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29/07/2011 - 13h50 - Atualizado em 23/05/2012 - 17h12

Exercício sinestésico

Por Renata Barranco, aluna do 2º ano de Jornalismo

Filme retrata a década de 60 para além da beatlemania, da rebeldia e dos movimentos estudantis que marcaram a história mundial

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Reprodução
With a little help from my friends. Em Across the
Universe
, as letras dos Beatles contam a história de
jovens sonhadores em meio aos conflitos dos anos 60

“Is there anybody going to listen to my story, all about the girl who came to stay?”. Os primeiros versos de Girl, música dos Beatles interpretada por um jovem solitário sentado em uma praia deserta, parecem antecipar a história que veremos ao longo dos próximos minutos.

Já na primeira cena, a diretora Julie Taymor - conhecida por suas adaptações em espetáculos da Broadway - revela a verdadeira intenção de seu filme: narrar duas histórias distintas. A primeira, de um amor juvenil, a outra, de uma geração. É ao recriar a atmosfera da América nos anos 1960, que Across the Universe (2007) consegue unir os “meninos de Liverpool” à boemia e nostalgia da época, em um casamento repleto de paixão, contestação e música.

Ter nas mãos as canções dos Beatles é, definitivamente, um grande desafio para qualquer diretor; ainda mais para Julie Taymor, que, não só no papel de uma regente perante seus atores, mostrou-se, também, uma excelente coreógrafa em um musical de rock revolucionário.

O inglês Jim Sturgess interpreta Jude, um jovem que, assim como a música, carrega o mundo em seus ombros. Em Liverpool, na Inglaterra, o protagonista decide partir para os EUA em busca de seu pai; não esperando, no entanto, encontrar Lucy (Evan Rachel Wood) que, como o quarteto cantava, tem o sol estampado em seus olhos. É assim, como num passe de magia, e, claro, com uma boa dose de fantasia, que Taymor apresenta o casal Lucy e Jude - pela primeira vez juntos e fora das partituras.

Do rock melódico de Rubber Soul (1965) ao pop psicodélico de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), o filme mostra as diversas facetas da banda que provocou uma verdadeira febre e uma estrondosa mudança comportamental.

Na década de 1960, como vemos no filme, era muito difícil não encontrar um garoto com um cabelo, uma roupa, ou mesmo a atitude displicente tão associada aos Beatles. Foi nesse mesmo período, porém, que os movimentos de contracultura e as manifestações por diretos iguais e liberdade começaram a efervescer; principalmente para os americanos, que, desde 1959, vivenciavam o conflito estabelecido no Sudeste Asiático.

A música dos Beatles que dá título à película, dentre tantas que falam de amor, não poderia ser outra, definitivamente. Quantas vezes mais não ouviremos dois amantes cantarem a famosa música composta pela dupla Lennon-McCartney?
 
“Limitless undying love, which shines around me like a million suns and calls me on and on across the universe”, de alguma forma, se encaixa perfeitamente na paixão encenada pelos dois atores, e que, por vontade da diretora, leva seu público a um universo totalmente irreal. Isso só ocorre, em grande medida, pelo desfile de cores vibrantes, de criações coreográficas e visuais que ultrapassam as barreiras do mundo cinematográfico como uma obra surrealista - desligada de lógica, mas recheada de alegorias e sonhos.

Para lidar com o clima romântico do filme e elevar o efeito de devaneio presente desde a primeira cena, Taymor utiliza algumas ferramentas do gênero fantástico e do melodramático para compor sua narrativa, como o uso das baladas românticas dos Beatles e a metalinguagem musical que parece contar em encenações a história de um amor tipicamente juvenil.

Além disso, determinados elementos da obra - como roteiro, fotografia, edição, trilha sonora e atuação - convergem em uma verdadeira imersão de sentidos e em um constante exercício de sinestesia; como o vermelho intenso dos morangos que irrompem quando a música Strawberry Fields Forever surge na voz do ator inglês. A sensação que temos é a de um vermelho suculento, marcante, e até mesmo sensual, que rouba a cena imediatamente, mas que, ao mesmo tempo, é relacionado com a Guerra do Vietnã e suas incontáveis vítimas.

Embora vise um público mais jovem, o longa reserva grande potencial de atrair plateias mais maduras, e que, assim como todo beatlemaníaco, cresceu ouvindo as músicas que transformaram uma geração para sempre.

A intenção de Julie Taymor é fazer com que todos se sintam eternamente jovens e atemporais, assim como as canções do quarteto inglês. Como ouvir um disco favorito, já sujo e desgastado pela ação do tempo e do manuseio de seu dono, assistir Across the Universe é um excelente exercício de memória musical, de construção de imagens fantasiosas e degustação do mais sutil dos sentimentos: o amor.



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