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01/07/2011 - 19h17 - Atualizado em 20/05/2012 - 21h24

O espetáculo e a mercadoria

Renata Barranco, aluna do 2º ano de Jornalismo

Confira a resenha do clássico de Billy Wilder que completou 60 anos e foi lançado em DVD no mês de junho

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Divulgação
No fundo da sala do editor do jornal, há um quadro
com o mandamento "Tell the Truth" (que é "Dizer a
Verdade"), mas ocorre exatamente o contrário no filme

“Notícias ruins vendem bem porque notícias boas não são notícias”. Essa frase pode provocar as mais ácidas críticas de qualquer espectador que preze pela verdade acima de todas as coisas; e, principalmente, causa espanto em todos os estudantes de Jornalismo que consideram o trabalho de Gay Talese uma verdadeira Bíblia para os profissionais da área. É com essa sentença, e com muitas outras, que o filme A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951), dirigido por Billy Wilder, permanece como um dos longas mais importantes – e, talvez, o mais importante de todos – na crítica ao jornalismo sensacionalista e ao terreno cada vez mais pantanoso que este está inserido.

Clássico do cinema americano, o filme apresenta reflexões tão atuais que é difícil acreditar que tenha sido lançado há exatos 60 anos. A história do jornalista Charles “Chuck” Tatum, interpretado pelo lendário Kirk Douglas, é a engrenagem que movimenta e dá sentido ao filme do começo ao fim. Seu trunfo não está em contar a vida de um jornalista decadente em busca de uma carreira sólida, mas sim, em retratar a imprensa da época sob a óptica dos seus profissionais, e mostrar a simbiose existente entre a empresa detentora das notícias e o capital disponibilizado para transformá-las em mercadorias.

Se o filme de Wilder foi o primeiro a condenar com eloquência os vícios e contradições do trabalho jornalístico, foi Balzac, escritor francês que influenciaria Proust e Flaubert, para citar apenas alguns nomes, que trouxe o jornalismo para a esfera da literatura. Em Ilusões Perdidas (1839), Balzac trata das misérias de um poeta de província, Lucien de Rubempré, que faz carreira de sucesso no jornalismo de Paris, e que, posteriormente, cairia em desgraça pelos poderes ambivalentes da imprensa local.

Já Tatum, após buscar refúgio em um pequeno jornal da província de Albuquerque, no Novo México, encontra uma matéria que poderá catapultar sua carreira e trazê-lo de volta ao grande circuito noticioso: um homem preso no interior de uma montanha em terras indígenas. Essa história aparentemente simples traz à tona mais um elemento de semelhança entre o longa americano e o universo balzaquiano: o lado maniqueísta dos personagens principais, que não se mostram inocentes, mas que, ao contrário, são totalmente inescrupulosos.

O filme, inspirado em um soterramento ocorrido em 1925 com Floyd Collins, foi, por mais estranho que possa parecer, fracasso de público e crítica. Talvez, o fracasso possa ser explicado pela própria relação estabelecida no filme com a imprensa, pois esta, longe de aplaudir seus erros à frente das telas dos cinemas, abaixa a cabeça para a obra que, mais do que criticá-la, proporciona uma profunda reflexão da abordagem utilizada por muitos veículos de comunicação.
Não menos importante do que as outras máximas anunciadas no filme, a que ganha maior destaque, não por estar pendurada na parede da redação do jornal de Albuquerque, é: “diga a verdade” ("Tell the truth"). Constantemente ironizada por Tatum, a frase parece perseguir suas ações, reais ou inventadas, durante toda a película. O drama humano e o alto teor de manipulação que tecem a história, não só exemplificam o conceito de “notícia de impacto” presente na trama, mas também, dão vazão à esperança de um jornalismo desligado de falcatruas e integrado à ética. Se, em 1951, Chuck Tatum era um caso extremo de falta de caráter e rigor jornalístico, hoje, vemos que a exceção virou regra – mesmo que escondida por detrás da epopeia que os jornais enfrentam na caça acelerada pela última notícia. 

Assim como o jornal disposto na banca pela manhã, a obra de Wilder deve ser, também, consumida com muita moderação. Não mais no papel de detetive da sociedade, o jornalista, ao ver A montanha dos sete abutres, não pode se deixar enganar pelo personagem de Kirk Douglas e, muito menos, se deixar levar por essa trama que mistura, e, ao mesmo tempo, questiona a veracidade e a credibilidade do meio jornalístico. Sendo assim, Tatum é o arquétipo de um tipo de jornalismo a ser evitado, e o longa é a personificação de uma imprensa que, cada vez mais, se distancia de sua verdadeira função: a de prestação de serviços.

Divulgação

 

A Montanha dos Sete Abutres

Paramount Pictures

DVD



Comentários Comentários Postados
Rafael Borges[04/07/2011 - 16:04]

Gostei muito do filme, pois retrata o que os repórteres sensacionalistas eram capazes de fazer só para conseguirem matérias de furo, ou para chamar a atenção do público. Hoje em dia também temos essas matérias sensacionalistas, mas na minha opinião, menos abrangente do que antigamente. E é engraçado observar, que mesmo com o passar dos anos, as matérias ainda têem características daqueles tempos. Ótimo filme para quem está entrando em um curso de jornalismo agora, e está estudando sobre o Sensacionalismo.

Rafael Lourenço[09/07/2011 - 10:58]

Ótimo texto, muito bem escrito. Parabéns pela resenha. É justamente essa visão crítica em relação aos processos jornalísticos que transformam os fatos em mercadorias e que prezam os interesses antes da verdade que acho que ainda precisa amadurecer em quem pretende ingressar no jornalismo. Parabéns!!

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