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09/09/2011 - 19h38 - Atualizado em 23/05/2012 - 13h57

Quando o poder é maior que a ética

Julia Bezerra, 1º ano de Jornalismo

Michael Mann desafia indústria tabagista em filme que denuncia escândalo

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Divulgação
Mesmo com uma importante informação de denúncia,
a entrevista passa por cortes antes de ser exibida na TV

Suspense psicológico, dramas de perseguição, denúncias do mundo corporativo e thrillers empolgantes já inundaram Hollywood de exemplares que geralmente fornecem bom entretenimento aos telespectadores. Poucos, porém, foram os que juntaram todos esses elementos e, com sucesso, agregaram densidade, qualidade cinematográfica, originalidade e capacidade de atração junto ao público. O Informante, um dos filmes que podem ser incluídos no grupo descrito, surpreende o espectador ao revelar-se não apenas um entre muitos sucessos eletrizantes de ação, mas uma mesa de discussão sobre as questões éticas mais complicadas de ser esclarecidas – as que envolvem a família, o trabalho e a opinião pública. 

Michael Mann é o diretor do filme, que, baseado em fatos reais, retrata a história de Jeffrey Wigand (Russell Crowe), empresário que acaba de ser demitido de um alto cargo de uma multinacional da indústria do tabaco. Por esse motivo, Wigand é procurado pelo jornalista Lowell Bergman (Al Pacino), produtor do programa de entrevistas 60 Minutes, da rede de televisão CBS. Com a desculpa de ser em razão de uma consultoria, o jornalista convence Wigand, perseguido pela empresa em que trabalhava e tendo assinado um termo de confidencialidade, a dar seu depoimento sobre abusos éticos cometidos pela corporação. O programa chega a ser filmado, mas as revelações feitas por Wigand são tão chocantes que a produção decide não transmiti-lo, receosa quanto às consequências jurídicas.

O ex-empresário, vencido por uma instintiva perturbação proveniente da quebra de princípios éticos básicos, aliado ao rancor de ter sido demitido de um emprego que garantia o sustento de sua família, decide abrir o jogo a Bergman. Tendo a integridade de sua família ameaçada caso houvesse o vazamento de informações sigilosas acerca do processo de fabricação dos cigarros da indústria, revela ao jornalista que a poderosa multinacional em que trabalhava adicionava aos cigarros produzidos, clandestinamente, uma substância potencializadora do efeito dependente da nicotina. Lowell Bergman, com o segredo nas mãos, adiciona mais um conflito à trama: a diferença entre o papel teórico da imprensa, de divulgar fatos de interesse público, e o que realmente é feito pelos grandes veículos de comunicação. O drama pessoal de Jeffrey Wigand se entrelaça ao conflito profissional do jornalista, revelando que, em ambos os casos, uma decisão tem o poder de roubar vidas e destruir carreiras.

A discussão promovida por Michael Mann, tendo como base o modo real de funcionamento da imprensa, faz com que o espectador permaneça preso ao filme durante suas quase três horas de duração. A atuação de Al Pacino, premiado com o Oscar de melhor ator por Perfume de Mulher (1992), contribui para dar emoção a seu personagem, que enfrenta uma das maiores decepções de sua vida ao saber que a entrevista que tanto custou a conseguir teria cortes na edição de todos os trechos que comprometessem a indústria do tabaco, provando a redenção dos influentes canais de comunicação às poderosas multinacionais.

A revelação é tão chocante para o personagem quanto para o espectador, que, ciente da veracidade dos fatos, transporta para a vida real a possibilidade de que a submissão da sociedade aos endinheirados seja mais frequente do que pareça.



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