo de fanzine organizado, acredita que a proposta seja realmente anarquista. “Não há uma dinâmica de redação, nem restrições com o tamanho da página”, argumenta. Cid Vale, fanzineiro desde 1996, conta que teve de fazer tudo sozinho para montar sua própria publicação. “Quando comecei a ler fanzines, em sua maioria voltados ao cinema e à literatura de horror, me contagiei profundamente. Só sosseguei ao lançar o meu.”

Contudo, JM Trevisan lembra de seu cargo como “editor”, quando era o responsável por cobrar a entrega do trabalho de outros fanzineiros.  “Eu decidia como seria a capa e tudo mais. Na época, eu não tinha muita ideia do que um editor fazia. Havia também um diagramador, o Fernando Aoki, que era mais velho, me ajudava a editar e entendia melhor a dinâmica.”

Já José Calazans dá como exemplo o próprio Camisa Nova, em que há quatro pessoas que se dividem por funções e tarefas. “Todos são redatores. Escolhemos as pautas e dividimos entre os membros os afazeres, que vão desde pesquisar todas as imagens para o zine até entrar em contato com alguns colaboradores. Depois disso, vem a diagramação, que fica por minha conta e de outro integrante, o Artur Araújo.”

 

Online: o caminho possível

Com o acesso à internet, fazer fanzines se tornou uma prática ambígua. O meio tanto passou a facilitar a produção e divulgação como também pode ter dissolvido o formato. Para Hugo Vera, por exemplo, “A internet matou o fanzine”. “Há anos não vejo um fanzine de papel, xerocado. A própria definição da palavra mudou”, aponta Luis Mauro Sá Martino.

 Cid Vale, que já havia criado o impresso Aranhas do Aquário, acabou organizando outra publicação, o Sépia Zine. “Com cerca de 60 páginas prontas para a primeira impressão, resolvi colocar tudo na internet”, conta.  Já o Camisa Nova, do publicitário José Calazans Junior, nasceu totalmente digital. “Sairia caro imprimir as edições e, nas minhas pesquisas, descobri que os fanzines estavam migrando para a web por causa do custo e do aumento da distribuição”, argumenta.

fanzines online que publicam seus conteúdos nas plataformas blog, site ou em arquivos no formato PDF – apesar de esta última opção incomodar alguns leitores. “Não vejo graça em abrir um fanzine em PDF. Se for para lê-lo com cara de antigo, então é mais fácil que o fanzineiro xeroque e ache um lugar para distribuir”, opina Luís Mauro Sá Martino. Para Trevisan, o que interessa é o conteúdo: a ausência de limites na internet dá chance aos fanzineiros de exibirem suas ideias de forma concentrada, num blog, por exemplo. “O cara que lê pode comentar na hora, indicar para amigos, espalhar via Twitter”, indica o roteirista, que acredita que o fanzine impresso já passou para a condição de fetiche. “É um produto que, mais do que nunca, precisa hoje ser certeiro e dar retorno. Há pouca abertura para o experimentalismo e essas publicações dificilmente preenchem esses pré-requisitos. E nem devem, já que essa é a vantagem de fazer fanzine.”

Assim, a rede seria uma chance única para os fanzineiros extinguirem uma das características básicas do seu produto: a pouca quantidade de leitores. “Para os nostálgicos, perde um pouco aquele romantismo de imprimir o fanzine, acompanhar a distribuição, mas, por outro lado, era um negócio muito pequeno. Você tinha uma tiragem de cem exemplares, dos quais a maioria era distribuída para amigos, namorada. Para atingir um público maior, o negócio é a internet mesmo”, argumenta Martino.

 

Poucos, mas fiéis

No início, o pequeno número de cópias acabava delimitando os leitores dos fanzines. No caso do publicitário Hugo Vera, a tiragem do Tchongo Magazine era de apenas 40 exemplares.  Mas, como a publicação surgia a partir da união de pessoas com interesses comuns, ela acabava criando uma comunidade de leitores e escritores. “Tão legal quanto fazer seu fanzine era ler o do seu amigo”, comenta Martino.

