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29/08/2011 - 18h38 - Atualizado em 23/05/2012 - 23h52

A caricatura como crônica visual

Vanessa Magdaleno Vieira, 1º ano de Jornalismo

Gilberto Maringoni publica livro sobre Angelo Agostini, uma das mais importantes figuras de nossa imprensa do século XIX

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Divulgação

“Falar a verdade, sempre a verdade, ainda que por isso que me caia algum dente” – lema de notável publicação do personagem que Gilberto Maringoni possui como foco de seu livro, Angelo Agostini – A Imprensa Ilustrada da Corte à Capital Federal, 1864-1910, lançado no dia 27 de maio deste ano na livraria Martins Fontes. O mais importante artista gráfico da imprensa brasileira do século XIX teve uma carreira que se estendeu por mais de 40 anos, rendendo muito assunto para a tese de pós-graduação publicada pelo professor do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

Em redação clara, a história de Angelo Agostini é exposta com bastante transparência. O caricaturista nasceu no dia 8 de abril de 1843 em Vercelli, no Piemonte – norte da Itália. Educou-se em Paris e veio ao Brasil com 17 anos. Participou de diversos veículos como: Diabo Coxo (1864) e O Cabrião (1866) em São Paulo; O Arlequim (1867), Vida Fluminense (1868), O Mosquito (1872), O Malho (1904) e Tico-tico (1905) no Rio de Janeiro; além de duas revistas criadas pelo próprio artista: Revista Illustrada, que passou 12 anos sob a direção de Agostini e é sua publicação mais famosa (1876-1888, período da direção do italiano), e Don Quixote (1894-1903), publicada já no início da decadência do estilo do piemontês – ambas na capital carioca. 

Este seria um resumo extremamente sucinto de uma história pontuada de intrigas, censuras – presentes na fase paulista de Agostini – e troca de farpas, mas que também compreende a defesa de uma grande causa: o Abolicionismo. Todavia, o trabalho que Maringoni executou nesta obra vai muito além de datas e compreende toda uma contextualização da época anterior e contemporânea da atuação deste repórter do lápis. Inclusive, é possível contar com breves menções a outros importantes personagens da imprensa da época, como Rafael Bordalo Pinheiro e Henrique Fleiuss. 

O final do Segundo Império é a fase mais marcante de toda uma vida voltada para o esfuminho e a pedra litográfica – meio usado para a impressão de ilustrações. Agostini, que já havia criticado a Guerra do Paraguai (1864-1870), volta-se totalmente para a defesa do abolicionismo. É na Revista Illustrada que o artista fará desenhos com detalhamento ímpar da crueldade dos castigos que escravos sofriam constantemente. Negros que eram jogados em fornalhas infernais e grávidas pisoteadas – o italiano muito se esforçou para mostrar a barbaridade que esses acontecimentos representavam. E, no dia 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi promulgada.

Apesar de toda essa desenvoltura em prol de tal nobre causa, Maringoni não teme mostrar todos os lados deste caricaturista. Agostini era um profissional voltado para um público escasso e que representava a elite da época. Uma confirmação dessa realidade é o Censo de 1872, que contabilizou em mais de 80% da população a taxa de analfabetismo. Em Don Quixote, sua última publicação própria, o artista deixa transparecer todo um preconceito contra os negros e a população pobre da Capital, além de manifestar um forte sentimento elitista. Essa dualidade poderia ser pensada como uma grande contradição, mas Maringoni explica que esta se trata de um “comportamento de uma vertente muito importante do movimento abolicionista, que tinha a emancipação dos negros como parte central de um projeto de desenvolvimento do capitalismo brasileiro” – ou seja, a criação de um mercado interno maior.

Angelo Agostini, que chegou a um nível de academicismo altíssimo em seus desenhos e desenvolveu a primeira história em quadrinhos brasileira, termina sua produtiva trajetória sendo criticado como um artista dotado de um estilo ultrapassado. Morre em 23 de janeiro de 1910, em companhia da família e reclamando por não lhe deixarem segurar sua neta – após isto, um infarto o acometeu. Foi homenageado por veículos como o Jornal do Commercio e por personalidades como a de José do Patrocínio. 

Esta é a história contada pelo professor Gilberto Maringoni, também dotado de vasto currículo dentro do jornalismo. Àqueles que não leram, resta conhecer a sua obra e deixar que esta mostre a importância política, moral e social própria da caricatura e da imprensa. Certamente haverá encantamento e crítica sobre este personagem tão complexo que foi Angelo Agostini, o maior cronista visual que a imprensa ilustrada do século XIX pode desfrutar na cidade do Rio de Janeiro.



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