Em entrevista, professor da Cásper comenta a produção de um livro sobre a obra do cartunista
Como é possível resumir a história de um cartunista, jornalista, ilustrador, pintor e empresário? Foi esse o desafio de Gilberto Maringoni, cartunista e professor da Faculdade Cásper Líbero, que analisou em seu doutorado a vida a e a obra de Angelo Agostini. Em entrevista exclusiva ao Site de Jornalismo, ele discorreu sobre o processo de elaboração da obra Angelo Agostini – A Imprensa Ilustrada da Corte à Capital Federal, lançada pela Devir Livraria em maio deste ano.
De onde surgiu a ideia de produzir esse livro?
Primeiramente, por causa da importância de Angelo Agostini para a imprensa brasileira. Ele foi um italiano que optou por vir ao Brasil e fazer a sua carreira artística, jornalística e empresarial no país. Ele tinha um talento múltiplo, era um excepcional cronista visual, um contador de histórias nato e tinha um desenho muito calcado no que é o academicismo do século XIX. Agostini fez com extrema maestria e agilidade o retrato do cotidiano do Rio de Janeiro nos anos finais do Império com crônica visual, cultural e política. Além disso, contribuiu com histórias em quadrinhos e caricaturas.
Outro fator importante é que eu sou fascinado há 30 anos por Angelo Agostini. Primeiro foi por causa das histórias em quadrinhos, que, nos anos 80, ninguém conhecia. Eu e um amigo fomos pesquisar na Biblioteca Nacional e encontramos aquela maravilha que são as narrativas seqüenciais dele. Mais tarde, nos anos 90, em um sebo em Curitiba encontrei por um preço muito barato a coleção quase completa da Revista Illustrada e Don Quixote, um material que tem cerca de 120, 130 anos. Tendo aquilo no colo e por já ter pensado em fazer uma pesquisa do tipo, decidi que aquele seria o meu doutorado.
Um terceiro ponto é que eu pensei que ia fazer o doutorado sobre um desenhista, um cartunista, e fui descobrir que ele é uma das figuras mais expressivas de um período riquíssimo pelo qual o Brasil estava passando. E não era só a transformação do Império, ou da escravidão para o trabalho negro, mas uma transformação na composição social do Brasil. Quando a escravidão acaba, a oligarquia cafeeira e a aristocracia rural começam a fazer parte de uma burguesia urbana. Há uma transformação no topo da pirâmide social e os empresários rurais se tornam empresários urbanos, com o objetivo de formar fábricas. As pessoas começam a ganhar salário, o que aumenta o mercado interno no país e faz com que a economia se desenvolvesse. Isso ocorreu nas duas últimas décadas do século XIX.
Além disso, a imprensa estava passando por uma revolução técnica na imprensa brasileira e deixava de ser uma empresa artesanal para se tornar industrial. Chega a máquina rotativa e o índice de alfabetização da população aumenta. Dentro desse mercado interno, com um maior número de pessoas tendo mais dinheiro, amplifica o poder de compra para o consumo de livros, revistas e jornais. E Agostini vivencia isso tudo, por isso ele é tão importante.
Quais foram os principais veículos pelos quais ele passou?
Ele participou de cerca de 12 órgãos de imprensa. E o engraçado é que ele começa participando em jornais de São Paulo nos quais ele ainda é assalariado. Agostini passa a fundar jornais e a ser empresário de si mesmo. Torna-se editor, escreve, desenha, contrata e passa a ser viver da atividade de imprensa e de algumas aulas de pintura. E, no final da vida, quando os jornais dele estavam na falência, quando o que estava imposto no mercado era o que estava em publicações como o Jornal do Brasil e O País. Nesse contexto, ele fecha os jornais que tinha e vai trabalhar como assalariado.
E como você analisa a ideologia de Angelo Agostini em relação à escravidão no Brasil?
Eu fui perceber isso vendo a sua obra e naqueles que viviam em torno dele, como os abolicionistas Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e Sílvio Romero. E, por isso, foi muito importante investigar a vida inteira do Agostini, até mesmo depois da abolição. Muitos estudos que existem, e são muito bons, não falam sobre o período posterior à abolição. Quando fui estudar a parte final da vida dele, percebi que ali estava o maná de sua produção. É o momento que explica a transformação dele e uma mentalidade da elite branca abolicionista.
Mas o que define o posicionamento que ele tinha?
