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05/10/2011 - 16h57 - Atualizado em 22/05/2012 - 13h24

A dona do Castelo

Fernanda Patrocínio e Ítalo Fassin

Um dos principais nomes da produção infantil brasileira, Beth Carmona abre seu baú de ótimas histórias

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Fernanda Patrocínio

TV Cultura, Mundo da Lua, Castelo Rá-tim-bum, Cocoricó, Discovery Kids. Estes canais e programas infantis fazem parte da infância daqueles que hoje beiram os 25 anos. Elyzabeth Carmona Leite, diretora e produtora especializada em segmento infantil em televisão, é uma das mentes criativas por trás destas atrações. Paulistana de 55 anos, com cerca de 1,60 metro de altura, olhos verdes expressivos, Beth fala em um tom manso e baixo. A carreira em rádio, passando pela programação da TV Cultura, Discovery Kids e a consagração do Midiativa fazem parte da história desta importante personagem dos bastidores da programação infantil contemporânea.

Beth Carmona nasceu na cidade de São Paulo, no dia 31 de março de 1956, e foi criada na Barra Funda, zona oeste da capital. “Quando eu era criança, São Paulo já era uma cidade grande, mas dependendo do bairro, era possível brincar na rua. Morávamos próximos a uma comunidade mais pobre e tínhamos contato com as pessoas que moravam em cortiços”, relembra Beth. A diretora afirma que sua infância foi repleta de brincadeiras clássicas de rua, como esconde-esconde e pega-pega. Mas a televisão já marcava sua vida. “Tenho uma lembrança forte de televisão, era ligada e assistia bastante. Meus programas favoritos eram Papai sabe tudo, Lassie e seriados deste estilo.”

Beth é a terceira filha de uma família de quatro irmãos – duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo. A mãe era dona de casa e cursou somente até o primário, assim como o pai da diretora. “Ele trabalhava como administrador de clubes e empresas em geral. Nossa formação foi simples, de escola pública”, conta. Estudiosa, Beth ingressou na Universidade de São Paulo, na Escola de Comunicação e Artes (ECA), e se formou em duas habilitações: Jornalismo e Rádio e Televisão. “Acho que o profissional se faz um pouco pela sua história familiar, mas muito por sua procura e interesse”, ensina.

Na década de 1970, a carreira iniciada no rádio proporcionou o contato com produções populares. Em seguida, no início dos anos 1980, trabalhou como pesquisadora na área de comunicação no Centro Cultural São Paulo, que se chamava Idart (Departamento de Informação e Documentação Artística). “Nesta época, estudava a história do Rádio e da Televisão e lecionava no curso de RTV da Fundação Armando Álvares Penteado, a FAAP”, conta ela, que destaca o fato de estar sempre “procurando fazer cursos para ampliar e orientar seu repertório.”

 

Pensando nas crianças

Em meio desta procura, o Instituto Goethe, um dos principais centros para o aprendizado da língua e cultura alemã no Brasil, ofereceu um curso cujo tema era produção infantil para TV. Beth se inscreveu. “O curso me deu mais bagagem e segurança para trabalhar com televisão. Quando este assunto apareceu na minha mão, já estava mais preparada”, afirma.

O primeiro trabalho na televisão foi consequência do rádio. Com passagens pelas emissoras Mulher e Record FM, Beth foi contratada pela Rádio Cultura e de lá foi transferida para o departamento de TV, em 1986. Sua função, a princípio, era de assessora de imprensa. Contudo, dentro do departamento de programação da TV, abriu-se uma vaga de redação. Devido ao seu diploma em Jornalismo, Beth conseguiu o cargo. “Fui me encantando com todas as atividades dentro do departamento de comunicação da TV Cultura”, confessa.

Logo, ela se tornou assessora do chefe do departamento. E assumiu a vaga principal. “Aconteceu uma demissão em conjunto e o antigo chefe foi um dos demitidos. Assumi o seu lugar de uma maneira quase natural, pois eu era a funcionária que mais conhecia o departamento de televisão”, conta.

