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21/09/2011 - 10h47 - Atualizado em 18/06/2013 - 09h26

“Sem a guerra, acho que eu seria uma pessoa completamente diferente hoje”

Por Lidia Zuin, aluna do 4º ano de Jornalismo

Artista sérvio da banda Kriegshund conta sua história e como as Guerras Civis Iugoslavas influenciaram sua vida e obra

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Reprodução

Kriegshund (cão de guerra) é um projeto de música industrial criado por Alex Kriegshund, um músico de família sérvia nascido na Croácia de 1982. Durante sua infância, ele enfrentou o começo da Guerra de Independência da Croácia (1991-1995), também conhecida pelo nome de Guerras Civis Iugoslavas. Devido a esse conflito, por volta dos 11 anos, ele se mudou para a Sérvia. Este é um fato que causa impacto nas criações da Kriegshund, assim como é percebido em músicas como Yugoslavia. Nesta entrevista, Alex conta mais sobre sua vida e trabalho, conforme ele deixou sua carreira no Direito para se tornar um músico.

Você escreveu na descrição da página da Kriegshund no Facebook que a guerra na ex-Iugoslávia tem um grande impacto na sua vida. Por quê? Seus parentes tiveram algo a ver com o conflito?

Alex: Aquela guerra mudou tudo para mim e para minha família. Até hoje estou tentando entender quais marcas ela deixou em mim. E, nesse sentido, eu sou muito inspirado pelo trabalho de Erich Fromm. Ele também examinou suas experiências de vida e eu fico impressionado com a objetividade com que ele analisa a própria vida. Eu também tento julgar objetivamente tudo que aconteceu comigo, sempre tentando ver tudo de um ponto de vista mais amplo e não deixando as emoções distorcerem todo o contexto. Meus parentes não tiveram nada a ver com o conflito. Por sorte, todos eles sobreviveram, principalmente pelo fato de a maioria deles nunca ter aceitado os ideais nacionalistas.

Você estudou Direito por cinco anos, trabalhou nessa área por um período e então desistiu. Por que fez isso? Agora você só trabalha com música?

Alex: Sim. Decidi deixar o emprego porque eu não me sentia confortável desde o começo. Tudo que estava vivo em mim estava morrendo no escritório, na frente do computador com pilhas de papéis à minha volta. Este é o motivo. Eu já tive o suficiente disso. A música sempre foi a paixão número 1 na minha vida e a ideia de ter meu próprio projeto musical esteve na minha cabeça por um longo tempo. Então eu decidi tentar. Trabalho principalmente com música agora e, pela primeira vez na vida, eu me sinto bem por fazer algo que eu realmente amo. Eu vou continuar fazendo isso para sempre, mesmo se as circunstâncias eventualmente me forcem a encontrar um trabalho regular novamente.

Você diria o mesmo para aqueles que querem viver como músicos?

Alex: Sim, definitivamente. Não importa quanto isso pode soar como um clichê, mas é realmente a melhor solução para todos: seguir sua intuição, descobrir todos seus potenciais e fazer o melhor deles. Eu não sei se todos serão capazes de viver como músicos, especialmente se eles escolherem esse gênero de música industrial, no qual só os mais talentosos dos artistas podem manter uma vida decente. Mas ainda penso que o esforço vale a pena.

Como é ser um artista na Sérvia? O governo tem algum tipo de benefício à arte? Ou pelo contrário, vocês têm algum tipo de censura?

Alex: Ser um artista dessa cena musical underground é horrível (risos). Há apenas um pequeno número de pessoas que é familiar com esse gênero. Com meu projeto, estou mais orientado para os públicos da Alemanha, Polônia, Rússia, Inglaterra, Suécia, etc. Quanto à censura, não é diferente do que em qualquer país europeu, o mesmo para os benefícios à arte.

Mesmo dizendo que a Kriegshund não é política, você deve ter algum ponto de vista político como um cidadão sérvio.

