No início da faculdade, o jornalista conciliava trabalho e dois cursos: Jornalismo e Direito
A carreira de Pedro Bassan começou aos 17 anos, ainda em Tupã, mas veio a se consolidar mesmo na capital paulista. Em meados de 1990, ele saiu da cidade e prestou vestibular para dois cursos bastante concorridos: Jornalismo, na Faculdade Cásper Líbero, e Direito, na Universidade de São Paulo. A escolha, segundo ele, foi impulsionada pelo interesse em ser diplomata. Porém, a vida traçou outros caminhos, que ele conta a seguir em entrevista exclusiva ao Site de Jornalismo.
Qual foi o momento que você decidiu sair de Tupã e ir para São Paulo?
Eu fui para estudar, já tinha mais ou menos isso em mente. Eu não sabia que faculdade ia fazer, pois sempre fiquei em dúvida entre Jornalismo e Direito. Eu queria ser diplomata, por isso que eu escolhi por Direito. Mas eu queria ser jornalista também, não queria abandonar essa vida. Prestei vestibular, passei nas duas [Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da USP e Faculdade Cásper Líbero] e comecei. A Cásper sempre foi a primeira opção. Na minha opinião, esse nome sempre esteve na minha cabeça. Uma faculdade muito antiga, muito tradicional. Além disso, jornalismo era meio sinônimo de Cásper. Foi a faculdade que eu escolhi mesmo pelo nome, pela tradição na época. E aí fiquei, mas demorei a beça para me formar.
Como você conseguiu conciliar trabalho e duas faculdades?
Conciliei mal, porque eu comecei a trabalhar com jornalismo, mas continuei na faculdade de Direito. Não pensei muito no futuro. Era muito envolvido em política estudantil com o XI de Agosto [Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da USP] e eu não queria largar essa vida. Por isso, continuei na faculdade de Direito e tranquei a Cásper quando comecei a trabalhar na Rádio Record. Não foi nada que eu tinha planejado. Somente quando eu acabei a faculdade de Direito que eu voltei para a Cásper, pedi as equivalências para iniciar o terceiro ano. Eu só fui acabar em 1998.
E você tinha começado a fazer Cásper em que ano?
1990. Foram oito anos, porque depois eu peguei muitas DPs e levei ainda três anos para terminar. Nessa época, eu já trabalhava na rádio Jovem Pan (leia artigo especial sobre a trajetória profissional de Pedro Bassan), que por sorte era em frente à faculdade. Mesmo assim, faltava muito por causa do trabalho. Então, perdi várias matérias e esses dois anos eu levei três para fazer.
Durante esse período, o que você lembra da faculdade? Houve muitas mudanças? E quanto aos professores e às aulas?
Eu peguei uma mudança grande na faculdade. Quando eu entrei em 1990, era uma coisa, depois quando eu voltei em 1995 já era outra, bem diferente. A faculdade tinha até passado por uma reforma. Quando eu entrei, a faculdade estava bem caída fisicamente, com paredes descascadas. Era bem diferente do que é hoje. E aí, em 1995, ela já tinha tido uma bela reforma, houve o incremento de equipamentos, o prédio estava bem mais bonito, os professores tinham mudado muito e o currículo tinha se atualizado bastante. Eu gostava muito dos meus primeiros professores também, mas o currículo no começo da década de 1990 ainda estava muito desatualizado. Tínhamos a famosa taquigrafia, que era uma coisa que os alunos brigavam para não ter mais. Naquela época já era algo muito antiquado. Mas tinha bons professores, grandes repórteres que tinham passado pela grande imprensa. Porque eu acho que é isso que mais fica, ouvir a experiência de quem trabalha com jornalismo. Acho que isso é o principal da faculdade, para mim, em todos os anos que eu estive na Cásper.
Você não chegou a ser estagiário em nenhuma empresa que trabalhou?
Não. Eu fiz, logo no começo, um curso de Rádio no SENAC, então eu tinha um registro de locutor. Isso me ajudou bastante na rádio, porque eu podia trabalhar como repórter e locutor. E em 1997, quando eu estava acabando a faculdade, fui para a TV Globo.
O que foi imprescindível para que você conseguisse tantas oportunidades em tão pouco tempo?