Foi neste momento que a produção infantil passou a fazer parte da rotina profissional de Beth. Como chefe de programação, ela era responsável por tudo o que ia ao ar no setor infantil. “Em 1991, quando a produção do seriado Mundo da Lua estava começando, houve uma pequena crise no setor de produção. Roberto Muylaert, presidente da emissora na época, me deslocou para cuidar 100% deste programa”, conta. Ela foi então promovida a diretora-geral de programação e produção da TV Cultura, cargo que ocupou por seis anos.  

Beth é muito grata ao ex-presidente que lhe deu oportunidades na casa e considera Roberto Muylaert como “um homem muito visionário, que comandou um dos melhores momentos da TV Cultura, durou os dez anos que se dedicou à emissora”. Ela se lembra que foi nesta época que os grandes programas infantis da Cultura nasceram, como Mundo da Lua, Confissões de Adolescente, Castelo Rá-tim-bum e Cocoricó, assim como a chegada de produções estrangeiras.

Na gestão de Beth Carmona como diretora de programação da TV Cultura, cerca de 60% das atrações eram de produções próprias e 40% internacionais. “A compra era muito bem escolhida. Desta leva, vieram o seriado Anos Incríveis e o desenho animado Os Anjinhos.

A ex-diretora conta ainda que houve a preocupação em facilitar o nome dos programas para o telespectador: em vez de Wonder Years, adotou-se Anos Incríveis e no lugar de Rugrats, emplacou Os Anjinhos. “A ideia era mostrar um produto com qualidade, mas sem problemas com questões de estrangeirismos no nome”, explica.

 

Inesquecível Castelo

Em 1993, após o término da produção de Mundo da Lua, Beth Carmona retornou ao departamento de programação da TV Cultura. Roberto Muylaert, o presidente da emissora na época, firmou parceria com o Sesi (Serviço Social da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) para a produção de uma série, voltada aos alunos da pré-escola – crianças com até 6 anos.

O cineasta Fernando Meirelles, consagrado posteriormente com Cidade de Deus (2002), havia dirigido na época outra produção infantil bem-sucedida, o Rá-tim-bum, e foi contatado por Beth para ajudá-lo com o novo projeto, que ainda estava sendo moldado. No entanto, Meirelles, estava ocupado com outros projetos e lembrou-se do trabalho do colega Cao Hamburger, que havia produzido esquetes para a emissora. “A ideia do Rá-tim-bum virar um castelo veio da equipe principal que montamos, da qual eu já fazia parte. Nas primeiras conversas, participaram também o Cao Hambúrguer e o Flávio de Sousa, que era o dramaturgo”, relembra Beth.

O enredo de Castelo Rá-tim-bum narrava a história de Nino (interpretado por Cássio Scapin), um menino de 300 anos que mora em um castelo repleto de animais e invencionices. Nele, vivem também seu tio, o feiticeiro e cientista Doutor Victor (Sérgio Mambert) e sua tia-avó, Dona Morgana (Rosi Campos), feiticeira de 6000 anos. Apesar das peculiaridades, Nino se sente muito sozinho e, com um feitiço aprendido, atrai três crianças, Biba (Cynthia Rachel), Pedro (Luciano Maral) e Zequinha (Freddy Allan), que passam a visitá-lo todos os dias após a aula para brincarem e viverem diferentes aventuras ao lado das criaturas do castelo.

 

Boas histórias

Na opinião de Beth, tanto Castelo Rá-tim-bum quanto Mundo da Lua trouxeram muita felicidade.  “Considero Mundo da Lua um projeto normal com a qualidade de afinação de um elenco, de coordenação e de direção – tarefas e atributos fundamentais em uma produção”, conta, orgulhosa. “Houve momentos em que o diretor afirmava ‘vou trazer um helicóptero’, mas não tinha como, pois sempre se trabalha com orçamento menor do que o desejado e ele precisava se virar com um carrinho de rolimã. Manter uma boa relação durante todo o processo é uma habilidade, pois problemas, brigas e desastres acontecem.”

Dentre esses “problemas e desastres”, duas histórias merecem destaque. Durante as filmagens de Mundo da Lua nasceu um bebê, literalmente. No elenco principal, a atriz Mira Haar, intérprete da personagem Carolina, ficou grávida. Como ela era a mãe do protagonista Lucas Silva e Silva (Luciano Amaral), a inesperada gravidez foi incorporada ao enredo. “Ninguém contava que isso fosse acontecer. Então, estes elementos vivos fazem parte da natureza de qualquer projeto”, conta a diretora. O outro fato é triste: em agosto de 1994, o ator Wagner Bello, que interpretava Etevaldo em Catelo Rá-tim-bum, faleceu em decorrência de complicações com a AIDS.