Alex: Eu sou anti-nacionalista, sempre fui e sempre serei. Infelizmente, o nacionalismo ainda está muito vivo. Muitas pessoas não parecem se livrar desse estímulo primitivo em ser parte de um rebanho. É triste, mas é verdade. Mesmo hoje você pode ouvir muitas pessoas dizendo: "Sou orgulhoso de ser sérvio" ou "Sou orgulhoso de ser croata, italiano, alemão, russo" ou qualquer outro. George Carlin, um homem que eu respeito muito, disse uma vez: "Orgulho deveria ser reservado a algo que você conquista ou obtém por si mesmo, não algo que acontece por acidente, no nascimento. Ser membro de uma nação não é uma destreza... é um maldito acidente genético". É minha citação preferida dele. Infelizmente, este é um fato que muitas pessoas simplesmente não conseguem entender.

Você serviu ao exército Sérvio quando você fez 18 anos? Prestou algum tipo de serviço militar?

Alex: Depois de terminar o colegial, eu comecei a estudar Direito e, por causa disso, o serviço militar foi deferido. Mais tarde, o exército se tornou completamente profissional e não havia mais nenhuma necessidade de prestar serviço.

Sobre seu trabalho. Que tipo de amostra você usa nas suas músicas? Por exemplo, na WW2, estas são citações de Hitler?

Alex: Sim, em WW2, eu usei amostras de Hitler, também de Stalin. Na música Yugoslavia, usei amostras do líder iugoslavo Tito. Então você pode perceber que uso todos os tipos de amostras, tudo que me chama a atenção.

Você considera a Kriegshund parecida com as bandas Feindflug ou Funker Vogt?

Alex: Ambas as bandas têm uma certa influência em meu trabalho. Porém, eu ouço Funker Vogt há mais tempo, acho que por mais de uma década, desde que eu ouvi a música Tragic Hero.

Como a guerra da Iugoslávia influencia seu trabalho?

Alex: De várias formas. É difícil explicar, mas tentarei dar uma ideia disso. Por exemplo, durante a guerra, eu tinha 10 anos e a maioria das crianças pelo mundo, que eram da mesma geração que eu, liam quadrinhos, brincavam com bolinha de gude. Naquela idade, eu já era interessado em coisas sérias, como ler histórias de vida e histórias sobre a Segunda Guerra Mundial. Eu as descobri em um folhetim que era publicado uma vez por semana e esses artigos logo me chamaram a atenção. Gostava muito de ler aquilo. Não acho que seria o caso se a guerra não tivesse acontecido. As sérias circunstâncias ao meu redor, naquela época, moldaram meus interesses de uma forma diferente. E acho que tudo aquilo me mudou muito. No colegial, eu já estava lendo Nietzsche. Sem a guerra, acho que eu seria uma pessoa completamente diferente hoje. Então, esse meu projeto é apenas mais uma fase da minha vida, mais um dos vários estágios que foram desencadeados pela guerra. E no começo desse processo que me levou a ser a pessoa que sou hoje, havia a Krieg (guerra).

Você já enfrentou algum tipo de preconceito contra sua estética militar? Algum tipo de interpretação ligando a Kriegshund com o fascismo, com a direita ou o Nazismo?

Alex: Não. Mesmo eu tendo minhas opiniões políticas, com esse projeto eu nunca glorifiquei nenhuma ideia em particular, de direita ou de esquerda. E acho que as pessoas entenderam isso. A Kriegshund é uma retrospectiva musical da sociedade humana em geral e eu deixo isso claro em todos os sites do meu projeto. Nas minhas músicas, as pessoas podem achar todos os tipos de motivos, porque fascismo ou comunismo não são tabus para mim. Eles são parte da nossa história e fugir deles é fugir de nós mesmos. Enfrentar o passado é muito mais inteligente e saudável do que negá-lo.

Qual é sua principal influência para a música e para a estética?

Alex: A autodestruição da humanidade. Nós somos a única de todas as espécies nesse planeta que está sendo exterminada por si mesma, numa larga escala. Não apenas ao nos matarmos, mas por poluirmos nosso ambiente também. Os nativos americanos costumavam dizer, há muito tempo: o que você faz para a natureza, você faz para si mesmo.

O que você quer comunicar com sua música?

Alex: Quero que as pessoas tenham noção de nossa constante autodestruição, porque essa nossa civilização não tem futuro se as coisas continuarem do jeito que estão.

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