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05/10/2011 - 17h08 - Atualizado em 23/05/2012 - 02h55

Agostini na feliz leitura de Maringoni

Carlos Costa


Divulgação

Uma das funções do trabalho acadêmico é lançar luzes sobre fatos e feitos do passado, que a corrida do tempo coloca muitas vezes nos porões do esquecimento. Um exemplo concreto dessa atividade da academia é a redescoberta de Angelo Agostini. Na segunda metade dos anos 1970, quando fiz a graduação em jornalismo aqui na Cásper, o professor de História da Comunicação, Antonio Costella, em suas entusiasmadas aulas jamais mencionou esse grande revisteiro italiano, como também não se deteve na obra de outro grande personagem de nossa imprensa, Francisco de Paula Brito.

Talvez a obra de Paula Brito ainda esteja por ser resgatada, mas Angelo Agostini vive hoje um reconhecimento que havia se esfumado ainda antes de sua morte, em 23 de janeiro de 1910. E esse é um dos méritos da pesquisa acadêmica, como prova o recém-lançado livro de Gilberto Maringoni, Angelo Agostini, a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal, 1864-1910 (Devir Livraria), resultado de sua tese de doutorado em História Social, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em 2006.

O próprio Maringoni conta como se deu seu contato com o mestre italiano: “Em 1984, alguns membros da Academia Brasileira de Letras quiseram prestar uma homenagem a Adolfo Aizen (1907-1991), então principal editor de quadrinhos no Brasil e proprietário da Ebal (Editora Brasil-América). Meio século antes, em 14 de março de 1934, Aizen lançara, com grande sucesso, o Suplemento Juvenil, um tablóide semanal de 16 páginas e tiragem inicial de 200 mil exemplares. No miolo, as histórias norte-americanas de sucesso na época: Flash Gordon, Fantasma, Mandrake, Jim das Selvas, Dick Tracy e um time de heróis mascarados.

“Os acadêmicos propuseram ao Congresso Nacional instituir o 14 de março como Dia das Histórias em Quadrinhos”, prossegue Maringoni. “Em São Paulo, um grupo de cartunistas, embalados pelos ventos democratizantes das Diretas Já, resolveu criar uma entidade, a Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas (AQC). A meta era lutar pela expansão do mercado para artistas nacionais. Entre outros, faziam parte da associação Paulo Caruso, Fortuna, JAL [José Alberto Lovetro], Laerte e eu.

“Naqueles tempos, a Ebal era ao mesmo tempo objeto de admiração e vilã da história: suas revistas quase só publicavam material estrangeiro e pouco espaço dava aos talentos brasileiros. Achávamos que sagrar o 14 de março seria um equívoco. Passamos a pesquisar uma data alternativa para a comemoração. Um colega carioca – Ofeliano de Almeida – levantou a lebre. Resolveu investigar uma informação dada por Herman Lima, em seu clássico História da Caricatura no Brasil. Lá, ele dizia que Angelo Agostini publicara histórias em quadrinhos na segunda metade do século XIX, no jornalzinho Vida Fluminense. Ofeliano foi até a Biblioteca Nacional e achou um tesouro. Ele me deu o toque e fui ao Rio. Fiquei pasmo. As sequências desenhadas pelo italiano eram de alta qualidade. Esteticamente não tinham paralelo no mundo.

“A data de publicação era 31 de janeiro de 1869. A partir daí, batalhamos para que esta data fosse estabelecida como Dia do Quadrinho Nacional. E assim ficou. A ABL acabou não levando sua proposta adiante. Outro pesquisador fez o mesmo trabalho e na mesma época. Era Antonio Luiz Cagnin, professor da ECA-USP. Por meio de seus estudos, vários detalhes dos trabalhos de Agostini passaram a vir à luz. A partir daí, comecei bissextamente a pesquisar o trabalho de Agostini, até decidir a fazer dele meu tema de pesquisa no doutorado”, conclui Maringoni.

Mas o trabalho de Gilberto Maringoni, primoroso pela qualidade do texto e por sua visão atenta de arquiteto, jornalista, ilustrador e pesquisador, vai muito além da faceta do Agostini quadrinista.

