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04/10/2011 - 18h39 - Atualizado em 23/05/2012 - 20h23

Realidade a fundo

Gabriela Sá Pessoa

A grande reportagem na visão do jornalista Klester Cavalcanti

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Acervo Pessoal/Klester Cavalcanti
O jornalista chegou a ser sequestrado depois de ter
feito uma reportagem que impulsionou a abertura de
uma CPI sobre a grilagem na Amazônia

Na estante, prêmios conferidos pela agência de notícias Reuters e pela OAB e uma indicação ao Natali Prize, o mais nobre reconhecimento de Jornalismo de Direitos Humanos no mundo. O dono desse currículo é o jornalista Klester Cavalcanti, que participa na noite do segundo dia da 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, na mesa O Texto Jornalístico na Reportagem em Profundidade.
Além de já ter trabalhado em importantes publicações, como as revistas Veja, IstoÉ, VIP e Terra, Cavalcanti escreveu os livros Viúvas da Terra e O Nome da Morte. Ambos venceram o Prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem e nasceram de matérias que ele fez no período em que foi correspondente da Veja na Amazônia, no final dos anos 1990.

Viúvas da Terra é um retrato da violência agrária no Pará, estado que apresenta os maiores índices de morte em virtude dos conflitos no campo. Já O Nome da Morte é uma biografia do matador de aluguel Júlio Santana, que, até 2006, havia matado 492 pessoas no país.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o jornalista revela seus métodos de reportagem e entrevista, além das dificuldades que enfrentou ao abordar temas tão delicados como a disputa pela terra.

Muitos escritores de ficção têm um grande projeto temático. Ainda que inconscientemente, as obras desses autores falam do mundo a partir de uma abordagem específica. Você acha que isso se aplica ao seu trabalho e de que forma isso acontece?

Não procuro me deter a um tema especifico. O que ocorre em comum nos meus três livros é que eles nasceram a partir da experiência que eu tive como correspondente da Veja na Amazônia - passei dois anos fazendo grandes reportagens para a revista. A partir dessa experiência, lancei meu primeiro livro, Direto da Selva, que conta histórias reais - algumas interessantes outras engraçadas ou de perigo - que eu vivi naquele período. 

É uma narrativa mais leve, em primeira pessoa. O segundo livro, em que falo da questão agrária no Brasil, o Viúvas da Terra, nasceu de uma reportagem que eu fiz sobre violência agrária no Pará. Claro que para fazer um livro é necessário muito mais tempo de apuração que para uma matéria, então abri mais o leque para não ser só daquele estado. 

Já o terceiro livro não tem nada a ver com os outros dois, é sobre um assassino de aluguel, que poderia ser carioca, paulista ou gaúcho, mas o cara é do Maranhão e matava pessoas no país inteiro. O livro também surgiu a partir de uma matéria para a Veja. Nesse terceiro livro, apesar do fato se passar também na Amazônia, tem histórias que são foras da região. Não tem muito a ver com os meus dois primeiros livros. 

Lendo o Viúvas da Terra, é impossível não se prender nas descrições precisas. Qual é a sua técnica pra fazer isso, tendo em vista que esse tipo de reportagem leva muito tempo para ser concluída?

Construo as histórias a partir de entrevistas com as fontes e sempre procuro falar com o maior número possível de pessoas. No caso do Viúvas da Terra, tem um capítulo que, além de falar com as pessoas citadas, converso com outras fontes que até mesmo o personagem principal não conhece, por exemplo, os policiais e o legista que trabalharam no caso. Quando digo quantas balas foram encontrados no corpo da vítima, obviamente, a viúva do assassinado não sabe disso, ela não foi lá contar. Peguei o laudo do IML, liguei para o legista e perguntei como foi o trabalho. 

Como é um livro-reportagem - o que a gente chama de jornalismo literário, sem criar - tudo deve ter apuração precisa. E, quando coloco isso, não coloco como em uma matéria. Por exemplo, não digo “durante um exame o legista comprovou que havia tantas balas no corpo”, mas “o legista contou dezoito balas no corpo do pai e oito na do filho”. Não abro aspas para o cara falar porque não é uma matéria, é um livro. 

As pessoas às vezes leem meus livros e não conseguem entender como consigo essas coisas. Mas é tudo entrevista, apuração, documentos... Sempre procuro conseguir os processos policiais e os inquéritos, pois nesses documentos tem alguns detalhes, por exemplo, a roupa que a pessoa usou, a hora do crime, quantos disparos a vitima levou, onde a bala entrou e saiu. Com base nisso tudo eu consigo construir a história com tantos detalhes assim.

Quando os jornalistas norte-americanos dos anos 60 começaram a fazer jornalismo literário e a construir as cenas com detalhes, sensações com cheiros e sensações das pessoas, os jornalistas em geral passaram a criticar a veracidade do fato, dizendo que eles estavam inventando, que era impossível o cara saber tudo aquilo. O que as pessoas não param pra pensar é que se você falar com quinze pessoas em vez de uma pessoa só, você vai conseguir muito mais detalhes. É só trabalho de apuração.

Ainda sobre apuração, em um dado momento de Viúvas da Terra, você descreve o sentimento da família durante o assassinato do patriarca. Como você faz para captar isso nas entrevistas? Que tipo de pergunta você privilegia?

