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23/09/2011 - 20h16 - Atualizado em 22/05/2012 - 01h55

Craque do jornalismo

Thiago Tanji, 3º ano de Jornalismo

Confira a entrevista com o comentarista esportivo Paulo Vinícius Coelho, que vai estar no segundo dia da Semana de Jornalismo

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Rodrigo Paulicchi e Sandro Grassetti

A escalação completa da seleção húngara de 1954. A formação tática do Guarani de 1978, campeão brasileiro daquele ano. Ou então, uma comparação entre a média de finalizações do Campeonato Paulista de 1974 com o de 2008. Tudo isso é trabalho para um “louco por futebol” chamado Paulo Vinícius Coelho. Mais conhecido como PVC, o jornalista é um ídolo dos futuros cronistas esportivos que também desejam ter um conhecimento tão profundo sobre o esporte mais popular do Brasil.

Com mais de 20 anos de carreira, ele passou pela redação da revista Placar, foi um dos fundadores do jornal diário Lance! e escreveu quatro livros: Jornalismo Esportivo (2003); Os 50 Maiores Jogos das Copas do Mundo (2006); Futebol Passo a Passo: Técnica, Tática e Estratégia (2006) e Bola Fora (2009). Atualmente, trabalha na rede esportiva de televisão ESPN, além de ser comentarista da rádio Estadão/ESPN. 

Participante da Semana de Jornalismo da Cásper Líbero que acontecerá de 3 a 7 de outubro, PVC conta sobre a sua carreira, comenta alguns temas polêmicos da cobertura esportiva e explica como consegue analisar uma partida de futebol com a sua infalível “prancheta”. Certamente, uma dica preciosa para os futuros jornalistas esportivos.

Joel Silva/Folhapress
O jornalista acredita que a paixão pelo futebol tem que
ser mantida diariamente, ainda que seja o seu ofício


Em uma entrevista, você disse que desde que nasceu era “louco por futebol” e que o jornalismo surgiu em sua vida por causa dessa paixão. Poderia contar sobre isso?

Eu era maluco por programas de TV, rádio, revistas, acompanhava tudo sobre esportes, principalmente futebol. Fui ao estádio pela primeira vez aos cinco anos de idade para assistir a um jogo da Portuguesa contra Juventus com meu avô, no dia 29 de março de 1975.

O que atrasou um pouco a minha decisão pelo jornalismo esportivo foi o fato de ouvir de muita gente, pois eu era tímido e isso era incompatível com a profissão. Além de acreditar que não ganharia muito dinheiro com a profissão. Eu queria ser jornalista com 14 anos de idade, mas decidi bater o martelo entre os 16 e os 17 anos, na hora de prestar o vestibular. 

Mas desde garoto você gostava de guardar dados técnicos das equipes e observar os esquemas táticos? 

Aprendi a datilografar batendo a escalação dos times, tabulando e colocando “Internacional – 1. Gilmar 2. Sílvio 3. Pinga...”. Isso quando tinha 13 anos. Os esquemas táticos eu conhecia da mesma maneira que qualquer garoto apaixonado por futebol, mas comecei a perceber que não estava “vendo” bem futebol quando tinha 18 anos, depois de um jogo do Santos e São Paulo que fui assistir no Morumbi. O Santos meteu 3 a 0 e os meus amigos disseram que o Bernardo tinha jogado muito, mas não consegui ver isso. Está certo que no dia seguinte fui ao oculista e descobri que tinha 4 graus de miopia, mas não foi só por isso. Comecei a me policiar para observar mais o jogo e a partir daí passei a entendê-lo melhor.

Como você analisa a cobertura esportiva hoje em dia? O que mudou desde que você era um jovem repórter da Placar?

Eu sou mais chato com a cobertura jornalística do que no passado porque hoje tenho mais senso crítico. Não sei medir se havia mais coisa errada no jornalismo antes do que nos dias de hoje, mas acho que atualmente temos muito mais cuidado com a apuração, com a cobertura do jogo, com detalhes de informação e até com as questões mais fundamentais “quem”, “quando”, “onde”, “como” e “por que”. Mas tenho ficado aflito com a quantidade de informação passada que acaba não se confirmando. Eu erro, as pessoas erram, mas tenho medo de que essa quantidade enorme de informações imprecisas que saem na grande imprensa pode significar que, daqui algum tempo, o público dará tanto crédito para uma notícia de jornal quanto para uma conta de Twitter de alguém que não é jornalista. Esse é um risco que corremos.