Não tenho a menor idéia. (risos) As coisas na vida são engraçadas. Quando eu saí da Rádio Record, foi porque as pessoas estavam mudando de emissora. Aí eu tinha uns amigos na Jovem Pan que me disseram que estavam contratando muitos profissionais porque o Fernando Vieira de Mello, que era o chefe, tinha saído para montar a Rádio Trianon e vários repórteres tinham ido com ele. Por isso, alguns amigos falaram para o chefe da Jovem Pan, que era o Marcelo Parada, para me escutar na Record como jornalista esportivo. E, naquela época, como muito repórter que está começando, eu fazia muitas coberturas dos jogos da Portuguesa, e o técnico era o José Poy, que já era um senhor e tinha uma certa idade. O Parada me viu em uma entrevista e disse que me contratou porque eu chamei o José Poy de “senhor”. Foi esse que foi o fator determinante nesse momento. Ele acreditava que, como eu chamei o Poy de “senhor”, trataria bem todos os entrevistados.
Como você chegou a faltar as aulas à trabalho, as empresas conseguiam ajudar de alguma forma? É verdade que a Bandeirantes enviou um pedido à Fundação Cásper Líbero para abonar as suas faltas para não pegar DP na faculdade?
Eu tentava de tudo. Na época, o Alberto Luchetti era o diretor da Rádio Bandeirantes e fazia de tudo para ajudar a gente. Ele que tomou a iniciativa, pois me mandou fazer umas coberturas e eu teria que perder umas provas e ter que ficar mais um ano na faculdade. Eu lembro do Lucheti falando que “ia tentar de tudo”. Eu nem lembro se deu resultado ou não, mas eu acho que levei essa declaração. Chorar não custa, né? (risos)
E qual foi o assunto do seu TCC? Você lembra?
O TCC foi um trabalho de rádio sobre as vítimas do amianto no Brasil. A gente entrevistou famílias, fomos à fábrica da Eternit em Osasco, acompanhou o trabalho deles e a luta por indenizações. As pessoas estavam sendo internadas porque trabalharam com o material. A Jovem Pan falava muito disso na época, por coincidência. Eu nem estava mais lá [Jovem Pan], mas o Reali Jr. fazia muitas matérias na França em torno disso, porque era um assunto muito importante. O Reali foi um dos autores dessa campanha no Brasil pelo fim do amianto. Um assunto que eu já conhecia um pouco e o meu grupo decidiu abordar.
Você lembra de alguns professores da Cásper?
Eu lembro muito bem do Cláudio Arantes [professor de Ciência Política e Realidade Socioeconômica e Política Brasileira], porque o curso que ele dava era muito bom. E olha que eu fiz USP, com todo o nome que tem nas ciências humanas e no quadro de professores. Até cheguei a pedir dispensa do curso do Cláudio, pois eu já havia feito Ciência Política na Faculdade de Direito e era algo que eu podia eliminar. Mesmo assim, acabei tendo um curso com ele melhor do que havia tido na USP, em que me mandavam ler uns manuais. Lembro que o Cláudio fazia questão de lermos textos originais, era algo muito sério. E eu sempre falava isso para ele. O curso dele me marcou muito, porque foi uma grande surpresa. Algo que eu tentei eliminar e, no fim, tive uma bela formação com ele.
Teve alguns colegas de classe que você chegou a encontrar depois durante a sua carreira como jornalista?
Alguns. A Aline Saraiva, produtora que trabalhou na Globo de Nova Iorque e saiu há poucos meses para ir à ESPN Brasil. Da turma que veio antes de mim tem muita gente, como o César Tralli, a Mariana Godoy e o Rodrigo Vianna. Esses três estavam ali juntos logo na minha frente. Inclusive, a Mariana Godoy era minha amiga. Eu pegava o mesmo ônibus que ela para ir embora da faculdade.
E você poderia contar alguma história marcante que você viveu na Cásper?
Quando eu estava fora da faculdade, que tinha trancado e estava no Largo de São Francisco, ocorreu um protesto na Cásper em que os alunos dormiram na faculdade e eu participei marginalmente. Isso porque os meus amigos estavam todos lá, embora eu estivesse com a matrícula trancada. Foi legal, foi um período bem intenso. Eu gostava de luta estudantil, acho que essa foi a principal. Boas histórias tiveram muitas, pois todos os dias passamos por momentos engraçados.
Agora que a entrevista será lida e ouvida pelos alunos de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, você acha que é importante aprender com os profissionais que exercem na prática o exercício da comunicação social?
O principal na faculdade para mim sempre foi ouvir as experiências de outros repórteres. Eu gosto muito de dividir essa experiência. Eu tive aula com professores como Evaldo Dantas, um dos maiores repórteres da imprensa brasileira. Então, eu acho que é o mais importante da faculdade, sem dúvida nenhuma.
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