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01/08/2011 - 14h09 - Atualizado em 23/05/2012 - 00h37

Fama e Anonimato

Simone Melo, do 1º ano de Jornalismo; Bianca Castro e Gabriel Medeiros, do 2º ano de Jornalismo; Ivan Sarmento de Oliveira e Andressa de Almeida Basilio, do 3º ano de Jornalismo

Eles fazem a obra, mas nunca serão célebres. Vivem em um mundo onde as únicas regras são o silêncio e o respeito ao cliente

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Divulgação
No filme "O Escritor Fantasma", Ewan McGregor interpreta um personagem que decide completar o livro de memórias de um político

Há um tipo de escritor que se empenha em pesquisas, apura dados, esforça-se para ter ideias e passa horas lendo e relendo passagens anteriormente escritas. Finalizado o texto, é hora de publicá-lo. Mas esse autor não tem assinatura: dá lugar, na capa do livro, ao nome de outra pessoa. São os chamados ghost writers, operários das letras que anonimamente produzem textos a serviço de outros.
Sob o manto da invisibilidade, esses profissionais vivem à sombra dos clientes, como fantasmas, numa relação em que não é conveniente aparecer em noites de autógrafos ou usufruir de prêmios literários. Nesse universo, é curto o espaço para a vaidade. “É preciso ter maturidade para entender que o texto pertence a quem contratou o ghost writer. Pessoas possessivas não devem aceitar esse tipo de trabalho”, acredita Eduardo Belo, jornalista e editor de livros que, eventualmente, atua neste mercado.

O acordo que profissionais como Eduardo se dispõem impede qualquer tipo de ligação afetiva com sua obra. O senso de propriedade e o ciúme não são bem-vindos se a intenção é ter uma relação profissional. No contrato moral com o cliente, a cláusula primordial é o segredo. “Afirmariam até a morte que foram eles que escreveram. Não contam nem para as suas mulheres”, diz Ryoke Inouê, ghost writer, referindo-se aos diversos políticos para os quais sigilosamente escreveu autobiografias. 

Além de deputados e senadores, celebridades e empresários formam o conjunto de clientes que, sem tempo ou talento o bastante para escrever, solicitam a ajuda de um “fantasma”. É como se houvessem descoberto que uma autobiografia é também ótima estratégia de marketing pessoal. “A melhor obra publicitária é um livro que fala da vida deles. E, de preferência, um bem escrito”, afirma Ryoke, que já chegou a receber R$ 200.000 reais pela biografia de um empresário.
Também há casos em que não é o próprio autor que toma a iniciativa do projeto editorial. "Funciona assim: a editora convida o autor e sugere o ghost. Pode acontecer de esse autor não gostar da escolha, já que o convívio com o cliente é uma relação íntima”, diz Nanete Neves, ghost writer que ajudou a fazer livros de artistas e empresários, inclusive o de um falecido ator de teatro.

Convivendo com o fantasma

Uma vez contratado, é hora de começar a pesquisar e fazer entrevistas. Para Nanete Neves, o maior desafio é a adaptação ao estilo do contratante. “Não vou fazer um livro meiguinho se estou falando sobre um executivo de uma corporação, que é um líder, impositivo, astuto, que manda”, diz a ghost, que teve de lidar com um famoso empresário dono de tais características. Agir como um escritor fantasma exige conhecer a fundo o cliente, suas manias, posições políticas, posturas e até intimidades.

A proximidade é terreno fértil para que a relação fique pessoal. Há casos em que o ghost writer ultrapassa a fronteira do escritor e se envolve com a vida do cliente. O personagem de Ewan McGregor em O escritor fantasma, filme de Roman Polanski lançado em 2010, se vê em apuros quando descobre mais do que deveria ao escrever as memórias de um poderoso ex-primeiro ministro britânico.
A situação também pode aproximar cliente e escritor além do ideal. “Uma vez me emocionei com a história de um político. Viramos amigos depois”, revela Ryoke, que, no entanto, deixa claro a necessidade de cuidados na hora de escrever a obra. “Para saber administrar os conflitos, temos que manter distâncias.” Quando perguntado sobre quais seriam estes conflitos, Ryoke destacou a incômoda missão que é “tirar leite de pedra”. “Muitas vezes, o cara insiste que a história dele é interessante, mas não é. Então temos que criar algo verossímil e que se relacione organicamente com os fatos que ele viveu.”

Impasses como esse acontecem quando o autor se coloca na berlinda entre respeitar o cliente e, ao mesmo tempo, os leitores. “Estou a serviço do contratante, mas não posso escrever uma mentira”, afirma Ryoke. Mas, nem todo ghost writer age assim. Pelo contrário, há um tipo de fantasma requisitado justamente para enganar o leitor. É o caso do engenhoso comércio de teses e dissertações acadêmicas.

