A vida do poeta tímido, que quase foi jogador de vôlei
O café fumegante sobre a mesa do apartamento onde o poeta Fabrício Corsaletti mora sozinho é o sinal de que ele já pode começar a falar. E quando o faz, à meia luz da sala decorada com discos, pôsteres e livros, até parece que a poesia é coisa simples.
Não eleva o tom de voz. Fala com algumas pausas, como se medisse cada palavra, brincasse com o som de suas sílabas e, então, apalpasse e subvertesse seus múltiplos significados. No meio de uma frase, às vezes, vacila: rompe com o sentido do que estava dizendo, e então muda de ideia – e de estrofe.
Talvez seja apenas sua timidez assumida, insegurança de quem percorre os meandros da memória. Ou, talvez, seja melhor pensar que o ofício da poesia está tão arraigado em Fabrício que o torna cauteloso, cautelosíssimo, no trato da palavra.
Fabrício nasceu como poeta aos 15 anos, pelas mãos de Vinícius de Morais, numa pequena antologia que veio de brinde com o jornal Folha de S.Paulo. Antes disso, levava a tranquila vida de moleque do interior em Santo Anastácio, a 600 km de São Paulo, onde também nasceram seus pais e avós.
Na adolescência, as coisas de que mais gostava eram os carnavais nos tradicionais clubes da cidade e os treinos de vôlei. A estes se dedicou por oito anos; três horas por dia, cinco vezes por semana. “Queria ser jogador profissional. Até tenho um braço desenvolvido errado por causa disso”, conta Fabrício. Aparentemente, seus braços não têm nenhum problema.
Porém, não cresceu o suficiente para seguir carreira nas quadras. Pouco tempo depois, vasculhando as apostilas Anglo do Ensino Médio, deparou-se com o Motivo, de Cecília Meireles. O poema define a condição do poeta como um “irmão das coisas fugidias”. “Foi uma das coisas que mexeram comigo naquela época, e aí imediatamente comecei a escrever poesia”, lembra o ex-talento do voleibol. Como era o primeiro poema? “Eu lembro... Era bem ruim.”
Fabrício não revela mais detalhes sobre os primeiros versos – nem mesmo o título. Tanto segredo provém da forma com a qual encara a poesia, como lugar da perfeição estética. Ele sabe de cor o que acontece em todos os seus poemas, os quais só aprova quando adquire a “consciência rítmica” deles. Do contrário, joga fora.
Para o poeta, seu ofício exige um trabalho racional com a linguagem e, embora acredite que escrever seja um ato de paixão, não se considera “um romântico, que senta, escreve e o poema está pronto”, mas um literato cuja arte nasce a partir do treino. Essa devoção à escrita enquanto profissão o levou à graduação em Letras da Universidade de São Paulo, concluída em 2001.
No ano de sua formatura, publicou o primeiro de seus cinco livros de poesia, Movediço, pela editora Labortexto. Em 2007, a Companhia das Letras republicou-o junto a O sobrevivente (2003) e os até então inéditos História das Demolições e Estudos para o seu Corpo, que dá nome à antologia. Seus últimos poemas publicados estão em Esquimó (2010), também pela Companhia.
Terminada a USP, Fabrício tentou ser professor, mas não gostou da empreitada: “sou tímido, tenho dificuldade de ficar falando em público.” Depois disso, trabalhou até o início deste ano como assistente de editor na Editora 34. Nos primeiros três anos, trabalhava oito horas por dia. “Acordava as seis, escrevia até as oito e entrava no trabalho as nove – à noite, não escrevo.” Como não conseguia escrever o quanto queria, diminuiu seu expediente para seis horas, das 13h às 19h: “tudo o que penso é em ganhar menos, trabalhar menos, para ter tempo de escrever. Essa é a minha necessidade.”
Desde abril, Fabrício acompanha os trainees da Folha, com leituras e análises de textos literários e jornalísticos. Ele também escreve mensalmente duas crônicas para a revista sãopaulo e uma matéria para a Serafina, ambas daquele jornal.
Fabrício hoje trabalha em casa a maior parte do tempo e tem se dedicado ao que pode vir a ser seu segundo livro de contos – o primeiro, King Kong e cervejas, foi publicado em 2008 pela Companhia das Letras. Essa também seria sua terceira aventura pela prosa, que também conta com Golpe de Ar (2009), do catálogo da 34.
“Também estou escrevendo bastante poesia. Muita coisa que guardei de dois anos para cá, mas ainda não forma um livro”. Considerando-se que o poeta leva, em média, três anos para terminar um livro, um novo Corsaletti pode estar por vir: “No último ano, aquilo já criou uma cara própria e eu começo a escrever não porque vou atrás, mas porque aquela estética começa a ficar clara para mim.”
Aos 32 anos, ele não se considera outra coisa senão um poeta. “Até pouco tempo atrás, a literatura era nova na minha vida. Agora já faz mais tempo que eu sou poeta do que eu não fui”, analisa.
Sim, Fabrício Corsaletti é um poeta – ou melhor, artesão da palavra, luthier do verbo, alguém destinado a reinventar os significados de todas as coisas. E assim, com o trabalho minuncioso do verso, transforma a poesia em algo maior do que seus próprios sentimentos: num instrumento de conhecimento da realidade em seu sentido mais profundo.
Comentários Postados
Debo dizer: pungente e magistral
Fantástico!
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