A força do rádio resiste em plataformas digitais
“Em seus tempos de glória, foi ostentado, símbolo de status, distinção social, peça indispensável da mobília, em um canto estratégico da sala de estar, em torno da qual as famílias se reuniam. Agora, porém, despejado de seu altar e mergulhado no ostracismo...”
Marcelo Kischinevsky
Mesmo os compradores de rádio em potencial preferem os aparelhos mais modernos, menos volumosos e que, além de tudo, são mais baratos. O que antes era uma peça indispensável da mobília e se colocava em um canto estratégico na sala de estar para que toda família pudesse se reunir ao seu redor, hoje vem como adicional em aparelhos de som portáteis. Na maioria das vezes, o rádio vem agregado a celulares, mp3 players, sons de carro e, com isso, desaparece aquela aura que definia o momento de escutar a rádio e evidencia quanto à diferente natureza do consumo e ao tipo da mediação de seus programas.
Apesar da aparente erradicação e substituição do rádio pelas novas mídias digitais, elas têm se mostrado absolutamente complementares e foi justamente a possibilidade de um suporte digital que ajuda a reerguer o império do rádio. A união entre as duas plataformas permite ainda a segmentação de centenas de emissoras e a diversificação dos produtos oferecidos por elas. “Se por um lado cai a audiência de um programa, por outro você divide essa audiência de acordo com o tipo de programa. É meio cruel, mas você cria uma cumplicidade maior com o seu público. Os dois lados estão falando mais ou menos a mesma língua”, comenta Márcio Yonamine, radialista e Gerente de Mídias do Centro Cultural São Paulo .
Mesmo que a convergência das mídias sob a plataforma digital em união a formação de oligopólios globais nos campos da comunicação ameacem a preservação em longo prazo da diversidade cultural, é o rádio hoje que realiza a operação vital para a manutenção das próprias identidades na sociedade contemporânea. O usuário acaba assinando feeds e podcasts de assuntos muito específicos de seu interesse.
A internet trouxe a possibilidade de produzir rádio fora das grandes empresas radiofônicas e sem a necessidade de transmissão através de ondas cartesianas. Além disso, outra mudança que possibilitou uma reconfiguração completa de figura é a presença da internet em aparelhos móveis, permitindo que o conteúdo dos pequenos e médios produtores de rádio seja acompanhado durante o deslocamento de um ponto a outro da cidade.
A web-rádio é visual e acessível por tela. E, diferentemente dos aparelhos de rádio que contam apenas com o dial, os programas de web-rádio precisam de uma linguagem visual que converse com o conteúdo de áudio. É justamente por essa diferença que não precisa de break, uma vez que os comerciais estão nos banners.
O maior desafio da web-rádio atualmente é ainda não contar com uma quantidade considerável de programas ao vivo. Os programas on-demand são gravados previamente e o horário não é mais o convidativo das emissoras. O conteúdo do programa precisa se tornar tão interessante a ponto das pessoas o escutarem no tempo livre que tem.
Quando as rádios digitais tiverem uma estrutura de transmissão de programas ao vivo, talvez se aproximem mais de uma rádio de onda. Os programas ao vivo permitem maior interação do público com o emissor, além de o usuário não precisar se transportar para outra plataforma de comunicação para o momento de interação. Ela proverá das próprias redes sociais na internet. “A diferença é que eu estou com o teclado aqui e agora. A interatividade é muito maior”, afirma Heródoto Barbeiro, atual âncora da Record News.
Ainda assim, as pequenas emissoras precisam se preocupar para não perder o que tem de mais interessante: programas mais pessoais e íntimos. Muito diferente das grandes redes que, por atingirem um público muito heterogêneo precisam diluir o conteúdo apresentado, tornando-o fabril. Talvez o ponto chave seja voltar a investir em uma programação mais diversificada, em que a música não seja o conteúdo principal.
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