A ESPN preza por tratar o futebol com seriedade e profundidade. Outros veículos preferem explorar o esporte a partir do entretenimento. Em sua opinião, como essa cobertura deve ser encarada?

Tem espaço para tudo. A gente só não pode perder de vista o fato de que o jornalismo tem alguns princípios fundamentais. Por exemplo, eu não acho que está certo quando você faz uma matéria sobre o lance do gol do Ananias que deu a vitória para Portuguesa. A partir de então, o Globo Esporte dá a entender que o gol foi combinado, mas no dia seguinte dizem que isso era brincadeira. Isso é algo sério porque passa para o público a impressão de que não era uma simples brincadeira. O nosso patrimônio é a credibilidade e a qualidade da informação. É como a história do Pedro e o Lobo. Um dia o Pedro vai dizer “Olha o Lobo, olha o Lobo”, mas o cara não vai acreditar porque você já mentiu uma série de vezes. E daí o “Lobo” pode comer o jornalista.

Você já sentiu algum preconceito de colegas que cobrem outras editorias em relação ao jornalismo esportivo? 

Tem gente que fala isso. Mas o jornalismo não é uma coisa menor, é jornalismo, tem que ser exercido e observado como qualquer tipo de jornalismo. Exige pesquisa, exige apuração, exige cultivo à fonte, exige trabalho e responsabilidade de checagem. Outro dia o Clóvis Rossi [confira especial exclusivo com o jornalista] veio aqui gravar o Loucos por Futebol e disse que “as pessoas acham que qualquer um pode falar de futebol, mas aqui as pessoas pesquisam,  apuram e a gente vê que é difícil fazer isso”. O Clóvis Rossi foi jornalista esportivo inclusive, mas ele veio para cá com uma ideia e saiu com outra. Isso é importante: as pessoas entenderem que não pode ser palpiteiro. Eu não dou palpite em teatro porque eu não entendo de teatro. Eu não dou palpite em cinema, embora possa gostar ou não de um filme, mas não tenho conhecimento teórico para dar esse pitaco. E acho que o leitor, o ouvinte, o telespectador sabe distinguir isso: quem está dando palpite e quem está fazendo jornalismo.

Há jornalistas que não revelam os seus clubes de coração, outros assumem uma versão caricata de torcedor. Você não esconde para quem torce, mas mesmo assim mantém uma postura isenta [PVC é palmeirense]. O torcedor do Palmeiras não pensou que você está criticando a equipe apenas para “fazer média” com os espectadores que torcem por outros times? Isso já não lhe causou problemas?

A única vez que eu sofri uma hostilidade em um estádio de futebol foi no Parque Antarctica quando desci para comprar refrigerante e um cara gritou “É campeão do mundo sim, seu trouxa”. Isso porque eu havia dito que a Copa Rio não é Campeonato Mundial porque ela não é um torneio conhecido fora do Brasil, sem ter peso de “campeão do mundo”.

Mas essa questão não acontece só no esporte. O jornalista que cobre política, por exemplo, vai votar em alguém e, mesmo que ele não revele sua preferência política, seu voto tem tudo a ver com o que ele pensa e aquilo que vai escrever. No futebol, é até mais fácil separar isso porque o jogo contará uma história para você. 

Mas manter essa postura é difícil, não?

Eu gosto dessa minha resposta: “Eu só digo meu time quando é relevante, ou seja, toda vez que me perguntam”. Nesse caso, exerço o primeiro princípio da minha profissão: dou a informação correta. Se não der a informação certa sobre isso, não tenho credibilidade para oferecer dados exatos sobre nada.
Muita gente sabe o time pelo qual torço, mas só falo quando sou perguntado, que são pouquíssimas vezes. Mas não é difícil manter essa posição, o campeonato leva a gostar de um time ou outro. Por exemplo, o Botafogo de 2007 era um time que eu gostava de ver porque se movimentava bastante, mas não queria que ganhasse o campeonato. Eu só queria ver o time jogando bem.

Assim como em qualquer outra área do jornalismo, é muito difícil manter uma posição neutra em relação aos acontecimentos. Quando você está no estádio comentando um jogo na Estadão/ESPN e sai um gol do Palmeiras, não há nem um pouco de alegria? 

