O jornalista que fez parte da equipe de criação das principais revistas semanais do Brasil analisa as abordagens da imprensa atual
Um senhor com seus cabelos brancos e paletó cinza chega surpreso em meio a altos aplausos e, timidamente, começa a anunciar que, embora quisesse, não poderia ser porta-voz de boas novas. Essa era a figura de Mino Carta, que palestrou na primeira sessão noturna da 19ª Semana de Jornalismo, no Teatro Cásper Líbero. Ele faz questão de acentuar seu ponto de vista, dizendo ser otimista em relação ao Brasil apenas a longo prazo e, talvez, a médio prazo.
O palestrante desta segunda-feira, dia 3 de outubro, afirma acreditar que o país se tornará importante nos próximos anos e dá os louros de nosso atraso à elite brasileira. O problema nacional, de acordo com ele, estaria na herança de três séculos de escravidão, pois a nata da sociedade teria ainda a mentalidade de “Casa Grande”, fazendo de tudo para manter a “senzala” em sua condição submissa e calada. De acordo com o idealizador das revistas Veja e Carta Capital, esse instinto de predação e de manter uma situação que lhe é tão favorável parece ser algo inato da natureza elitista.
Mino Carta não poupa farpas e críticas ao jornalismo brasileiro, que seria o único do mundo em que jornalistas chamam seu chefe de “colega”. Ele acredita que o profissional fica preso às mentiras que o veículo empregador lhe impõe, já que os diretores dos periódicos teriam sido colocados ali por “direito divino” e seguem rigorosamente a mentalidade de “Casa Grande”. Omissões e mentiras seriam tão comuns que o palestrante diz evitar ao máximo ler a grande imprensa brasileira “pelo bem de seu fígado”.
Mino Carta ainda introduziu três fundamentos que considera essenciais para os profissionais de comunicação. O primeiro, mais técnico, trata de saber lidar bem com o “vernáculo pátrio”, que é a língua portuguesa. Por isso, ele cita Rubem Braga, que tão bem dominava as letras e repercutiu também como escritor. O segundo se refere ao conteúdo moral do jornalista, ou seja, seu senso de responsabilidade. Para elaborar essa ideia, cita o livro Entre o passado e o futuro de Hannah Arendt e, baseando-se neste, distingue a verdade factual da opinião ou tentativa de interpretação.
A partir disso, mostra que, embora a verdade factual seja o fundamento básico da atividade jornalística, a grande imprensa brasileira despreza esse aspecto. “O jornalismo atual omite frequentemente quando não convém ao dono da mídia que aquilo venha a tona”, critica Carta. O último fundamento, mas não menos importante, trata da fiscalização do poder, em qualquer segmento. “Nós hoje tendemos a crer que a politica é automaticamente corrupta. Mas não devemos esquecer que a corrupção é sempre de duas vias, de quem corrompe e de quem é corrompido.”
A palestra terminou com diversas perguntas dos alunos, como dúvidas sobre a saída do jornalista da publicação Veja, da sua atuação em Quatro Rodas, da criação do Jornal da Tarde e de soluções para o mau panorama jornalístico. Além disso, respondeu sobre as possíveis atuações de jornalistas em início de carreira, que, de acordo com ele, estão fadados a viver com as imposições da "Casa Grande".
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