Quando analisei alguns trabalhos dele antes de abolição pude perceber uma denúncia da brutalidade da tortura que os escravos sofriam. Ele fazia ilustrações que mostravam o suicídio e a morte de adolescentes escravos. Além disso, ele falou bastante sobre a situação dos negros nas ruas, mas com uma visão de que eles eram sujos. Há uma declaração muito reveladora feita em uma ilustração de 1884: “Somos muito abolicionistas, mas não nos extasiamos diante das belezas da raça africana, cuja plástica deixa muito a desejar”. Além disso, ele falou sobre como a cidade estava “emporcalhada” por causa de negros descalços na rua.
E a realidade do Rio de Janeiro era de uma cidade infecta. Em 1904, o prefeito da então capital, Pereira Passos, atendeu aos reclames da Imprensa e de grande parte dessa aristocracia que tinha se mudado das fazendas para a cidade e começou implantar uma nova arquitetura na cidade. Várias casas e cortiços foram rasgados para construir uma avenida parisiense. O objetivo era limpar a cidade e tirar os pobres do campo de visão. Isso vinha desde o tempo da abolição, da cidade considerada imunda por estar cheia de pobres e negros. E Angelo Agostini é uma expressão do que essa elite brasileira pensava.
Ele foi extremamente democrata, combativo e denunciava a arbitrariedade junto aos escravos, mas, ao mesmo tempo, queria os escravos livres e longe dele. Essa contradição a gente pode ver na vida e na expressão pública dele que se faz através da imprensa. Agostini foi uma pessoa que queria a justiça, mas na questão do negro era conservadora.
Por que Angelo Agostini é mais lembrado pelo seu trabalho como cartunista?
Ele foi cartunista, mas, além disso, um intelectual de seu tempo. E nunca ninguém investigou muito bem a vida dele porque ele não deixou um diário, talvez por gastar a maior parte de seu tempo desenhando e escrevendo para os jornais. Além disso, os seus contemporâneos pouco se referem a ele e, quando se referem, é de uma maneira laudatória, sendo relacionado a um herói. Não sei se é porque o jornalismo era visto como uma atividade menor, mas o Agostini nunca foi outra coisa a não ser jornalista, ainda que tenha sido pintor. Até 1888, ele era um italiano e depois se naturalizou brasileiro, mas não se interessou em fazer uma carreira política. Não era um sujeito com diploma. Ele vivia junto com a elite, mas não era um grande proprietário de terra ou um alto funcionário da Corte. Ele foi um dos primeiros homens que vivia da imprensa.
E como foi que ele adquiriu todas essas habilidades?
A vida dele é muito obscura. Ele nasceu no norte da Itália em 1843, sua mãe era uma cantora lírica que se apresentava em Milão e não se sabe muito bem sobre o pai dele. O fato é que no começo da adolescência ele vai com a avó e a mãe para Paris. Lá, estuda desenho e pintura, no período dos 10 aos 16 anos. Após a mãe dele ter casado com um português, ele vem para São Paulo, onde começa a carreira na imprensa. Há, inclusive, notícias de que ele foi fotógrafo. De qualquer forma, os trabalhos dele em São Paulo tinham um ponto de vista áspero e combativo, mas ainda não se destacava pela originalidade. A carreira dele vai amadurecer mesmo no Rio de Janeiro, em 1879, aos 26 anos de idade, quando ele vai trabalhar em jornais pequenos ilustrados. Como não há muitas informações, tive que fazer uma biografia analítica, a partir da vida pública dele nos jornais.
Ele foi o pioneiro na utilização de recursos gráficos no Brasil?
Não, os recursos que Agostini usava já existiam, mas ele é quem fazia melhor. Havia outros desenhistas, mas nenhum que fizesse sombra ao trabalho dele.
Como foi idealizado o livro?
O livro tem uma cronologia linear: cobre a vida do Agostini em São Paulo; quando ele vai para o Rio de Janeiro; o momento da campanha abolicionista; quando funda seus jornais; naturaliza-se brasileiro; em 1888, vai para Paris e vive sete anos; volta em 1895 e funda outro jornal que dura até 1903; quebra e vai trabalhar como assalariado; no fim, a sua morte aos 67 anos, em 1910.
E como foi possível obter as raras imagens que estão presentes no livro?
A maior parte das imagens eu tenho, pois comprei as coleções dos jornais. Outras imagens eu peguei na Biblioteca Nacional, no Instituto de Estudos Brasileiros da USP e em vários acervos, inclusive de amigos. Isso para mim foi de grande valia, pois pude examinar as imagens e passar muito tempo vendo como ele desenhou.
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