As opiniões do casperiano sobre o exercício da profissão no passado, presente e futuro
O que é imprescindível para um jornalista? É só a leitura? Quais seriam os conselhos que você daria aos estudantes?
Eu acho que é muito complicado essa história de conselho porque eu vejo o jornalismo como uma atividade basicamente simples, que depende de quatro verbos: ver, ler, ouvir e contar. Todo ser humano, a não ser que seja completamente analfabeto, tem essas capacidades. Todo mundo conta as suas histórias, as suas experiências. É claro que pode não contá-las de uma maneira sistematizada, que é o caso exigido pelos jornais com seus manuais de redação e princípios editoriais, mas todo mundo sabe contar histórias. Por depender só desses quatro verbos, que são inerentes ao ser humano, o que você pode fazer depois é ir aperfeiçoando esses talentos naturais. Não tem como você ensinar. Não se ensina ninguém a ver, ouvir, ler e contar. Então, eu acho que é muito difícil dar conselhos, pois depende basicamente de trabalhar muito. Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Ler muito, ouvir muito. E isso é uma atividade muito mais de pré-disposição física do que exatamente de algo que você possa aprender na escola.
Você aprende na prática. É uma coisa que, hoje em dia, com os jornais laboratoriais, pode até aprender alguma coisa na faculdade, mas o essencial só se aprende fazendo. E isso vale para a maior parte, senão todas as profissões.
Então, a experiência que faz o jornalista?
Não só a experiência, mas a vocação natural. Tem gente que tem vocação para ser médico, engenheiro, por que não para ser jornalista?
E quando que você percebeu que o jornalismo seria a profissão que iria lhe acompanhar ao longo da vida?
Nunca parei para pensar nisso. (risos) Fui fazendo, foram aparecendo desafios, oportunidades, fui fazendo e gostando. O fato de você trabalhar em um período tão agitado, como a conspiração para o Golpe, dá uma sensação de participante da história viva, do presente, que joga adrenalina direto na veia. E aí você vai em frente. De certa maneira, foi assim depois, com todo o trabalho de cobertura do movimento pela redemocratização, pela anistia, etc. Depois, todas as confusões que se seguiram no restabelecimento da democracia, planos econômicos, impeachment de presidente, eleições diretas, volta das eleições, era uma baita farra em que o jornalista sempre se sente o mais cômodo do que em momentos de relativa tranqüilidade, calmaria. Jornalismo é o registro do anômalo, da rotina. Se a gente não tivesse que noticiar desastre de avião, apenas que todos os aviões partiram e pegaram no horário, as pessoas comprariam o timetable da TAM e da Gol, e não os jornais.
O jornalista então tem que “sujar o sapato” mesmo? Diante disso, qual é a sua opinião sobre a apuração feita hoje pela internet?
Eu acho que tem que fazer apuração na internet também, mas rigorosamente nada substitui, nem a televisão all news e os modernos meios tecnológicos, internet, blogs, Facebook e Twitter. Nada substitui a presença no local dos acontecimentos. Nada, nunca. Isso não quer dizer que o trabalho na redação, dos editores e redatores seja irrevelante e secundário. Eu gosto de fazer reportagem, tem gente que odeia sair à rua ou entrevistar pessoas ou por timidez ou pela personalidade de cada um. São, de todo modo, profissionais respeitáveis e de alta qualidade também. Aí é uma questão de gosto ou de maneira de ser, de personalidade, de vocação.
Em relação ao curso de jornalismo, o diploma caiu. Qual a sua opinião sobre isso? Na época que o senhor se formou, a profissão era reconhecida e havia direitos para o profissional de jornalismo?