Isso varia muito... O que eu sempre falo é que a faculdade de Jornalismo é muito importante - e vale a pena você saber, conhecer pessoas novas e ouvir professores mais importantes falando -, mas tem coisas que não se ensina na faculdade. O repórter precisa ter sensibilidade, deve saber ouvir e falar na hora certa, sentir até onde a pessoa está disposta a falar. Até a roupa diz muito. Se você vai entrevistar um ministro e vai de bermuda, havaianas e camiseta, ele não vai te respeitar. Se você vai entrevistar uma dessas viúvas no interior do Pará, chegar de terno e gravata intimida a pessoa e ela não consegue falar nada para você. Então [o jornalista] tem que saber como lidar com isso.

Como você lida com o medo, principalmente ao falar de um assunto tão delicado como a questão agrária no país? Você inclusive já foi sequestrado durante um trabalho...

Isso foi na época da Veja, em março de 2000. Eu estava fazendo uma matéria de denúncia sobre uma quadrilha que roubava terras públicas no Pará...

Foi essa a matéria que detonou a CPI da grilagem...

Exatamente, essa matéria levou a Câmara de Deputados de Brasília a abrir a CPI sobre a grilagem de terras na Amazônia. Estava apurando e comecei a falar com os acusados. Sempre faço isso, é muito importante durante um caso desses falar com os acusados. Primeiro para dar a eles a chance de se defender, mesmo sabendo que se trata de um criminoso. Acho bom até para enriquecer a apuração. Quando comecei a falar com eles, apareceram ameaças de morte na minha casa. Deixavam bilhete na portaria - eu morava em Belém nessa época. Nunca dei muita atenção, porque achava que não iam fazer nada, era só para assustar.

Certo dia eu estava na rua, indo tirar dinheiro num caixa eletrônico, e três caras mascarados me pegaram com o revólver e me colocaram num carro. Ficamos 30 minutos andando e, depois, entraram numa estrada de terra. Senti por causa do balanço, porque estava encapuzado o tempo todo. Depois de uns 20 minutos nessa pista de terra, o carro parou e começamos a andar - eu ainda estava encapuzado.

Isso aconteceu quando eu já tinha experiência de dois anos na Amazônia. Então, quando começamos a andar na mata, eu sentia até pelo cheiro, pela umidade e pelo barulho que nós estávamos na selva de verdade... Aí eu comecei a ficar um pouco preocupado.

Me colocaram no chão, de costas, e me amarraram em uma árvore. Um deles me falou: “isso é só um aviso, se a matéria sair, a gente volta para terminar o serviço”. E foram embora. Fiquei amarrado no meio da selva, não tinha muito o que fazer - fiz que nem filme de bang bang, roçando a corda na árvore para poder parti-la com o atrito. Na época, eu já tinha aprendido a andar na floresta com vários guias, então consegui encontrar a saída da mata. Estava chovendo, eu tinha cortado os pulsos tentando cortar a corda, tropeçado umas 2 ou 3 vezes nas raízes das árvores quando estava de capuz. Isso no meio do mato, à noite, com chuva... Estava sangrando e ninguém ajudou quando eu pedia carona. Andei “pra caramba” e cheguei em um posto da Polícia Federal Rodoviária e descobri que eu estava em uma cidade chamada Benevides, a 34 km de Belém. Um dos policiais me colocou em uma viatura e levou pra casa. Foi isso.

Você pensou em desistir do jornalismo depois disso?

Desistir, não. Eu nunca penso em desistir. Não é porque eu sou valentão ou coisa assim, mas quando eu faço um trabalho desse tipo, fico tão focado que não percebo os riscos, não penso se pode ser perigoso ou não. Fico mais indignado do que com medo. Os caras podem fazer tudo que querem e como querem e, se você vai denunciar, eles ainda querem pegar você. Aí é demais, né?

Isso me lembrou uma passagem de Viúvas da Terra, parecida com o que você viveu. No trecho, você conta que alguns capangas amarraram agricultores que estavam protestando por terras que lhes seriam de direito. Essa experiência aumentou sua sensibilidade de alguma forma? 

Nunca pensei nisso, não sei se influenciou alguma coisa. Talvez sim, agora que você falou. Quando eu conto esse tipo de história eu tenho uma certa ingenuidade, pode-se dizer. Se uma pessoa lê um livro meu e passar a entender aquilo de uma forma diferente e tiver outra postura sobre esse tipo de violência no Brasil, já valeu o esforço. 

Você pensa em retomar alguma dessas histórias um dia?

Uma ideia que vez ou outra volta à minha cabeça é fazer um documentário sobre o Viúvas da Terra. Voltar lá e, em vez de levar só o bloquinho, a caneta e o fotógrafo, ir com o cinegrafista e entrevistar as viúvas e algumas outras mais. Fazer em vídeo o que eu fiz no papel. O Nome da Morte já está sendo adaptado para o cinema pelo cineasta Henrique Goldman, que dirigiu o filme Jean Charles. Ele já está no Maranhão, vendo locações para o filme e conhecendo os cenários reais que eu cito no livro. O roteiro está quase pronto, vão começar a filmar no ano que vem. A ideia é lançar em 2013.

Por fim, como você avalia o espaço para grandes reportagens nas novas mídias?

É complicado, porque reportagem de verdade, com profundidade e tudo mais, dá muito trabalho e é muito caro fazer. Quando fui para Amazônia, em 1998, a Veja estava investindo muito nisso e meu chefe na época, Laurentino Gomes, gostava muito disso. Assim, já fiquei dois meses apurando uma única matéria. Hoje em dia, ninguém faz mais isso.



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