Iniciativa do Instituto Vladimir Herzog resgata imagens e depoimentos de jornalistas e artistas que lutaram contra a censura
“Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra os outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados”
Vladimir Herzog
Alguns dizem que a memória do Brasil é curta. Outros preferem fazer algo para deixar vivo o passado político e social brasileiro. E, nesse caminho, muitas vidas e sonhos tiveram de ser destruídos na luta por um ideal de liberdade de expressão e democracia. O principal exemplo disso na história do jornalismo foi a imperdoável morte de Vladimir Herzog, que se tornou um marco da perseguição e da intolerância da ditadura no país. Ainda que ele seja lembrado por ter sido diretor de jornalismo da TV Cultura e pela sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro, foi criado um mito muito maior em torno dele. “O Vlado tinha uma opinião democrática, foi vítima de uma série de processos e acabou virando um mártir por algo que ele não era de fato. Ele não foi um revolucionário com armas, mas um humanista”, descreve o jornalista Nemércio Nogueira, que foi colega de trabalho de Herzog no jornal O Estado de S. Paulo e na BBC, de Londres.
Atualmente Nemércio é presidente do Instituto Vladimir Herzog e foi um dos idealizadores do projeto Resistir é preciso, que tem como objetivo resgatar o período da ditadura, que censurou muitas pessoas por expressarem a sua opinião. “A proposta é que haja exposições, livros e outras iniciativas que irão acontecer ainda este ano e em 2012”, ele anuncia. E, até agora, dois lançamentos já ocorreram como parte do projeto. O primeiro se trata da edição fac-símile do jornal Ex-, que foi o único periódico a noticiar a morte de Vlado, ocorrida em 25 de outubro de 1975. Por ter feito uma abordagem que divergia da versão apresentada pelos militares (que haviam alegado suicício), a publicação foi cassada. Inclusive, uma segunda tiragem de 30 mil exemplares da edição com essa reportagem chegou a ser confiscada pela censura antes de chegarem às bancas.
Diante da importância desse jornal para o processo de liberdade de expressão no Brasil, foi lançado no final junho de 2010 uma caixa especial com as 19 edições do Ex- em fac-símile, ou seja, com o mesmo tamanho do original, mas impresso em papel off-set. Neste ano, a segunda iniciativa veio a se consolidar: a coleção de 12 DVDs com os depoimentos das pessoas que viveram naquela época e foram realmente vítimas da ditadura. A edição Resistir é preciso... – Os protagonistas desta história traz como conteúdo dos discos 10 documentários e três livros que privilegiam as histórias e vivências de grandes nomes da imprensa brasileira. Entre eles, os jornalistas Raimundo Pereira, Fernando Morais, Carlos Azevedo, Aguinaldo Silva, Bernardo Kucinsky, Maria Rita Kehl, entre outros.
“Eu acho que todo projeto que conte a história do Brasil que não se conhece é maravilhoso e dedico a minha vida a isso”, conta Ana Arruda Callado, jornalista que foi esposa de Antônio Callado e foi responsável por diversas biografias de mulheres importantes da história brasileira, como a primeira-dama Darcy Vargas, a escritora Maria Martins e a jornalista Adalgisa Nery. “A ignorância da sociedade em relação à história do Brasil é algo que me aflige. Antônio Callado sempre fez literatura engajada e era um patriota, algo admirável que não se vê mais”, disse a jornalista, que é conselheira da Associação Brasileira de Imprensa e uma das pessoas que deram o seu depoimento para a série de documentários dirigida e editada por Ricardo Carvalho.
No lançamento, ocorrido no Memorial da Resistência de São Paulo (antigo prédio do DOPS) em 27 de junho, grandes figuras públicas estiveram presentes. O prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, fez as saudações e mencionou a relevância daquilo que estava sendo produzido pelo Instituto Vladimir Herzog. “Perpetuar essa memória é fundamental para qualquer país e eu tenho certeza absoluta que fará justiça a essas pessoas que garantiram o processo de transição e consolidação da democracia”, declarou o prefeito, que chegou a ser vaiado três vezes quando foi anunciado por um dos apresentadores do evento, Ivo Herzog, filho de Vlado. Mesmo assim, o político ressaltou o papel do ministro dos Direitos Humanos, José Gregório, na promoção de incentivos do governo municipal a projetos que têm como objetivo destacar o papel daqueles que militaram contra a ditadura militar.
E a própria realidade atual do Brasil é uma amostra de que as mudanças já estão acontecendo. A secretária estadual de Justiça de São Paulo, Eloisa de Souza Arruda, garante que mais de 1500 presos políticos e familiares já foram contemplados por uma indenização concedida pelo governo. “É uma forma do estado de São Paulo pedir desculpas pelos atos de seus agentes em um determinado período da história”, explica Eloísa.
Ainda que tudo esteja diferente, a sociedade nunca deve se esquecer de tudo que aconteceu durante o período da ditadura militar. Como o próprio nome do projeto destaca, “resistir é preciso”. E, por incrível que pareça, cada vez mais.
Assista abaixo um vídeo exclusivo da apresentação da Comunidade Coral Luther King feita no lançamento do projeto, em 27 de junho deste ano. A música interpretada é “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, que foi símbolo da luta pela anistia na voz de Elis Regina.
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