O professor recorda que, nos anos 1980, os fanzines formavam e divulgavam nichos, como a segmentação faz atualmente. “Se eu adoro literatura Steampunk, vou descobrir outras pessoas no Brasil que também gostam e eu imagino que seja um círculo bem restrito. Por meio do fanzine, era possível encontrar boa parte dos meus interesses culturais, políticos e artísticos que eu não acharia na grande mídia, mas na publicação do meu colega. É mais ou menos como acontece hoje via e-mail ou Facebook”, explica. Muitos leitores e fanzineiros acabavam trocando cartas e se comunicando, formando uma rede. “Tudo era excitante demais”, lembra Cid Vale.

No início da década de 1990, Trevisan escrevia para garotos leitores de quadrinhos americanos através dos fanzines 3ª Dimensão e Zine Insana. Já Calazans, atualmente, conversa com estudantes de comunicação por meio do Camisa Nova e com participantes de eventos sobre internet, com o zine impresso Offline. “Criei algo em que o público pudesse ter uma experiência a cada leitura, além de interagir com outras pessoas”, conta o publicitário. Com a tiragem de 50 cópias, o fanzine do paraense carrega um anúncio pedindo para que as pessoas tirem xerox de seu exemplar, de modo que outras pessoas também possam lê-lo.

 

Rico portfólio

Unindo o útil ao agradável, os fanzines são capazes não só de dar voz aos fanzineiros, mas também alavancar uma carreira profissional. “Eu tinha 21 anos quando o Caderno 2 do Estadão fez uma reportagem sobre jovens quadrinistas que estavam surgindo nos fanzines. Deram um destaque legal para minha HQ, Uma ode ao nosso Gódi, em que um cara morre e descobre que Deus é Sílvio Santos, que seu filho é Gugu Liberato e que o Espírito Santo, que ninguém vê, é o Lombardi”, conta Zé Dassilva. E essa não foi a única boa experiência, porque o jornalista ainda conseguiu um emprego como chargista por causa de um fanzine que ele próprio lançou. O nome, 4-3-3, traduzia a linha editorial, defensora da “vida como imitação do futebol”.

Para o roteirista JM Trevisan também não foi diferente. “Com o Zine Insano, eu e o Greg Tocchini, hoje desenhista da Marvel e da DC Comics, entramos no ramo editorial usando uma HQ nossa, no fanzine, como amostra de trabalho. Dá para dizer, sem erro, que minha carreira de roteirista e editor nasceu ali”, afirma. No caso de José Calazans, o fanzine não lhe deu um emprego, mas tem proporcionado convites para palestras. “Depois que criei o Camisa Nova, passei a ser reconhecido nas entrevistas de emprego, além de eventos da área. É legal ouvir as pessoas dizerem: ‘Você é do Camisa!’”

Mas, no final das contas, a característica mais marcante é a experiência fanzineira. Hugo Vera relembra que Tchongo Magazine serviu como um “revide inteligente ao bullying”. Feito em dupla, o fanzine carregava a marca de autoria dos alunos. “Éramos os CDFs da sala e a ‘turma do fundão’ adorava fazer piada. Às vezes, até nos humilhavam com apelidos, bolinhas de papel. Nós ficávamos chateados e o desejo de vingança se tornava latente. Em vez de revidar na mesma moeda, pensei em algo mais glorioso, que não pudesse ser superado”, recorda.

Assim, o publicitário utilizou o apelido “tchongo”, que era empregado a ele e a seu amigo, para criar o fanzine. “O reconhecimento do nosso talento foi quase imediato. Aquilo que era para ser uma brincadeira de sala acabou se espalhando pelo colégio todo.” Com 15 anos, Hugo e seu colega passaram a ser conhecidos entre os estudantes e ganharam privilégios que a maioria não desfrutava. “Ninguém tinha acesso à sala dos professores, mas nós sim. Éramos convidados para tomar café junto a eles, coisa de adolescente nerd”, brinca. Enfim, o fanzine acabou como uma boa lembrança para Hugo. “Foi como esses filminhos adolescentes americanos, em que os nerds são passados para trás, mas depois conseguem se dar bem. Foi o que aconteceu comigo e com o meu amigo”, conclui, rindo.