Não me lembro, acho que não. Foi depois que me formei que começou a obrigatoriedade do diploma, até porque seria impraticável impor a obrigatoriedade de algo que só uma faculdade oferecia no Brasil ou, pelo menos, em São Paulo, que é o maior centro jornalístico e econômico do Brasil. Não havia essa obrigatoriedade e eu sempre fui contra, pois, se as condições básicas para o exercício da profissão são características como ver, ouvir, ler e contar, que estão acessíveis a todas as pessoas, não tem sentido limitar o campo de caça-talentos apenas nas faculdades de jornalismo.
Atualmente o seu trabalho na Folha de S.Paulo é como colunista e tem também o seu blog na internet. No momento da entrevista, está no ar um comentário sobre o jornalismo econômico e as previsões da crise. Você acha que as vezes há falha nessa editoria?
Há falhas básicas de pessoas que acreditam que a voz do mercado é a voz de Deus. Eu propus uma coluna há muito tempo atrás, quando estava saindo da crise de 2007, que o jornalismo econômico deveria adotar algumas regrinhas básicas. Por exemplo: pegar todas essas previsões sobre crescimento da economia, inflação, câmbio, etc, que as consultorias e os economistas fazem e conferir no final do ano. Verificar se acertaram ou erraram e eliminar, simplesmente deletar da agenda, aqueles economistas ou aquelas consultorias que errassem por uma margem x ou y, enfim, tolerável. Digamos que uma consultoria faça uma previsão de que o Brasil vai crescer 7% esse ano, mas o Brasil cresce 4%. Dessa forma, você risca essa consultoria porque não é séria e publica a perspectiva de um erro, de uma mentira. Você não tem o direito de enganar o leitor. Essa é uma das regras básicas.
A outra deveria ser avisar sempre, quando o sujeito prevê e diz que o câmbio deveria mudar, que o real deveria ser valorizado ou desvalorizado. É preciso saber se a instituição para a qual ele trabalha ou ele próprio não tem interesse na adoção dessa medida política. Esses tipos de sugestões nunca foram levadas em consideração, em lugar nenhum, nem mesmo na “Folha”. Então eu acho que a gente está errando muito nisso.
Aceitar tudo como se fosse a grande verdade, não é mesmo?
Exatamente. E lembrar de todos os pecados passados dos agentes de mercado.
Qual a sua opinião sobre o jornalismo produzido nos últimos anos de governo, principalmente no governo Lula? O que você acha sobre a suposta ameaça de censura à imprensa?
Para quem acompanhou desde a conspiração do golpe, o golpe e o restabelecimento da democracia, além do impeachment do Collor, que era uma anomalia, democrática, mas uma anomalia. O normal é que o presidente seja eleito, cumpra o seu mandato, se foi bem é reeleito ou elege quem ele indica como sucessor. Se foi mal ele é substituído, e o impeachment é uma anomalia institucional. Para quem acompanhou tudo isso, esses últimos 16 anos, 8 do FHC, 8 do Lula e da Dilma, que já está no oitavo mês, foram de uma normalidade espantosa. O que, do ponto de vista jornalístico, é ruim, porque o jornalismo vive da anomalia e a normalidade acaba sendo monótona.
Do ponto de vista do país, do ponto de vista institucional, foram sem dúvida os melhores anos e não acho até que existe imprensa brasileira. A Folha é diferente do Globo, que é diferente da Veja, que é diferente da TV Record, e por aí vai. Teria que examinar caso a caso e, evidentemente, eu nunca tive tempo ou condições de fazer um exame individualizado do comportamento de cada meio de comunicação. Mas acho que, no geral, foi tudo dentro da normalidade democrática nos meios de comunicação.
Muitas pessoas dizem que os escândalos políticos sempre aconteceram e que só agora estão sendo mostrados pela própria modificação da mídia. Qual é a sua opinião?
Que sempre aconteceram, devem sempre ter acontecido. E que agora se cobre melhor, inclusive porque estamos em um regime democrático e a circulação de informações é mais livre, sem dúvida esse tipo de coisa acontece. Mas não acho que houve exageros. Faz parte da normalidade do jogo e a imprensa existe para isso.