 

A trajetória de Agostini

O livro de Maringoni, dividido em cinco capítulos, precedidos de uma apresentação imperdível, mapeia a trajetória e as peripécias de Agostini em seus quase cinqüenta anos de atividade criativa. A introdução (“O traço e a troça”) é uma bela mostra da escrita de Maringoni: a análise que faz de uma lâmina do livro Viagem pitoresca através do Brasil, de Rugendas (1802-1852) insere o leitor no mundo da leitura das imagens e ao universo em que atuará o personagem de sua pesquisa. O primeiro capítulo “O Diabo na província” aborda os inícios do jovem Angelo na capital paulista, onde criou as primeiras publicações semanais ilustradas daqui (O Diabo Coxo e o Cabrião, entre os anos de 1864 e 1867). “Impressões de uma viagem à Corte”, o capitulo 2, analisa as primeiras publicações do grande italiano no Rio de Janeiro (Arlequim, Vida Fluminense e O Mosquito).

O grande feito de Agostini, a Revista Illustrada, recordista de vendas na América Latina naquela época (entre 4 mil e 6 mil exemplares semanais), é esmiuçado no capítulo 3, “Império ilustrado”. O capítulo 4, “A República da especulação”, trata da Revista Illustrada sem Agostini (que fugira em setembro de 1888 para a França, após o escândalo familiar de engravidar uma aluna, e ali vive seis anos de que pouco se sabe), sua volta em 1894 e o lançamento da revista Don Quixote, sua obra de maturidade artística e de decadência: sintomaticamente, como o herói de Cervantes, Agostini, que na Revista Illustrada fora o grande batalhador da abolição da escravatura e da República, agora que a primeira se concretizara com a Lei Áurea e a segunda se instaurara, trazendo no seu rastro a repressão e censura à imprensa, é um herói sem causa.

O capítulo 5, “Os últimos anos”, mostra o Agostini assalariado, colaborando com as novas publicações do século que iniciava, como O Malho e a infantil Tico-Tico (nesta, saudosista, ele conta para as crianças as histórias do tempo da escravidão, nos quadrinhos de “História de Pai João”.

 

O repórter da abolição

Muito mais do que retratar o quadrinhista, Maringoni mostra o grande repórter que foi Angelo Agostini. Nascido em 1843 em Vercelli, no Piemonte, norte da Itália, criado pela avó em Paris, Angelo veio com 17 anos para o Brasil acompanhando a mãe, cantora lírica, e o padrasto, fazendeiro português com negócios aqui.

Se em sua passagem por São Paulo ele despertou fortes emoções, tendo a redação de seu periódico apedrejada e sofrendo processo por suas charges ferinas revelando a mediocridade dos políticos locais e a hipocrisia eclesiástica, no Rio de Janeiro ele não passará despercebido.

Agostini retrata o Rio de uma maneira especial, atento às miudezas do cotidiano. Das sujeiras das ruas à prostituição à luz do dia, das enchentes aos excessos do carnaval, tudo passa pelo crivo desse repórter ímpar. A grande comemoração que sua revista faz da Lei Áurea, assinada pela princesa regente em maio de 1888; a revolta do vintém; a guerra de Canudos... Maringoni guia o leitor numa aventura única.

Os exemplos são muitos, mas para fechar, uma mostra: a Revista Illustrada, nº 485, de 18 fevereiro de 1888, dá dimensão social a um crime provinciano, envolvendo um delegado protetor de negros fugitivos, dois escravocratas norte-americanos, centenas de fazendeiros e um advogado abolicionista. Duas edições depois, Agostini publica uma reconstituição dos acontecimentos, traduzindo em imagens fatos e feitos que até a população analfabeta sabia ler. Como escreveu Joaquim Nabuco no jornal O Paiz, em 30 de agosto de 1888, a obra antiescravista do repórter Agostini foi “A Bíblia abolicionista do povo, o que não sabe ler”.

Desnecessário afirmar que o livro de Gilberto Maringoni é imperdível.



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