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16/09/2011 - 10h53 - Atualizado em 23/05/2012 - 17h56

De marginalizada à tema de discussão: a escalada da subcultura dos Cosplayers

Por Camila Gil e Heloisa Guedes, alunas do 1º ano de Jornalismo

Mídia, fãs e cosplayers conquistam espaço no meio acadêmico e são o assunto do Café Filosófico do mês de setembro

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Julio Maia
Os palestrantes Luis Mauro Sá Martino e Mônica
Rebecca Ferrari Nunes

No último dia 14 de setembro, ocorreu mais uma edição do Café Filosófico, que desta vez foi realizado no Parque Trianon, em meio a um frio intenso e ventania, o que não assustou ao público que compareceu ao evento.

O tema debatido foi “Mídia, Fãs e Cosplayers”, e estiveram presentes Mônica Rebecca Ferrari Nunes, Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professora da FAAP E UNIFAI e Luís Mauro Sá Martino, Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e professor da Faculdade Cásper Líbero.

Mônica iniciou a discussão dando destaque à conjuntura entretenimento, herói de massa, emoções e publicidade. Apesar de não se considerar uma especialista da cultura pop japonesa, a professora abordou o assunto a partir das pesquisas feitas em materiais como vídeos que retratam a realidade dos chamados eventos de Cosplay - uma abreviação de costume play, atitude que não se limita a apenas incorporar o vestuário de um personagem, como também ele em sua inteireza, como características físicas e morais.

Nesses eventos, como ela constatou, há apresentações livres dos cosplayers em que a visibilidade está em jogo - como também o preço das roupas - e é permitido que o fã desfrute da liberdade de encenar situações imaginárias envolvendo o personagem idolatrado, remontando seus trejeitos.

O que se vê que então é a construção de um herói e a sua relação com o fã, que juntos, segundo Mônica, estabelecem uma relação assimétrica - em que o fã conhece o ídolo intensamente, propondo um afeto incondicional e consumindo tudo a ele relacionado.

Quando direcionada aos personagens dos desenhos animados japoneses, baseados em mangás, animes ou até mesmo videogames, esse fã ganha o nome de otaku. Tal palavra, em sua origem japonesa dos anos 1980, referia-se ao estereótipo do jovem desajustado à sociedade e mergulhado em um isolamento profundo que o distanciava da cultura japonesa, como frisou Mônica.

Voltando-se então para a realidade atual, a professora citou a performática cantora Lady Gaga e o bruxo dos livros de J.K Rowling, Harry Potter. Para ela, os personagens ganham mais importância aos olhos do fã do que o próprio intérprete. Nasce assim um afeto tão grande que chega a influenciar o próprio ramo industrial. “Personagens como Sakura e Naruto, vindos de desenhos são transformados em celebridades pelo conhecimento e lucro que reúnem. O sabor que o mercado dá a esses personagens, o tornam ídolos”, afirmou também Mônica.

Entretanto, qual seria a intensidade desse vínculo entre fã e personagem? Mônica remete ao conceito de “comunidades estéticas”, do sociólogo Zygmunt Bauman, para explicar. Seus membros reuniam-se em torno da beleza de um ídolo, e estavam prontos para consumir e descartar. Nesse contexto pós-moderno de escolhas cambiantes, a idolatria poderia ser considerada como fugaz, não criando laços duradouros.

O segundo palestrante, o professor Luís Mauro, debateu sobre a incorporação desse discurso no mundo acadêmico atual, o que para ele, não haveria possibilidade alguma 25 anos atrás: “Os fãs seriam uma subcultura nerd isolada”, declara Luís.

Outro aspecto desenvolvido por ele foi o fato de que a atitude de fã estava relacionada à infância ou até mesmo, à adolescência e hoje essa delimitação preconceituosa está diminuindo, à medida que surgem cosplayers de todas as idades.

O professor discorreu também sobre a origem etimológica da palavra fã, que possivelmente teria como raiz a palavra fancy ou fanatic. Para ele, este conceito faz referência àquele indivíduo que, como indicou o estudioso de Mídias Comparadas, Henry Jenkins, se apropria do texto cultural e o reproduz em sua vida cotidiana de acordo com suas própria ideias.

“O que faz do fã um fã é o fato dele se incomodar com o produto e reformulá-lo”, nas palavras de Luís Mauro. Um bom exemplo são as inúmeras fanfics (ficção criada por fãs) encontradas na internet, apresentando detalhes minuciosos, que para muitos não apresenta relevância alguma, mas tornam possível a criação de uma versão própria de acordo com o interesse de cada fã.

Além disso, considerou-se a influência das mídias sociais na cultura do fã, que através delas “foi levada às últimas consequências”, tanto pelas recriações, quanto pelo intenso consumo de produtos relacionados a esse universo. Por esse motivo, seria mais interessante a indústria analisar as redes de fãs do que condená-las, dando lugar a um “comércio focal”.

Luís Mauro aponta que na Indústria Cultural, apesar da relação vertical entre aquele que produz e aquele que consome, há a relação horizontal que surge do modo como o fã apropria-se do que é fornecido. Esse tipo de reedição do que é consumido, é facilmente compartilhado por meio das mídias sociais, ao contrário da realidade do fã pertencente à era pré-internet.

Após as explanações dos palestrantes, foi resgatada a imagem das chamadas “macacas de auditório”, que em décadas passadas eram tidas como as fãs que seriam capazes de frequentar constantemente os programas deste estilo, levando a paixão pelos seus ídolos até as últimas consequências. Por último, lembrou-se daquele fã colecionador de informações das telenovelas, que atualmente adquiriram papel de consultores das emissoras de televisão.



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