Noveleiros falam sobre as estratégias para guardar o mistério de um enredo acompanhado por milhares
Uma coisa é certa: novela sem segredo não existe. Histórias de amor, intrigas familiares e vilões ardilosos conduzem a trama das telenovelas brasileiras desde sua origem, na década de 1950. Os mistérios ganharam destaque nestas produções e auxiliaram o amadurecimento dos folhetins. Essa estratégia é usada para atrair o espectador em frente à telinha, de segunda a sábado – para que a trama seja montada e o segredo que amarra o enredo revelado.
“Quem matou Odete Roitman?” Jargão, popularizado nos anos 1980 com a novela Vale Tudo, trouxe à tona o romance policial. Este gênero nas telenovelas brasileiras tornou-se recorrente, pois costuma retratar a morte como persongem – usando-a como mote para sustentar o enredo até o último episódio. Na novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a morte de Odete Roitman se transformou em um fenômeno social, alcançando a média de 81,5 pontos no IBOPE após o assassinato da personagem, interpretada por Beatriz Segall. “Esse tipo de segredo, como qualquer outro, serve para provocar o telespectador. Você o joga para algo parecido com a sensação de uma leitura”, ressalta José Armando Vannucci, crítico de televisão.
“Uma telenovela é uma obra em processo”, afirma Lauro César Muniz, roteirista da rede Record. Muniz é o autor da novela Poder Paralelo, que foi transmitida entre 2009 e 2010, trama policial inspirada em contos do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt e filmes de diretor inglês Alfred Hitchcock. “É um processo em que o autor é bastante alimentado pelo feedback dos telespectadores, por meio da imprensa, dos e-mails que recebemos e até dos números de audiência”, acrescenta o roteirista.
FINAL GUARDADO Definido o conflito central da obra, possíveis desfechos e ganchos são revelados somente a pessoas de confiança da produção. “Em Poder Paralelo, apenas o Hiran Silveira, diretor de teledramaturgia da TV Record e o diretor geral Ignácio Coqueiro, conheciam os desfechos”, revela Lauro César Muniz. Foram gravadas duas versões sobre a decisão amorosa do personagem central Tony, personagem de Gabriel Braga Nunes. “Foi preciso certa habilidade na escrita para armar uma situação até a última cena para que qualquer uma das versões fosse real.”
Em 1997, Aguinaldo Silva assinou outra novela de grande repercussão. Em A Indomada, o principal mistério era sobre a identidade do personagem Cadeirudo, que só foi revelada no penúltimo capítulo. A figura que atacava mulheres em noite de lua cheia era vivida por Lourdes Maria, a beata fofoqueira de Greenville, cidade cenográfica onde se ambientava a trama. A devota interpretada pela atriz Sônia de Paula só soube que ela era o Cadeirudo junto com o público. “Seis atores gravaram o mesmo final e a produção editou o capítulo revelador duas horas antes de a novela ir ao ar”, relembra Sônia.
Aguinaldo Silva teve o cuidado de ambientar Greenville no Nordeste brasileira para dar maior embasamento da trama às lendas da região, dentre elas a figura do Cadeirudo. As aparições do personagem de terno e chapéu preto eram envoltas por uma nuvem de poeira e sonorizadas pelo característico bater de seus sapatos. “Mas ele não abusava das vítimas, apenas assustava”, esclarece Sônia. A atriz concorda que o “suspense é essencial para prender a atenção dos espectadores”.
A global A Favorita (2008) inovou usando elementos inovadores de suspense. João Emanuel Carneiro, o autor da trama, se inspirou nos romances de Agatha Christie para escrever a novela. A renovação e um dos motivos de sucesso da novela se devem à revelação de que Flora (personagem de Patrícia Pilar) era a assassina de Marcelo (interpretado por Deco Mansilha), antes dos capítulos finais.
ESTRATÉGIA Informações falsas que despistam espectadores e revistas de fofocas para aumentar a expectativa e gerar audiência são estratégias comuns quando uma novela alcança rapidamente o grande público. Os boatos divulgados, portanto, podem até interferir na trama, como foi o caso de A Favorita. A fidelidade dos telespectadores foi questionada pela Rede Globo, que estaria preocupada com a reviravolta no roteiro. Na época em que a dúvida foi lançada, para desmascarar o assassino, a emissora veiculou anúncios para promover a virada na história. Nilson Xavier, autor do livro Almanaque da Telenovela Brasileira (Editora Panda Books) e criador do site www.teledramaturgia.com.br, destaca que “baseado nas pesquisas de opinião, o autor pode mudar a estrutura de sua novela para atender às expectativas do público”.
O livro A seguir, cenas do próximo capítulo (Editora Panda Books), lançado em 2009 pela dupla de jornalistas Cíntia Lopes e André Bernardo, reúne entrevistas com dez autores de telenovela brasileira. “Segredo em novela é tão importante quanto rima em poema”, afirma André. Cínthia lembra da importância que um mistério adquire no decorrer da trama, devendo ser “consistente e importante o bastante para sustentar uma história, caso contrário, o público não tem interesse em tentar descobrir os próximos passos”. Para ela, a verdadeira função do espectador é “tentar assumir o papel de detetive quando o mistério é lançado”, interagindo com o ficcionista.
Na opinião dos escritores do livro, quando o assunto é mistério, o melhor novelista é Silvio de Abreu. Para quebrar o padrão de narrativa normalmente utilizado por outros autores, ele começa a escrever sua novela de trás para frente. “Primeiro, ele define quem mata e por que mata. E só depois pensa em quem morre”, constata André Bernardo. A fim de evitar o assédio da mídia, Silvio também distribui capítulos falsos e grava cenas que nunca serão exibidas. Outra maneira de se prevenir da avalanche de perguntas que chegam ao seu alcance é estender o número de capítulos que tratam do suspense central para garantir a audiência; como ocorreu com Passione, transmitida recentemente no horário nobre da Rede Globo.
O poder de alteração de uma novela varia não só com o autor, mas também com a opinião do público ao longo de sua exibição. Para manter o clima de novidade, táticas como a mudança no caráter de determinado personagem, a inserção de outros, e mesmo a criação de histórias paralelas podem garantir o interesse até o último capítulo. Como explica Nilson Xavier, “a curiosidade do telespectador pelo desfecho de um bom mistério é o que alimenta a telenovela”. Seduzidos pela magia criada pela tevê, e com os olhos atentos a qualquer movimentação, somos levados a adentrar o mundo de um personagem com quem nem mesmo nos identificamos, mas que, de alguma forma, aguça nossa curiosidade.
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