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02/09/2011 - 18h56 - Atualizado em 23/05/2012 - 09h43

Modelos para a publicidade

Nathan Lopes, 4º ano de Jornalismo

Análise da influência que importantes quadros exerceram na propaganda

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Um quadro em que um casal da aristocracia é representado, tendo ao fundo uma propriedade rural de posse deles, serve para uma análise de John Berger no livro Modos de Ver. Para o autor, o objetivo da obra O Sr. e a Sra. Andrews, de Gainsborough, era retratar os “donos da terra” e o terreno do qual são proprietários. A pintura, então, seria exibida na residência em que vivem a fim de mostrar seus bens aos visitantes.

Ao longo de sua dissertação, Berger aponta que não era apenas a terra que seria exposta na parede, mas outros objetos e materiais de valor. No quadro Os embaixadores, de Holbein, ele faz um comentário sobre todos os bens representados na pintura, que a tomam quase por completo. “Cada centímetro quadrado da superfície desse quadro faz um apelo, como que recruta o sentido do tato. O olho movimenta-se do pelo à seda, ao metal, à madeira, ao veludo, ao mármore, ao papel, ao feltro”. O autor chega a dizer que os dois homens possuem “uma certa  presença, mas são as matérias, o estofo de que os homens se acham rodeados, que dominam a pintura”.

O desenho do artista continha a "capacidade de demonstrar o quanto era desejável o que o dinheiro poderia comprar”. “Mandar pintar uma coisa e colocá-la em uma moldura não é muito diferente de comprá-la e colocá-la em sua casa. Ao se comprar uma pintura, adquire-se também a aparência da coisa que ela representa”.

Apesar disso, Berger diz que “a pintura não consegue libertar-se de sua propensão original a proporcionar o tangível para seu proprietário”. Trata-se da imagem que seduz seu proprietário, como se verifica no quadro Nell Gwynne, de Lely, que retrata uma das amantes do rei Carlos II a pedido do próprio. Segundo o autor de Modos de Ver, a pintura “mostra a modelo olhando passivamente para o espectador, que a contempla nua”. “Este nu não representa, entretanto, a expressão dos sentimentos dela; ele é um sinal de sua submissão aos sentimentos e exigências do proprietário (tanto da mulher quanto da pintura)”, comenta Berger, quem aponta que o quadro, quando exibido pelo rei aos outros, demonstrava essa submissão, e seus convidados o invejavam.

John Berger fala que as pinturas representavam uma riqueza, a celebração da propriedade privada, mudando em alguns aspectos. O rei apresenta sua amante; já os embaixadores, seus bens materiais. Neste caso, a combinação dos dois homens com seus objetos não gerava inveja no público porque os retratados apresentam uma aparência sisuda. Para Berger, a dupla mostra “um olhar longínquo e cauteloso”. “Eles não esperam reciprocidade. Querem que a imagem de sua presença impressione outros com a vigilância e a distância que demonstram”. Agem assim, pois são burocratas, palavra que o autor considera sinônimo de “impessoal”, trazendo, implicitamente, o significado de “maior ilusão de que têm poder”. 

A despeito da fisionomia dos embaixadores, a exibição de objetos, como eles fizeram, é utilizada pela publicidade, a qual, para ser eficiente, não pode ter esse distanciamento e impessoalidade. Para gerar a inveja, portanto, ela chama a atenção do público através de felicidade, bem-estar e sedução. Dessa forma, a pessoa que vê a imagem com estas características desejará ter aquele objeto para sentir o mesmo que a da peça publicitária ou ter o que ela oferece. A diferença dessa representação para a dupla do quadro de Holbein é que a primeira possui glamour, “uma invenção moderna”, segundo Berger. “Ele não poderia existir se não fosse uma emoção comum e bastante disseminada”. O sujeito que vive no glamour estaria na contradição entre o que ele é e o que gostaria de ser. “É isso que torna possível entender por que a publicidade permanece acreditada. O abismo entre o que a publicidade realmente oferece e o futuro que promete”. Um exemplo seriam as propagandas de cerveja, que vêm acompanhadas de belas mulheres. A mensagem subentendida é a de “tendo a bebida, tem-se a mulher”.

Além disso, podemos encontrar nas pinturas de ostentação - de amantes e de bens materiais - uma semente do que, séculos mais tarde, seriam as revistas sobre celebridades e ricos. Elas são recheadas por fotos de pessoas em suas casas milionárias, festas da alta sociedade, viagens ao exterior. O cenário e o modelo dessas fotografias também geram a inveja no público. Ao ver a pessoa da foto feliz em um castelo, descansando, tomando champagne, em companhia de mulheres lindas e portando as melhores vestimentas, o leitor se enciumará da situação. Buscará na publicidade - geralmente nas páginas seguintes - uma forma de aproximar-se de quem está na fotografia. E isso se dá comprando os produtos anunciados. Depois, apenas desejará, nos dias vindouros, estar na mesma situação vista nas fotos.

É com o futuro que a publicidade trabalha, mas as pinturas, nas quais buscou inspiração para a inveja e a sedução, “foram, a princípio, feitas para evocar as aparências de algo ausente”. Ausente, mas que se possui, como as terras do Sr. e Sra. Andrews, a amante de Carlos II ou os objetos dos embaixadores. A imagem do quadro era a representação que servia à ostentação de posses. Hoje, ela continua assim para quem as têm. Mas, para os que não, representa o desejo de consumo a realizar.



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