Obras exibidas no terceiro dia do Ciclo de Cinema geram debate em torno da questão da identidade negra e a produção literária da protagonista do curta-metragem “Carolina”
Dois documentários foram exibidos no terceiro dia do 9º Ciclo de Cinema de Cultura Geral: o primeiro - Preto contra Branco (2004), de Wagner Morales - tem como tema um jogo de futebol que acontece anualmente entre moradores negros e brancos da favela de Heliópolis e do bairro de São João Clímaco, em São Paulo. Já o segundo, dirigido por Jeferson De, chama-se Carolina (2003) e foi baseado no livro O quarto de despejo, da escritora que dá nome ao filme, Carolina Maria de Jesus, em 1958.
A mesa de debates teve como mediador o professor José Augusto Dias Jr., enquanto os debatedores foram a aluna do 4º ano de Jornalismo, Fernanda Pestana, e os docentes da Faculdade Marco Vale e Sonia Castino.
Preto contra Branco
Preto contra Branco mostra que, por trás de um jogo da várzea de aparência amistosa e cuja tradição permanece ao longo de 31 anos, há questões muito mais complexas e historicamente mal resolvidas, como a aceitação da identidade racial.
Essa foi a pergunta levantada por Fernanda, que iniciou o debate lembrando que sempre se discute a negritude esquecendo como o próprio branco assume a sua raça. Outro ponto ressaltado pela estudante foi o das piadas racistas feitas pelos, mesmo que de maneira implícita, como observou a estudante de Jornalismo. Temáticas como essas foram abordadas nesse documentário, visto por Marco Vale como um bom longa-metragem, mas insistente em reforçar ao espectador que aquela situação documentada é real. .
Carolina
Com seus 15 minutos de duração, Carolina foi longamente discutido pelos debatedores e se sobressaiu diante dos 55 minutos de Preto contra Branco.
“Quando estou na favela sinto-me um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejos”. Essa frase sintetiza a idéia principal do filme, sobre uma catadora de lixo e moradora da favela do Canindé que tinha consciência do poder da palavra e da possibilidade da escrita poder tirá-la da miséria.
Carolina é interpretada pela atriz Zezé Motta, que imprimiu à personagem dramaticidade mesclada com fatos da protagonista real. Esta, segundo Sonia, “Queria que os outros a lessem. Embora desse voz à favela, sabia que a sua escrita a tiraria daquele lugar”. Seu diário, posteriormente transformado em Quarto de Despejo, deu início a esse projeto, apesar de no final de sua vida ter regressado à condição de pobreza.
Do livro editado nos anos 1960 pelo jornalista Audálio Dantas, trechos com linguagem mais erudita teriam sido retirados e modificados em termos populares, como seria a suposta linguagem de um morador da periferia. Isso deu abertura à discussão de um outro assunto: a edição de textos. Enquanto no jornalismo tal processo seria essencial, na literatura apareceria como que atenuador da essência da escritura. Sobre esse tema, Marco Vale lançou outro questionamento: “A obra é feita para si mesmo ou para o outro?”.
Modificada ou não para a recepção do público, o livro de Carolina, ao final do debate, passou a ser visto como possível opção para os próximos vestibulares da Faculdade Cásper Líbero. “O documentário, que combina estilização com uma personagem real, planta a semente de querer conhecer mais a respeito dessa mulher”, afirmou Marcos Vale.
A mulher negra também será tema do penúltimo filme do Ciclo, Xica da Silva (1976), de Carlos Diegues. A sessão começa às 12h30 desta quinta-feira (25) e, logo em seguida, a obra será discutida pela aluna do 4º ano de Jornalismo, Maitê Freitas, e pelos professores Genilda Santos e Sabina Anzuategui.
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