Durante o processo de produção, Beth afirma que não há como ter noção do tamanho do sucesso de um programa. “Sabemos somente depois. Temos a consciência de que damos o sangue para executar um bom trabalho.” Mundo da Lua, por exemplo, foi o programa que conseguiu maior audiência em horário nobre na TV Cultura, com picos de 12 pontos às 19h30. Já Catelo Rá-tim-bum não teve uma audiência tão alta no horário nobre, mas ficou marcado no imaginário das crianças que viveram a década de 1990. “O destaque no Castelo foi a magia que permeava a identificação dos personagens. Terminamos de produzi-lo em 1997 e ele está no ar até hoje; não envelheceu. Já o Mundo da Lua, posso considerar que envelheceu, mas a televisão continua usando a receita”.

 

 

Novos planos

O ano de 1997 marcou a saída de Beth Carmona da TV Cultura. Houve um desalinhamento do pensamento da diretora com os caminhos que a televisão estava trilhando. “Eu saí da emissora muito triste. O trabalho que eu fazia poderia ter continuidade, mas eu tinha de seguir outros caminhos”.

No ano de 2002, reconhecendo que a TV comercial dificilmente dá atenção aos programas educacionais infantis e juntando seu envolvimento com órgãos como o Fundo das Nações Unidas para a Infância-Unicef, Carmona criou a sua própria ONG, o Midiativa, Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes.

“Inspirado nesses grupos que já existiam e através da união das pessoas que trabalharam comigo e que foram demitidas da TV Cultura, nasceu o Midiativa.” A organização promove a crítica construtiva sobre mídia destinada a crianças e adolescentes, visando a estimular a realização de produções de qualidade e sua difusão nos meios de comunicação.

Mas o que Beth Carmona considera mídia de qualidade? “Qualidade requer oferecer, no mínimo, diversidade. Entender que a produção infantil pode utilizar várias linguagens. Ou seja, pode ser animação, animação em 3D, stopmotion, animação clássica em aquarela, live action, que são crianças reais em drama ou documentário, dentro de suas casas ou na rua, no Brasil ou na África.”

Depois de ter trabalhado quase doze anos na TV Cultura, Carmona recebeu um convite para trabalhar em um canal pan-regional em Miami, para dirigir produções voltadas para a América Latina. Lá, trabalhou para os canais Discovery Kids e Animal Planet, o que explica o fato do escritório dela, localizado no bairro paulistano de Itaim Bibi, ter uma estante com ursinhos de pelúcia dos desenhos do canal infantil.

Na volta do exterior, Carmona assumiu a presidência da TVE, onde se concentrou por cinco anos no trabalho de reconstrução da emissora do Rio Grande do Sul, durante os anos de 2003 a 2007 Dessa fase, dois projetos podem ser destacados: o Curta Criança, que reúne hoje mais de 60 histórias brasileiras para crianças elaboradas pela equipe de Beth Carmona, e o Menino Maluquinho – A Série, feito na TVE, nomeado ao Emmy, maior prêmio da televisão, na categoria Série Internacional.

Hoje, Beth não tem mais nenhuma criança em sua casa. “Tenho dois filhos, um de 29 anos e o outro 27. Infelizmente, eles ainda não me deram netos”, conta a diretora. Quando pequenos, eles assistiam aos programas que a mãe ajudava a produzir e, inevitavelmente, ela os usava como termômetro. “É claro que, quando os filhos são menores, a relação com educação é mais intrínseca”, afirma.

Apesar da prole crescida, Carmona ainda hoje se interessa bastante por projetos educacionais e pedagógicos. Atualmente, a ex-diretora da TV Cultura tem a sua própria empresa, a Singular Arquitetura de Mídia. “Quando se tem filhos, esta questão da educação é mais sensível. Mas isto não quer dizer que aquele que não tem filho não possa ser um bom produtor e diretor infantil.”