Saga de J.K.Rowling apresenta elementos do mito estudados por Joseph Campbell

A universalidade de Harry Potter ainda é um mistério para muitos. Uma história que conseguiu trazer a literatura de volta aos holofotes quando as crianças liam cada vez menos, que sobrevive às traduções de diversas línguas - e faz sucesso em todas. Como é possível que um livro faça sentido e agrade a tanta gente?
A autora, J. K. Rowling, nunca afirmou nem negou ter lido O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Mas não seria surpresa se esta descoberta viesse à tona. Harry Potter apresenta as mais diversas características da teoria do monomito. Isto é, todas as nossas histórias – e heróis – seriam semelhantes na medida em que nossos problemas intrinsecamente humanos são semelhantes. É o que os torna universais – é o que faz com que não envelheçam.
A heptalogia de Rowling não apresenta apenas alguns aspectos do monomito – mas quase todos. Talvez seja isso que a faça tão popular, como uma roupagem nova e bem feita para as histórias antigas entranhadas em nosso inconsciente.
No começo, nos deparamos com um Harry que vive no mundo normal (o dos “trouxas”), mas que sente como se não pertencesse realmente a ele. Além disso, o protagonista tem duplo nascimento – por exemplo, passar por um forte trauma na infância ou ser concebido de forma milagrosa. O duplo nascimento é uma das marcas mais fortes do herói e, no caso do bruxinho, se manifesta no fato de ele não ter sido criado por seus pais.
O segundo estágio do mito do herói é o Chamado à Aventura – no caso de Harry, quando Hagrid irrompe pela porta da frente de sua casa. O herói encontra seu mentor (Dumbledore) e começa sua Estrada de Provações rumo à transformação final.
A Jornada, geralmente, tem quatro auges possíveis - o primeiro é o Encontro com a Deusa. Esta é a mulher que desperta o amor, uma recompensa por sua provação, a qual, no caso de Harry, lhe é apresentada no sexto volume da série, O Enigma do Príncipe: Gina Weasley.
Em segundo lugar, a Reparação com o Pai, cujo sentido não é sempre literal. O “pai” geralmente é o superego, aquilo que detém o supremo poder na vida do herói. Em As Relíquias da Morte, há dois pais: Snape e Voldemort. Harry confronta (e compreende) ambos.
A terceira possibilidade é o Roubo do Elixir, momento em que o herói deve ser esperto. É quando, por exemplo, Prometeu leva o fogo dos deuses aos humanos. E é quando Harry tenta destruir cada uma das Horcruxes. As Relíquias da Morte, de certa forma, trata-se de um longo Roubo de Elixires.
Por fim, o último auge possível do mito: a Apoteose. A morte. Um período de paz e completude do herói antes que ele comece seu caminho de volta. Exemplo? Hércules descendo ao inferno, em sua última tarefa e – por que não – Jesus Cristo ressucitando. Temos isso em As Relíquias da Morte - mas, caro leitor, você terá de ver o filme ou ler o livro para se certificar do conceito.
E, então, Harry termina sua Jornada. Torna-se O Senhor de Dois Mundos: o material (dos “trouxas”) e o espiritual (da magia). Tudo acabou, ele finalmente pode descansar.
O último filme de Harry Potter entra mundialmente em cartaz no dia 15 de julho. Entre o lançamento do primeiro livro, em 1997, e esta estreia, passaram-se 14 anos. Uma geração inteira que cresceu esperando o herói completar sua jornada, numa mitologia moderna bem construída, como não se via desde Star Wars.
Obrigada por tudo, Jo Rowling.
Comentários Postados
obrigada por contar o final!
que? protesto - ela não contou o final!
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