No rádio eu até já fiz assim [faz um sinal de vibração com as mãos]. Acontece, mas não é de torcer pelo time, é estar acompanhando o jogo. E acho que eu fui muito preparado pelo acaso, porque sou neto de avô luso e filho de pai santista. Então vi muito jogo do Palmeiras na torcida do Santos. Em 1983, no gol do Aragão [quando o Santos vencia por 2 a 1, o palmeirense Jorginho chutou uma bola que acabou desviando no juiz José de Assis Aragão e entrou no gol], estava na arquibancada santista e não podia comemorar, tive que ficar na minha.

No livro Jornalismo Esportivo, você afirmou que, quando se é criança, a paixão pelo futebol é muito maior. Por causa da sua profissão, trabalhando diariamente com o esporte, o sentimento continua o mesmo? 

Continua. Eu tenho que manter essa paixão todos os dias. Acho que conheço mais futebol do que quando era jovem, por ter mais informações disponíveis, acumulando conhecimento. Mas é legal perceber que você vai ao estádio querendo ir ao estádio. Há momentos que você pode até querer ficar em casa, mas quando você tem 13 ou 14 anos, dá tudo para ir nesse jogo. E se perder isso de vista, está morto. O dia que você perder a paixão, perdeu a sua profissão. Eu virei jornalista esportivo por causa dessa paixão e o dia que eu perder isso vou deixar de ser profissional.

Em seu tempo livre, você gosta de ir a estádios e ficar assistindo jogos pela TV?

Jogos na televisão eu vejo todos, ir ao estádio vou menos porque tenho família. Eu passo muito tempo do meu trabalho no estádio, então quando estou no momento de folga, sento na cadeira da varanda e fico ali vendo o jogo, e isso já é um incômodo para minha esposa. Mas vou ao estádio com meu filho menos do que quando era jovem e menos do que gostaria também. No meu tempo livre, também estou lendo livros sobre futebol e aprendendo coisas sobre o assunto.

Em 1988, você foi assistir ao jogo de São Paulo e Santos e disse que não conseguiu “ver” o campeonato. Atualmente qual é o seu método para observar os esquemas táticos de cada equipe? 

Mapear o jogo. Vamos fazer aqui [pega um papel e uma caneta e começa a rascunhar um campo de futebol], por exemplo, Corinthians x São Paulo. Antes de começar o jogo, faço um exercício simples que ajuda muito. Desenho o campo e coloco os dois times – “Rogério, Piris, João Felipe, Rhodolfo, Juan, Wellington, Casemiro, Carlinhos Paraíba, Cícero, Lucas, Dagoberto”. Agora, “Júlio César, Alessandro, Chicão, Castan, Ramon, Ralf, Paulinho, Alex, William, Emerson, Liedson”. Você precisa saber como os dois times jogam.

Agora, quem sobrou na marcação? Há um espaço livre no campo que será preciso ser composto por algum jogador. Na maior parte do tempo, o jogo não é só marcação individual, mas sim pelo setor e a partir daí você começa a entender o jogo. Você verá que o Dagoberto vai jogar na faixa entre o Alessandro e o Chicão e se o jogo estiver fácil, ele irá jogar nas costas do Alessandro. Ao entender quem marca quem, você entende o jogo. E, ao longo da partida, você observa se houve alguma mudança, se há outros duelos travados no campo. Esse método ajuda bastante na hora de entender o jogo.  

Você já se decepcionou com o futebol ao descobrir os bastidores da bola?

Não, porque é aquela coisa de se desapontar com o ser humano. Acho que nunca tive a ilusão de que o ser humano é absolutamente perfeito. Se o ser humano do futebol comete suas imperfeições, o ser humano da engenharia também: ele pode ter corrompido alguém antes de construir um prédio, por exemplo.
Como o futebol é fruto da paixão mais ingênua da criança, quando o cara fica adulto e percebe que tem pilantragem, fica chateado. Mas não tem pilantragem o tempo inteiro: o futebol é um meio onde existem seres humanos, logo acontecem coisas boas e ruins. Não me desaponto com o ser humano, mas também não tenho expectativas com ele. Sou humano como qualquer outro, a gente acerta e erra. Meu papel como jornalista não é julgar as pessoas, mas contar as histórias, relatar o que aconteceu.

E a questão da ética? O jornalista esportivo também não tem responsabilidade ao divulgar certas informações privadas que certamente abalarão o clube ou até mesmo a vida pessoal dos jogadores? Qual o limite da notícia?

