Estreia em São Paulo “As Bruxas de Eastwick”, mais um musical da consagrada dupla Möeller e Botelho
Era uma vez, na cidadezinha ficcional de Eastwick, três bruxas absolutamente ignorantes de seus poderes. Elas invocam sem querer, numa noite de bebedeira, o que consideram ser o homem ideal. Assim, Darryl van Horne chega à cidade e seduz as três, escandalizando a cidadezinha. Por um tempo, as bruxas estão felizes em dividi-lo - até que as coisas vão ficando estranhas e perigosas demais.
Esse é o enredo de As Bruxas de Eastwick, romance de John Updike que, posteriormente, inspirou diversas obras. Dentre elas um filme homônimo com Jack Nicholson, três seriados de TV e uma peça musical. Este último estreou em sua versão brasileira em 13 de agosto, no Teatro Bradesco, sob a direção da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho.
Numa época em que o politicamente correto chega a beirar o fascismo, um musical em que três bruxas invocam um demônio carismático, misterioso e sexy chega como uma lufada de ar fresco. A história é uma espécie de beira de abismo, a um passo do vulgar - mas hilária e deliciosa, se bem feita. A narrativa mesmo diz: é como dançar com um demônio.
Daryl van Horne não liberta apenas a libido destas três mulheres: ele também as liberta de si mesmas. A gaga Sukie Rougemont de repente consegue falar. A fria e blasé Jennifer Smart toca um dueto de violoncelo com paixão arrebatadora. Alexandra Spofford, adepta do eterno sexo sem compromisso, se entrega de corpo e alma pela primeira vez. Sim, o demônio é perigoso se você for longe demais, mas, em alguns aspectos, ele salva as personagens da vida reprimida e regrada que levavam na cidadezinha.
Um dos grandes diferenciais desta montagem está em trazer ao palco não cantores que também conseguem atuar - e, sim, atores que também conseguem cantar. Maria Clara Gueiros (Alexandra), apesar da interpretação repetida, é uma das atrizes cômicas mais engraçadas de sua geração. Renata Ricci (Sukie) equilibra com destreza a mais ingênua das três bruxas. Só Sabrina Korgut (Jennifer) às vezes parece exagerada em seus gestos, apesar de ter a melhor voz.
Já Darryl van Horne, o demônio sedutor (e mais perigoso do que aparenta), é interpretado por Eduardo Galvão. Ele protagoniza um dos melhores números do espetáculo: o megalomaníaco Dançar com Demônio, que conta com quase 20 atores em cena.
Além de seus atores, a peça também depende pesadamente de efeitos especiais. Há fogo, desabamentos, “teletransportes” e um instrumento que toca sozinho. Porém, o que mais se destaca é o voo que encerra o primeiro ato, um truque bem ensaiado que arranca aplausos em cena aberta.
Não há sexo nem violência explícita, mas ainda assim é sugestivo o suficiente para funcionar como colesterol para a mente. Não faz bem à saúde - mas é a melhor parte do prato.
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