De quem é a tese?  

Os inúmeros ghost writers de trabalhos acadêmicos estão espalhados por todo o Brasil e podem ser encontrados facilmente em mecanismos de busca na internet. Rodrigo Pereira é gerente e supervisor do site Click Monografias (www.clickmonografias.com.br) e atesta a particularidade da categoria: são fantasmas de escrita e de corpo, já que não é necessário encontro pessoal entre contratante e contratado. Basta uma única troca de emails. “O aluno só entra em contato, manda uma ideia de tema e diz mais ou menos como ele quer que o trabalho fique. A partir daí, a gente escolhe alguém da equipe que tem afinidade com o tema e pronto”. O Click Monografias tem 25 funcionários, graduados nos mais diferentes cursos. Rodrigo, por exemplo, é formado em Ciência da Computação.

Pelas implicações éticas, tudo o que esse tipo de escritor quer é ser fantasma mesmo. “Não queria que as pessoas soubessem o que eu fazia. Comecei a trabalhar escondida e tenho consciência de que escolhi viver por de trás da cortina”, explica Adriana Farias, que escreve sobre qualquer área. “Quando não tenho afinidade com o tema, pesquiso mais ainda. Mas há trabalhos que eu nem preciso pesquisar. Sento lá e escrevo de cabeça, só com o conhecimento acumulado de trabalhos anteriores.”

Apesar da necessidade de sigilo, tanto Rodrigo quanto Adriana acreditam que o trabalho que fazem é honesto e necessário, uma vez que julgam que as instituições de ensino não preparam o aluno para a pesquisa. “A culpa não é do aluno e sim do orientador. Eles discriminam o nosso trabalho, mas não têm a capacidade de estimular o aluno a ter gosto pela pesquisa”, acredita Adriana, que trabalha quase 24 horas por dia em cerca de dez trabalhos mensais e recebe, em média, R$ 750,00 por um trabalho de conclusão de curso (TCC) de 60 páginas – dinheiro que, para ela, é o bastante para abdicar de seus direitos sobre trabalho intelectual.

Wild Web Writers 

A necessidade de informação instantânea, rápida e em grande quantidade fez com que ghosts fossem procurados para promover as imagens de seus clientes em todas as mídias sociais, como blogs, twitters e perfis no Facebook. Além disso, as plataformas digitais possibilitam diversos tipos de interação. “Na internet, uma pessoa pode se multiplicar e até se metamorfosear. O fato de ser escritor é um facilitador”, acredita Cobbi.

O rapper americano Kanye West, por exemplo, contratou duas pessoas para atualizar o seu blog (www.kanyewest.com), considerando que a atitude não implica na qualidade da informação. A cantora pop Britney Spears foi além e formou um time de manutenção das redes sociais. Já Shaquille O’Neil, jogador americano de basquete, causou polêmica ao se manifestar sobre o assunto no Twitter: “Se você precisa de um ghost writer para escrever 140 caracteres, eu sinto pena de você”.
No Brasil, o twitter político do ex-candidato à presidência, José Serra, provocou questionamentos sobre a real participação dele em sua página na rede social. Em janeiro de 2011, dois comentários sobre cinema foram lançados no microblog. Porém, os que acompanhavam minimamente a agenda do político sabiam que, na verdade, Serra estava na missa de sétimo dia do ex-governador Orestes Quércia. Apesar da incoerência entre os tweets e a realidade, a equipe de Serra afirmou que ele é o único responsável pela atualização das redes sociais. “É o próprio Serra quem utiliza o Twitter. Não há ninguém com acesso à conta dele”, afirmou Regina Lacerda, assessora de Comunicação Interativa do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira).

Essas contradições são amostras do quanto a profissão de ghost writer, apesar de legítima, ainda enfrenta questionamentos éticos, morais e políticos. No entanto, o caráter sigiloso da profissão parece incomodar mais os que estão de fora do que os próprios escritores fantasmas. Ryoke Inouê é taxativo: “É simples: se acha que tem algo genial para dizer, deve publicar seu próprio livro”. 

E ele tinha. Publicou mais de 1.100 romances, fato que o fez entrar para o Guinness Book. Apesar de achar que o “prazer é idêntico ao de escrever um livro seu”, o escritor revela que escolheu ser fantasma pela gratificação financeira. “Ganhei muito mais produzindo obras para os outros do que com as minhas próprias”, diz Ryoke, explicando o porquê de estar na profissão.



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