As influências do atentado na série americana que tem com protagonista o agente Jack Bauer
Um agente federal implacável, que protege seu país e luta contra todos os inimigos para salvar seu povo. Pode parecer a descrição de um super-herói de alguma história em quadrinhos, mas trata-se de Jack Bauer, personagem principal da série de TV norte-americana 24 Horas, interpretado pelo ator Kiefer Sutherland. Jack não é apenas parte de uma série ficcional de ação, mas também o principal símbolo da cultura popular norte-americana nos anos pós-11 de setembro.
Com o aniversário de 10 anos dos atentados terroristas contra o World Trade Center e o Pentágono, inúmeras reportagens e análises promoveram um verdadeiro retorno no tempo, avaliando o impacto que o maior ataque terrorista sofrido pelos Estados Unidos provocou naquela nação e no mundo inteiro, em termos políticos, sociais e econômicos. Mas, no viés cultural, o 11 de setembro também teve diversos desdobramentos diretos e indiretos, dentre os quais podemos citar o filme Vôo United 93 e o longa-metragem vencedor do Oscar Guerra ao Terror. Mas o produto cultural que personificou o espírito norte-americano pós-11 de setembro da melhor forma foi a série 24 Horas.
Criada por Joel Surnow e Robert Cochran, 24 Horas começou a ser escrita e gravada em 2001, antes dos atentados. A sua estréia, programada para setembro daquele ano, chegou a ser adiada em 2 meses, devido ao temor de que a audiência rejeitasse a história. No entanto, a série virou uma verdadeira febre nos Estados Unidos, eternizando o protagonista, Jack Bauer, como um herói capaz de matar e torturar para conseguir acabar com ameaças terroristas. Um vingador que, através de uma obra de ficção, lavou a alma de uma nação surpreendida com um ataque terrorista que nenhum roteirista de Hollywood conseguiu prever nos filmes mais mirabolantes.
É interessante notar algumas curiosidades, como o fato de que, na primeira temporada da série, os vilões não eram terroristas árabes, e sim sérvios, e não planejavam atacar os Estados Unidos, mas sim o próprio Jack e o candidato à presidência do país, David Palmer (Dennis Haysbert), devido a motivações pessoais.
A primeira temporada da série foi um grande sucesso, e a partir da segunda, o foco narrativo mudou radicalmente. Os vilões passaram a ser, em sua maioria, terroristas árabes, e a ameaça a ser combatida, algo muito maior e ameaçador, como a explosão de uma bomba atômica em solo norte-americano. A fúria de Jack cresceu na mesma proporção. Em nome da segurança nacional, valia tudo: matar, torturar, ameaçar, mentir, forjar a própria morte... Na quarta temporada, por exemplo, ele chegou a eletrificar um suspeito com fios arrancados de um abajur.
Jack causou polêmica, assim como as ações dos Estados Unidos nos anos pós-11 de setembro. Suas torturas, justificadas com base na questão da segurança nacional, podem ser relacionadas à polêmica do tratamento dispensado aos detentos de Guantánamo (o “herói” também matou inocentes em alguns episódios); além disso, seu comportamento encontra paralelo na política anti-terror implementada pelo então presidente dos Estados Unidos George W. Bush: Jack não perdia tempo com procedimentos legais, se um indivíduo era considerado suspeito, já era o suficiente para interrogá-lo e torturá-lo em caso de resistência; e, como não poderia deixar de ser em toda saga de heróis patriotas, o agente federal teve sua vida pessoal solapada a cada temporada, enquanto lutava pelo seu país, um grande incentivo aos compatriotas que iam para s trincheiras do Iraque e do Afeganistão combater o inimigo.
As torturas, invasões e atitudes de Jack foram uma grande representação do espírito de tensão permanente que passou a assombrar os norte-americanos após o 11 de setembro. Além de terem jogado o mundo de cabeça no século XXI, os atentados contra os Estados Unidos anteciparam a tendência de diminuição da privacidade e aumento da exposição, voluntária ou involuntária, do ser humano. Jack surgiu e se transformou em herói no momento em que as máquinas de raio-x invadiram os aeroportos, em que qualquer par de sapatos virou um recipiente de bombas em potencial, em que Oriente e Ocidente colocaram uma fenda ainda maior entre eles; e o protagonista de 24 Horas passou a ser o MacGyver da pós-modernidade.
O personagem, adorado por boa parte dos telespectadores da série, gerou polêmica dentro e fora dos Estados Unidos. Entidades defensoras dos direitos humanos acusaram 24 Horas de fazer apologia à tortura; Jack Bauer virou tema de cursos de mestrado em universidades norte-americanas; e a mídia deu à série por ele estrelada a justa fama de ser um retrato do espírito do povo norte-americano no pós-11 de setembro.
Esta fama acabou ficando tão grande que se sobrepôs a outros acontecimentos ocorridos na série. Dentre eles, o fato de que, em todas as temporadas, por trás dos atos terroristas de vilões estrangeiros, havia sempre um magnata dos Estados Unidos. Sendo que, na quinta temporada, exibida na época do declínio do governo Bush, o grande vilão era o próprio presidente da nação; além disso, em algumas temporadas os vilões não eram árabes, mas sim mexicanos, russos ou chineses. Mas isso não foi suficiente para descolar a imagem da série e de seu protagonista do espírito que se seguiu ao 11 de setembro, de medo e sede de vingança contra os “inimigos externos”. Mas, assim como a guerra contra o terror, 24 Horas esfriou, e foi cancelada após a oitava temporada.
Dez anos após os ataques terroristas mais marcantes da história, a série ficou na memória coletiva, assim como a imagem das Torres Gêmeas desabando. Está guardada no imaginário da população norte-americana, pronta para invocar Jack Bauer novamente caso uma nova caçada a um novo Osama Bin Laden seja necessária.
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