Em seu livro Hiroshima, John Hersey, descreve a história dos sobreviventes da bomba nuclear, dando origem a uma obra prima de "new jornalism"
“Em outubro de 1952, a Grã Bretanha efetuou seu primeiro teste com uma bomba atômica e os EUA explodiram sua primeira bomba de hidrogênio. Em agosto de 1953, a URSS também testou uma bomba de hidrogênio. Em fevereiro de 1960, a França testou uma arma nuclear no Saara. Em outubro de 1964, a China realizou seu primeiro teste nuclear. Em junho de 1967, explodiu uma bomba de hidrogênio”
Trecho do livro "Hiroshima" (John Hersey)
Esses e outros acontecimentos posteriores desencadearam no mundo o medo da tecnologia atômica. Entretanto, nenhum dos relatados acima casou tanto desastre quanto o inesperado ataque a Hiroshima. É do conhecimento de todos o que aconteceu com mais de 100 mil pessoas: a morte. Mas não é esse o enfoque do livro de John Hersey. Ao invés de discorrer sobre a dimensão da catástrofe ou sobre dados técnicos da bomba atômica, acompanha seis pessoas sob uma nova perspectiva: como o ocorrido na manhã de 1945 afetou posteriormente a vida dos que o presenciaram e viveram para contar.
Eram oito horas da manhã quando os cidadãos de Hiroshima, preparados para mais um dia rotineiro de trabalho, foram surpreendidos por um clarão silencioso. Em poucos instantes, a cidade virou uma selva de mortos e feridos. Sem uma explicação exata para o acontecimento, mas, ao mesmo tempo, sem condições físicas suficientes para investigar o assunto, os sobreviventes passaram a vagar a região, em busca de hospitais que pudessem oferecer ajuda. A procura se tornou decepcionante: os centros de atendimento médico estavam carbonizados.
Era nesse ambiente que Nakamura, padre Kleinsorge, Toshiko Sasaki, dr. Fuji, dr. Sasaki e reverendo Tanimoto viveram seu dia 6 de agosto de 1945. Hersey descreve o que esses sobreviventes faziam no momento da explosão, o que sentiram, pensaram durante a luta pela vida.
Mas apenas ter força de vontade não era o suficiente para escapar da tragédia. Os “hibakushas” também foram acompanhados de muita sorte - como o médico Sasaki, que acordara mais cedo do que de costume para pegar o bonde, escapando, assim, da destruição matinal.
Um ano após a bomba, enquanto os habitantes de Hisoshima recuperavam os restos de suas casas para construir novas moradias, a revista The New Yorker de 30 de agosto era inteira ocupada pela reportagem de John Hersey, que, pela coleta de depoimentos dos “hibakushas”, dava rosto a bomba atômica.
A versão em livro foi lançada em 2002, agregando, além do conteúdo da reportagem original, um capítulo adicional relatando como estava a vida dos sobreviventes quarenta anos após a tragédia – nada muito animador. Mesmo sem terem sido gravemente feridos no momento da catástrofe, apresentaram diversas doenças ao longo dos anos, debilitando sua capacidade de trabalho e, consequentemente, diminuindo a renda mensal. Para piorar a situação, o auxílio médico público foi recusado por muito tempo, conquistado apenas em 1957, pela aprovação da Lei de Assistência às Vítimas da Bomba A.
Com poucos adjetivos, Hersey faz uma reportagem direta, mas aprofundada, que deixa na memória mundial não apenas a destruição que uma bomba dessa natureza pode causar. Muito mais do que isso, retrata os preconceitos e as dificuldades físicas, financeiras e psicológicas pelas quais as vítimas passaram. Levando em consideração a dimensão da tragédia, a narrativa é bem seca – não é um livro de se fazer chorar –, mas cumpre bem um nobre intuito: o de erguer uma muralha contra as atrocidades que envolvem uma guerra.
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