Editora da Ilustrada comenta a produção de reportagens para o caderno no evento “90 em Folha”
Em tempos que qualquer um pode escrever uma resenha de um livro, baixar filmes e discos antes dos seus lançamentos, saber da estreia de uma peça via e-mail, qual pode ser a relevância de um caderno cultural? Foi o que Fernanda Mena, editora da Ilustrada há três meses, tentou responder nesta quarta-feira no MIS (Museu da Imagem e do Som), no evento 90 em Folha, em comemoração ao aniversário do jornal.
Fernanda iniciou a palestra contando a história do caderno, criado em 1958. No início, as poucas críticas que trazia eram traduções das publicações americanas e, por isso, a Ilustrada deixou de cobrir um momento importante da produção cultural brasileira. Foi só com as mudanças introduzidas por Cláudio Abramo que os Festivais da Canção e filmes como Terra em Transe, de Glauber Rocha, tiveram destaque. Já nos anos 1980, a Ilustrada tinha um papel análogo ao da internet hoje, como disse o diretor Gerald Thomas certa vez. O jornal se beneficiava com furos, fatos inéditos e críticas ácidas que eram aguardadas ansiosamente pelos artistas e fãs leitores.
Hoje, é raro contar com o ineditismo. A crítica de discos, por exemplo, é feita com meses de atraso em relação ao “vazamento” do cd na internet. Além disso, Fernanda também apontou o assédio intenso das assessorias de imprensa e consequente excesso de pautas, que tornam o trabalho de edição bastante difícil e o dos repórteres bastante cômodo. A provocação é a de que eles se disponham a ir além dessas informações que batem em suas portas e busquem novidades.
Outro desafio, explicou a jornalista, é o de abordar assuntos que normalmente a Ilustrada não trataria, para abarcar a “nova classe C”. No dia 10 de agosto, por exemplo, Marcus Preto e Carlos Messias, repórteres de música do jornal, fizeram a matéria “Novos sertanejos viram trilha sonora de pegação em baladas A e B”. Críticos de teatro também estão adicionando às suas pautas a cobertura de stand-ups e comédias, tornando a agenda do caderno mais diversificada e, por outro lado, mais voltada para o mainstream.
A linguagem, em todas as matérias da Ilustrada, é trabalhada de modo a não parecer cult demais nem totalmente leiga, conta a editora. Isso porque os leitores do caderno podem variar entre diversas idades, classes sociais e interesses. Assim, uma reportagem sobre a arte urbana, por exemplo, deve explicar do que se trata esse movimento e ao mesmo tempo trazer novos elementos para que os que já conhecem o assunto também se interessem pela matéria.
Para a crítica, o que a torna acessível e interessante para quem já é familiarizado ou não com a obra, curiosamente, pode ser igual: o contexto no qual a obra foi produzida e as relações que ela tem com outros elementos culturais são pontos que devem sempre ser tratados.
Antes de se tornar editora da Ilustrada, Fernanda trabalhou na Piauí, foi repórter especial do caderno e trabalhou como repórter e editora na Folhateen. Ela lembrou que, em 2000, quando raramente a Ilustrada noticiava a música indie, quem cobria shows de bandas como Yo La Tengo e Belle and Sebastian era a Folhateen. Portanto, sua chegada à Ilustrada pode ser vista como o estabelecimento definitivo desta geração no comando dos principais cadernos de cultura do país.
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