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05/08/2011 - 19h13 - Atualizado em 23/05/2012 - 10h57

O público tem pressa

Deborah Rezaghi, 1º ano de Jornalismo

Após exatos 30 anos de lançamento, o filme de Sydney Pollack continua atual

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Reprodução
A atriz Sally Field foi indicada ao Globo de Ouro
por sua interpretação em Ausência de Malícia

Apuração, objetividade, fato, versão, realidade e ética. Esses termos permeiam o universo do jornalismo. Nas escolas de comunicação, os futuros jornalistas aprendem que apurar incansavelmente é um dever ético, e que a versão de um fato não deve ser distorcida da realidade, para que seja publicada com isenção. No entanto, a realidade é bem diferente. No filme Ausência de Malícia, do diretor Sydney Pollack, são expostas as consequências do que uma má apuração jornalística pode trazer. Ainda mais quando isso ocorre em veículos de comunicação respeitados pelo público e considerados como donos de toda a verdade.

No longa-metragem, a repórter investigativa do jornal Miami Standard, Megan Carter (Sally Field), escreve uma reportagem que acusa o empresário Michael Gallagher (Paul Newman) pela participação na morte do sindicalista Joseph Diaz, que estava desaparecido. O caráter tendencioso da notícia logo é percebida, como o uso de determinadas palavras e expressões que induzem o leitor a ter conclusões que não condizem com a realidade. Ao invés de afirmar que Gallagher está sob investigação, o jornal prefere o termo “suspeito”, assim como a expressão “morte”, utilizada para se referir ao caso do possível sequestro do líder sindical. Para oferecer um veredito ao episódio, a publicação apela para o uso de termos equivocados, ainda que Michael Gallagher fosse o principal suspeito no caso. 

No livro Os elementos do jornalismo, escrito pelos repórteres norte-americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel, há algumas considerações sobre as responsabilidades que a profissão exige. Em uma delas, os autores acreditam que a primeira obrigação do jornalista é com a verdade e a lealdade com os cidadãos que recebem as notícias. Para garantir que isso seja respeitado, a apuração deve ser um elemento imprescindível na realização de uma matéria. Em Ausência de Malícia, fica claro que essa regra não foi respeitada de forma isenta pela repórter Megan Carter. Tendo em mãos a acusação de Galagher vinda de um órgão oficial, acreditou estar com a verdade absoluta, deixando de pesquisar outras fontes. Ouvir o outro lado é essencial quando se faz esse tipo de cobertura jornalística. 

Outra questão levantada no filme é a relevância dada a noticiários que especulam os suspeitos de um crime. Muitas vezes, a abordagem já procura revelar os suspeitos, que ainda não foram julgados. Quando há a inocência, o enfoque não é o mesmo. Nesses casos, os jornais esquivam-se da responsabilidade e fazem pequenas retratações (quando as fazem) inocentando o cidadão. 

E as retratações mudam as consequencias das notícias publicadas? Muitas vezes não. No filme, Teresa Perrone (Melinda Dillon), que é a amiga mais próxima de Michael Galagher, teme fazer uma declaração ao jornal. O motivo é a realização de um aborto no dia em que o sindicalista Joseph Diaz teria sumido. Como Perrone é católica e pertence a uma família tradicional, ela acredita que as pessoas mais próximas iram recriminá-la. Mesmo assim, a declaração é publicada e a personagem acaba se suicidando diante do medo em não ser mais aceita na igreja e em sua própria família. Logo, é possível perceber que a retratação feita a Gallagher pela jornalista Megan Carter tornou-se resultado da morte de alguém que buscava apenas defender um amigo. Não só no filme, mas também em nossa realidade, a falta de apuração leva a fracassos vergonhosos e calúnias, com sérias consequências para a vida delas. 

No Brasil, um exemplo disso foi o caso Escola Base, que ocorreu em 1994.  Após acusarem os donos de instituição educacional por abuso sexual, diversos órgãos de imprensa publicaram notícias que levavam a crer que os casos haviam realmente acontecido após o vazamento da informação por parte de um delegado. Por fim, os proprietários da escola foram presos e o prédio onde funcionava a unidade de ensino depredado. Entretanto, não havia provas que comprovassem as denúncias. Isso fez com que veículos como o jornal O Estado de S. Paulo e a revista IstoÉ fossem condenados pela justiça.

Por essas e outras que o editor do jornal, McAdam (Josef Sommer), diz a Carter que “não sente saudades de ser repórter, pois noticias são sempre ruins para alguém”. Mas será que tem de ser assim? O Código de Ética do Jornalista Brasileiro, no artigo 7º, diz que “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação”. Dessa forma, pode-se concluir que, se o trabalho for bem feito, a notícia será ruim apenas para as pessoas que têm algo a esconder e que cometeram infrações. O erro da repórter Megan Carter foi não ter seguido a risca a cartilha jornalística e não ter apurado incansavelmente o caso, deixando-se levar pelos interesses políticos que estavam em jogo no vazamento proposital da notícia que chegou a ela. O erro se torna tão grave que, no final do filme, Megan admite a Gallagher que trabalhou mal.

Há cem anos o poeta Olavo Bilac dizia que “o público tem pressa”. E sua sentença nunca foi tão verdadeira quanto nos dias atuais. O trabalho jornalístico não pode ser negligenciado, apesar da alucinante busca pela informação e dos curtos deadlines. Afinal, o poder das palavras divulgadas na imprensa é imenso e as consequências trazidas para a vida das pessoas nem sempre são remediáveis.

 

Divulgação


Ausência de Malícia

Sony Pictures

DVD



Comentários Comentários Postados
Débora Prado[06/08/2011 - 16:14]

Bem realista o texto pois que, para se ser o primeiro no "furo de reportagem" muitos jornalistas acabam se equivocando e trazendo consequências pesadas para ambos os lados, por isso a notícia tem que ser analisada (pois tudo na vida tem dois lados) e passada a diante com muita responsabilidade para seu público pois são eles que realmente dão créditos aos profissionais de imprensa e acreditam na maioria em tudo que lêem e ouvem. Parabéns pela resenha, vou assisti ao filme e prestar atenção nesses detalhes. Até mais.

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