Em curso para detetives, José Mojica é a grande atração para os alunos, que além das aulas buscam uma vaguinha nos filmes de Zé do Caixão
"Anotem seus nomes, idade, uma frase sobre o amor, uma sobre o ódio, uma sobre a vida e uma sobre a morte.” Assim começa a aula de José Mojica Marins no curso de investigação, num sábado de manhã no Centro de São Paulo. Quem olha aquele senhor de 75 anos na rua talvez não dê conta do seu passado. Vestindo calça social e uma camisa rosa, não chama atenção – exceto, talvez, pela unha do polegar esquerdo, três vezes maior que o esperado. Na sala, a presença do neto Pedro tira ainda mais a nuvem em torno do mito: é só uma criança com sono sentada em uma das últimas fileiras, acompanhando o avô em uma de suas aulas.
Mas assim que José Mojica começa a falar, dá para entender por que o homem é tão famoso. De maneira teatral, levantando as mãos acima da cabeça, o primeiro tópico abordado na aula é o suposto fim do mundo em 2012 previsto pelo calendário Maia. “Apenas um terço da população sobreviverá – ou nem isso”, profetiza o professor. A morte é assunto recorrente no curso, assim como o sexo: os alunos encenam passagens onde perdem familiares, dinheiro ou estão sob tensão sexual. Os temas são bem conhecidos por Zé do Caixão e os títulos de seus filmes confirmam: À meia-noite levarei sua alma (1963), Essa noite encarnarei no teu cadáver (1967), Sexo e sangue na trilha do tesouro (1972), Perversão – estupro (1979), Mundo-mercado do sexo (1979), 48 horas de sexo alucinante (1986)... A lista é longa.
Filho de um toureiro com uma dançarina de tango, ambos de origem espanhola, Mojica nasceu em São Paulo e cresceu em meio às bobinas de filmes. Seu pai, Antonio André Marins, passou a tomar conta de um cinema quando ele tinha três anos de idade, numa época em que a sétima arte era um dos poucos entretenimentos na cidade. “Eu estava lá no centro de tudo, era eu quem dominava isso: tomava conta do cinema. Fui muito privilegiado.” Além dos filmes, dar aulas é algo que sempre esteve presente em sua vida. Ele afirma que desde os oito anos era “professor” e ensinava a arte de fazer cinema para quem quisesse aprender.
No currículo, mais de 150 filmes – o número tende a aumentar, já que as filmagens do próximo começam em outubro deste ano –, e um programa que vai ao ar no Canal Brasil, nas sextas-feiras, à meia noite, chamado O estranho mundo de Zé do Caixão, que conta com entrevistas sobre as superstições e o lado macabro dos convidados. Além disso, Mojica já atuou como detetive anos atrás, em algumas poucas ocasiões. E, é claro, tem ainda o curso de atuação para espiões que ministra há mais de duas décadas. “Dando aula há tanto tempo e fazendo outras coisas da vida, tento ser um professor que traz novidades para a sala”, comenta.
Criatura e criador
A fama tem seu preço. O de José Mojica é o ego inflado. Na sala, ele fala sobre seus filmes, dá autógrafos, tira fotos. O poder de fascinação que exerce sobre os alunos é perceptível: Zé é o centro das atenções. Quem olha de fora, pode imaginar que ele dá aulas para encontrar atores. É o que o cineasta afirma diversas vezes ao longo das duas horas em que leciona, dizendo que vai “entrar em contato com os que mais gostou para um futuro teste”. Na plateia de alunos, um riso de esperança, misturado com orgulho, aparece tímido. E, fora da sala, o reconhecimento não demora a chegar. Poucos segundos com os pés na Rua Sete de Abril, no Centro, foram o suficiente para que um homem gritasse: "Olha o Zé do Caixão aí! Trash!".
"Zé Mojica não tem nada a ver com o Zé do Caixão", afirma. De qualquer maneira, ambos sabem muito bem que sexo vende, dentro e fora do cinema. Discretamente, levantando a sobrancelha e com um sorriso de lado, revela que “todo mundo gosta de ver um beijo”. Com o intuito de concretizar essa imagem, ao final da aula, Mojica leva os alunos para o centro da cidade, onde formam uma roda e um casal é escolhido para uma cena – de beijo. Antes de apontar um homem e uma mulher para a encenação, o professor pergunta quem se habilita e, pelo silêncio absoluto que ouve em resposta, sugere que a cena termine quando as bocas estejam a pouquíssimos centímetros uma da outra (ele próprio, aliás, chega com a boca bem perto das alunas). Aos gritos de "câmera, ação!", ele dirige, com um cigarro entre os dedos, os alunos-atores, com uma esperança clara de que o clima esquente um pouco.
Ambos, homem e personagem, sabem muito bem que o desconhecido fascina. O misterioso – seja nas telonas, ou nos casos a serem investigados – está sempre presente, e a fórmula tem dado certo. "O Zé do Caixão adora o desconhecido. Tudo aquilo que foge ao normal", conta Mojica. O homem real, porém, assume uma fraqueza: ele tem medo. "Eu tenho a mesma curiosidade do Zé, mas não tenho a coragem dele". O temor mais óbvio e natural do ser humano, porém, nenhum dos dois tem. "Se eu não tivesse morrido, eu teria medo da morte. Mas nos anos 1970, tive uma parada cardíaca. Parou tudo: o coração, a mente. Fui dado como morto por quatro minutos. Vi tudo grande e diferente, com as cores se misturando. Eu gostei de ter morrido". Para quem já viveu tantas experiências macabras, as atuais manhãs de sábado de José Mojica são até que bem tranquilas.
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