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25/07/2011 - 05h21 - Atualizado em 21/05/2012 - 23h12

“Não gosto que confundam jornalista com popstar”, afirma Bassan

Gustavo Nárlir, editor do site

O correspondente internacional acredita que a profissão exige uma “postura mais sóbria” em relação à sociedade

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Globo Vídeos
O repórter em matéria para o programa Altas Horas, da TV Globo

O poder da imagem da televisão pode fazer com que o telespectador se identifique e, em alguns casos, passe a admirar os jornalistas e a confundi-los como celebridades. Mas, será que é isso mesmo? Pedro Bassan reflete sobre o papel do jornalista na TV, comenta os principais desafios em fazer uma reportagem para noticiários televisivos e aconselha os alunos de jornalismo.

Como você vê os jornalistas televisivos que muitas vezes são confundidos com celebridades?
Eu acho que as pessoas confundem e não confundem. Elas reconhecem a imagem, mas não tratam como uma celebridade. Eu acho que há um distanciamento maior. A Fátima Bernardes fala muito isso. Ela pode sair na rua e pode ser comparada aos atores que estão nas novelas. Ela, que talvez seja a jornalista mais reconhecida do país, diz que as pessoas respeitam essa posição mais sóbria que o jornalista tem que ter. Eu não gosto nem um pouco que as pessoas confundam jornalista com popstar. Eu acho que a ética e a etiqueta da profissão exigem uma postura mais sóbria. Mas aí o próprio jornalista tem que se policiar. Quanto mais ele cuida disso, mais bem ele faz para sua imagem e para a categoria como um todo.

Mas você já chegou a andar na rua e ter uma recepção calorosa das pessoas?
Tem uma história engraçada que aconteceu quando eu entrei na TV Globo e estava me formando. Eu tinha feito umas duas reportagens e ainda pouca gente me conhecia. Na festa de formatura da Cásper, entre os festejos combinados, coube a mim a tarefa de entrar em um Sex Shop e comprar uma boneca erótica inflável para encher e ficar no palco da formatura. Aí eu entrei no Sex Shop e comprei uma boneca inflável, o que é algo que eu não costumo fazer. (risos) No momento que eu estou pagando o produto, um sujeito vira para mim é fala “Você trabalha na Globo!”. (risos) Aí eu comecei a sentir a força da emissora. Fui reconhecido em uma situação que não queria de jeito nenhum. (risos)

Mudando de assunto, você acha que conta mais a experiência acadêmica ou a prática no jornalismo?
Eu acho que no jornalismo a experiência conta muito. Mas é claro que a formação acadêmica também é importante. Se você não tiver uma base forte, não vai conseguir se situar em muitos momentos. Eu acho que as duas coisas andam juntas. Só que o jornalismo é uma prática. É claro que é uma ciência, um saber científico, uma maneira de enxergar a realidade, mas ele é uma prática também nesse modo de encontrar com a realidade. Então, eu acho que particularmente o jornalismo é uma profissão em que a prática também forma.
 
Ainda que você estivesse marcado pelas reportagens esportivas, você conseguiu abordar questões sociais?
Sempre. Porque eu sempre tive no esporte e fora do esporte também. E, agora, como correspondente é o que faço também: matérias de esporte e outros assuntos. Eu gosto do esporte, faço como um fã, alguém que acompanha. Assim como outras matérias, eu tento olhar para o mundo um pouco.

E qual é a conselho que você dá aos alunos de jornalismo que pretendem trabalhar na televisão?
Eu acho que o importante é ler, ler muito tudo que cair na mão. Esse conselho sempre foi óbvio, mas hoje em dia não é mais, pois as pessoas estão se distanciando cada vez mais dos livros. É fundamental ter amor pelas palavras. Eu acho que isso é a base de tudo, pois texto é a palavra. Eu sou correspondente hoje e, hoje em dia, o mundo está cada vez mais especializado e nós somos os generalistas dos generalistas. Eu faço tudo, cada dia abordo um assunto diferente, então é preciso ter no mínimo vocabulário. E isso tudo está só nos livros, nos tijolos que a gente encontra pela vida e o que a gente aprende.. Eu não tenho outra dica para dar a não ser mergulhar nos livros.

E você fala várias línguas, não é mesmo?
Falo inglês, italiano, espanhol e me viro no francês.

Isso reflete o seu estudo, a sua procura por conhecimento?
Sem dúvidas. Mas eu acho que o principal é falar bem o português, pois não adianta nada falar outras línguas e não ter uma base para sustentá-las. Hoje em dia, porém, o mundo exige que se fale inglês. Então, tem que aprender, não tem jeito. Pelo menos o inglês para o jornalista é muito importante.

Você ganhou muitos prêmios ao longo de sua carreira?

Só me lembro de ter ganhado o Prêmio Comunique-se duas vezes, uma como repórter esportivo outra como correspondente internacional.

E você acha que o jornalista é reconhecido no Brasil por sua profissão?

Eu acho que há reconhecimento, sim. Eu gosto da minha profissão, da minha categoria profissional. O Evandro Carlos de Andrade, o antigo chefe da Central Globo de Jornalismo, contava uma história que é uma grande verdade. No tempo que ele começou a ser repórter, o jornalista andava e ia fazer as suas matérias de bonde. Não só o jornalista não tinha dinheiro, como os próprios veículos de comunicação também. E quando eu escolhi a faculdade e que eu achei que podia ser jornalista para o resto da minha vida, eu já podia esperar um outro nível de conforto, já podia sonhar com salários que hoje são excelentes. A categoria, nesse sentido, está bem valorizada. O problema é a base, que é muito desvalorizada, mas acho que é uma luta constante dos jornalistas. Quem está começando nunca vai ganhar um caminhão de dinheiro. Sempre é uma luta da categoria, que muitas vezes é desunida. É um paradoxo, porque eu acho que os jornalistas da base estão mais preparados, mas não tão bem pagos. Mas se a gente olhar para o topo das redações hoje, é uma profissão super valorizada. Quem quer ser jornalista, pode sonhar com um salário decente. É possível ter uma vida de classe média decente sendo jornalista.

Ao fazer uma retrospectiva de sua trajetória profissional, você conseguiu realizar tudo o que queria pessoal e profissionalmente?

Eu acho que muito mais. Eu nunca esperei nada, nunca fiquei pensando “quero tal coisa, quero chegar a tal lugar”. Eu via na televisão o profissional conhecendo os lugares, ouvindo pessoas, eu achava que era uma vida de aventuras. E eu posso confirmar isso: principalmente para o repórter, o jornalismo é uma vida de aventuras. Não tenho nada de que me queixar. A cada dia eu conheço pessoas e lugares diferentes. Nesse sentido, a vida da reportagem é muito gratificante e não me arrependo nem um pouco.

E você conseguiu, em meio a tudo isso, constituir uma família. Hoje você é casado e tem um filho. É possível para o jornalista conciliar o trabalho com a vida familiar?

Fácil não é. Eu estou no meu segundo casamento e o sacrifício da vida pessoal no dia a dia é muito grande. Os filhos, a minha mulher. É muito complicado. O custo pessoal dessa vida de aventuras é pesado. Mas o esforço vale a pena, sem dúvida nenhuma.



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