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02/09/2011 - 16h44 - Atualizado em 22/05/2012 - 00h08

Contra as imagens burocráticas

Renata Barranco, 2º ano de Jornalismo, e Guilherme Saltini, 3º ano de Jornalismo

Leia entrevista com a professora Dulcília Buitoni, que acaba de lançar o livro "Fotografia e Jornalismo"

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Divulgação
O lançamento do livro reuniu amigos e alunos na
Livraria Saraiva do Shopping Pátio Higienópolis

Foi lançado na segunda-feira, 22 de agosto, o livro Fotografia e Jornalismo (Editora Saraiva), de Dulcília Buitoni, professora do Programa de Mestrado da Cásper Líbero. A obra, sexto volume da coleção Introdução ao Jornalismo, trata das maneiras de usar a fotografia no jornalismo de forma mais coerente e informativa. Além disso, oferece um panorama de conceitos recentes utilizados na área, como hiperimagem, imagem pós-fotográfica, imagens complexas e imagens semoventes.

Contando os mais de 20 anos de pesquisa sobre os diversos tipos de imagens – com início em sua Livre-Docência, em 1986 –, o livro, coordenado por Magaly Prado, também professora da Cásper, demorou cerca de um ano para ser produzido. Nesta entrevista, Dulcília fala dos estudos que a levaram a escrever Fotografia e Jornalismo.

Como foi o processo de seleção das imagens que compõem o livro?

O projeto do livro tinha como objeto de estudo imagens que não fossem meras ilustrações. O que pretendi fazer foi uma curadoria das fotos que entrariam para o livro, pois queria chamar a atenção não só para as imagens, mas também, para os autores. Uma decisão minha foi a de deixar as figuras em página inteira, ou seja, sangradas. O resultado foi um conjunto de diversas fotos importantes para a análise fotográfica, umas mais emblemáticas, outras mais conceituais. 

Cada vez mais, o campo da fotografia se faz presente no jornalismo. Como a senhora vê esse casamento? Há, nesse sentido, uma relação de dependência? 

O que vemos hoje são imagens muito padronizadas, de uso extremamente burocrático e pouco criativo. Há, graças aos inúmeros bancos de imagens, pouca relevância visual, pois estas fotos acabam apenas preenchendo um espaço em branco que poderia, também, trazer uma informação nova ou complementar o próprio texto. Se pensarmos em termos de fotorreportagem, como tínhamos nas revistas Realidade e O Cruzeiro, as imagens tinham uma informação visual com uma estética muito forte, algo que vemos pouco nos jornais e revistas atuais.

Em certa medida, então, as imagens ilustrativas podem corromper a essência informativa do jornalismo?

Podem, pois acabam se tornando quase um ícone, um elemento de referência estereotipado de um tema geral. A imagem, quando inserida dentro de uma diagramação, proporciona um respiro na página, mas, ao mesmo tempo, não cria dúvidas ou possíveis reflexões. São imagens descartáveis, que não chamam atenção, e que definem o conceito de cultura da imagem e da sociedade do espetáculo vigente. Hoje em dia, é difícil identificar o autor de cada foto, pois ele, na verdade, não faz mais tanta diferença. Parece que vemos o mesmo autor, quando, antes, sabíamos o estilo de cada um e sua linguagem pessoal. A tecnologia, de certa forma, não deixa espaço para a criatividade.

O jornalista está constantemente armado de suas palavras. O fotógrafo, da mesma forma, está armado das imagens que produz?

Hoje, presenciamos um modelo de imagens totalmente oportunistas. O que o fotógrafo busca é tirar uma foto que agrade ao seu público, perdendo, assim, uma variedade de possibilidades de criação. Atualmente, a foto determina um evento antes mesmo dele ter acontecido, e, dessa forma, o que observamos é uma redundância: os mesmos ângulos, as mesmas pessoas representadas. 

Segundo Roland Barthes, em A câmara clara, a foto é indiferente a qualquer escala e pode ser considerada um certificado de presença. A senhora concorda com a proposição do teórico ao afirmar que a fotografia, assim como o discurso jornalístico, promove um “efeito de real” e não o real em si? 

Sim, é possível caminhar nessa linha, mas essa sempre será a grande justificativa do jornalismo. Por mais que a gente saiba que as imagens são manipuladas, elas ainda possuem um caráter indicial muito forte. Podemos dizer que elas são um atestado de presença, pois os objetos retratados na cena estiveram diante da máquina em algum momento. 

As fotos, porém, não confirmam nada, pois a câmera não pode ser usada como prova judicial. Há, no entanto, uma característica ontológica da fotografia com o real, o índice, um rasto que nossos olhos não capturam, mas que fica registrado em um aparato, imortalizado. Vemos isso, principalmente, no livro O ato fotográfico, de Philippe Dubois. O problema do campo fotográfico com o jornalismo, na minha opinião, é que este usa o indicial como se fosse um espelho, uma cópia fiel de determinada cena. 

Temos que entender que há pontos de vistas diferentes, e que uma máquina não pode ditar o que é verdade ou não; como no filme Janela indiscreta, de Hitchcock, ou em Depois daquele beijo, de Antonioni. O fascínio que criamos em torno da imagem figurativa – que proporciona um conhecimento imediato, diferente do que ocorre com o verbal, que é fragmentado – vem desde o Mito da Caverna de Platão, que estabelece relação fundamental com o campo da comunicação.



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