Existe uma metáfora que eu uso e, apesar de ela não responder tudo em relação à ética, consegue mostrar muito como deve ser. Muito no jornalismo é a relação com a fonte. E essa relação deve ser no fio da navalha. Quando se está no início da carreira, está muito longe da fonte, você não tem acesso à informação. Daí, com o passar do tempo, começamos cada vez mais a ter acesso às fontes e se chega ao fio da navalha. Se você não tomar cuidado e passar esse limite, acaba virando amigo da fonte e não é para ser assim. Você não é amigo da fonte, é jornalista. Ele está passando uma informação que interessa e que será publicada. O limite da ética é esse. 

Por isso você não pode vender anúncio, porque você não vira amigo, mas vira cliente. Não se pode ter uma relação que passe do ponto, de ir tomar chopp com a fonte, ir a balada. Lógico que às vezes você pode eventualmente almoçar com essa pessoa, mas a relação deve ser profissional e ela define muito a ética.

Você não é a favor do merchandising nos programas esportivos, já que “jornalista tem que dar informação e não fazer propaganda”. Mesmo que te ofereçam uma proposta muito boa, não existe isso para você?

Não existe. O que não significa que não aconteça. Por exemplo, a gente passou por uma situação recentemente que é o limite. O “Desafio do PVC” foi patrocinado durante a Copa América. Eles venderam a vinheta e a marca do patrocinador ficou muito próxima da minha foto. A gente cogitou mudar a vinheta, tirar a minha foto, acho até que é o melhor. Na próxima oportunidade podemos fazer isso.
Mas a questão principal é haver uma separação entre departamento comercial e departamento de jornalismo. É bom que haja entrosamento entre os dois. Por exemplo, no final de 2005, o Santander queria comprar algum programa que mostrasse os seis jogadores patrocinados por eles, que eram Cafu, Roberto Carlos, Kaká, Adriano, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. O departamento comercial trouxe as ideias e o Trajano [José Trajano, diretor de jornalismo da ESPN] nos chamou para uma reunião e planejamos o seguinte: sugeri que fizéssemos o programa Nas Pegadas dos Campeões, no qual não faríamos um programa somente com os seis atletas, mas sobre os jogadores que estão no exterior e disputariam a Copa do Mundo. Por acaso, todos os seis estavam jogando lá fora. Com o dinheiro que entraria, poderíamos ir para a Europa entrevistar Dida, Gilberto Silva, Cicinho, Gilberto e Juan. Isso é entrosamento, o comercial traz a proposta e analisamos se este programa é bom ou ruim do ponto de vista jornalístico. O jornalista não tem que vender nada.

Recentemente, você disse que, apesar de já terem “ventilado” seu nome para trabalhar na comissão técnica de alguns clubes de futebol, não sairia do jornalismo. Mas você pensa que poderia ser um bom treinador conhecendo tão bem os esquemas táticos? 

Não. Simplesmente porque eu não sou treinador, não tenho formação de treinador. Tenho formação de jornalista. O treinador tem que saber treinar e eu nunca me preparei para isso. Se eu tiver que dar um treino amanhã não saberia fazer. Não sou formado para isso. O meu preparo é para ser jornalista.
A análise tática é, inclusive, somente uma parte do jornalismo, ela não é o todo. A análise é o final de um processo de apuração. Se você fizer uma análise “o Neymar vai ser feliz no Real Madrid ou no Barcelona?” depende da apuração que tenho. Simplesmente eu posso dizer que o Neymar não irá para o Real Madrid e vai ficar no Santos. Ou seja, a apuração é muito importante para você fazer uma análise.

Você é um ídolo dos futuros jornalistas esportivos. Tem alguma ideia por que existe tamanha admiração?

Não sei por que, eu só gosto disso. Isso é um patrimônio que tenho. Não sei se as pessoas percebem que faço uma coisa que gosto, que é o futebol, o jornalismo – e faço isso com prazer. Talvez seja a única explicação, mas eu não quero ficar procurando explicação não, só não quero que mude.

E qual o principal conselho para o futuro jornalista que quer trabalhar na cobertura esportiva? 

Trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar... E gostar do que faz, isso é o fundamental.



Comentários Comentários Postados
Ada[28/09/2011 - 13:47]

Grande "Paulinho". Testemunhei essa paixão por futebol quando estava na Metodista com ele, cursando Jornalismo. Sucesso merecido, mais que merecido! E é tudo verdade: o cara é a enciclopédia do futebol. Já era assim nos tempos de metô. Parabéns!

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