Essa normalidade só existe porque hoje não há os problemas que existiram no passado?
Sim. Hoje você tem um regime democrático consolidado, bem estabelecido, firme, sólido, com eleições regulares a cada quatro anos, ganha quem ganha, ninguém contesta e diz nada. Quanto à política econômica, eu não sei se é uma vantagem ou desvantagem, mas é basicamente a mesma. Há uma proximidade muito grande das ideias dos partidos em relação ao que fazer com a macroeconomia. Então você está vivendo um período, infelizmente, de normalidade. Se isso ajuda ou prejudica o jornalismo dá um tema para um belo seminário, mas não é o caso da gente ficar discutindo aqui.
O que é mais importante na apuração, na realização de uma reportagem jornalística. É o detalhe da informação ou a vivência?
Eu acho que á basicamente tentar. Eu não consigo escrever se não entendi a situação que eu estou descrevendo. Posso até não ter entendido, mas se eu achar que entendi, eu consigo escrever. Então eu preciso realmente recolher todas as peças do quebra-cabeça, montá-lo, olhá-lo e dizer: essa figura aqui é um monstro, ou é um anjo, ou é o demônio, ou é o sei lá o que e tal pra poder escrever. Eu acho que isso é fundamental. Pelo menos para mim, é uma necessidade quase que compulsiva de recolher todas as peças do quebra-cabeça e montá-la.
É possível conciliar a vida profissional com a pessoal?
Não é não. Evidentemente o meu trabalho implicou em um tremendo sacrifício para a minha mulher e os meus filhos. E isso eu noto agora que eu tenho uma netinha de dois anos. Eu dedico a ela muito mais tempo do que eu dediquei aos meus filhos porque eu trabalho menos agora, viajo menos. Evidentemente uma das duas coisas é sacrificada. É difícil você conseguir conciliar ambas perfeitamente. Alguém tem que se sacrificar e eu sou franco, honesto o suficiente para admitir que a minha mulher foi a sacrificada nesse percurso.
Acaba havendo esse sacrifício, não é mesmo?
Sem a menor dúvida. Não tem como, a rigor você está 24 horas por dia ligado nos assuntos que estão ocorrendo ou que você eventualmente vai cobrir amanhã ou depois. Pelo menos no meu caso é assim, pode ser que algumas pessoas consigam chegar, terminar o trabalho, voltar pra casa e consiga deixar tudo lá fora. Eu não consigo.
Quais foram as inspirações na vida que te motivaram?
Não, eu não tive. Leitura sim. Muitos autores me inspiraram por causa da necessidade compulsiva de ler, ler e ler. Mas eu não diria que teve um autor especificamente que motivasse mais ou menos. Gostei sempre de vários. E, no jornalismo, aprendi tanto com o mais foca dos focas como com os grandes mestres do jornalismo. De todos eu bebi um pouquinho para formar o meu capital profissional.
A rotina de um jornal diário é realmente estressante?
É exatamente isso. Você acaba de produzir um jornal e já está pensando no seguinte porque a história não para, os acontecimentos não param. Se, por um acaso, o Brasil vai dormir, o Japão já está acordando, e sabe-se lá o que vai acontecer. Sempre fica, pelo menos na minha cabeça, incompleta a apuração daquele dia, pois as histórias nunca são histórias que começam e terminam no mesmo dia, então é um processo contínuo. Eu acho que o estresse é inerente à profissão.
Qual a diferença entre o bom e o mau repórter no jornalismo impresso?
O mau repórter é o que se conforma com pouca coisa, o que não tem ambição de conseguir montar, recolher e montar todas as peças do quebra-cabeça. É raro e pretensioso você pressupor que consegue montar todas as peças do quebra-cabeça. Provavelmente, você não consegue nunca. O mau repórter é aquele que renuncia antecipadamente a possibilidade, a ambição, de recolher todas as peças do quebra cabeça e montá-lo para oferecer ao leitor.
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