Músico Jefferson Gonçalves fala das diferentes sonoridades que o influenciaram e do mercado de música independente
Músico independente, Jefferson Gonçalves começou sua carreira no início da década de 1990, trilhando um caminho bastante comum para os gaitistas: o blues. Em pouco tempo, o carioca deixaria de lado a carreira de bancário para se tornar um dos virtuoses do instrumento no Brasil. Com seus amigos da Tijuca, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, fundou a banda Baseado em Blues, a qual faria história no circuito alternativo da cidade ao lado do Blues Etílicos, Suburblues e Celso Blues Boy.
Jefferson também gravou com diversos artistas nacionais e internacionais, como Belchior e Peter “Madcat” Ruth. Consolidado como um dos nomes mais completos da gaita no país, ele resolveu deixar a banda para expandir os limites de sua música. Absorvido pelos ritmos genuinamente brasileiros, precisava de mais espaço para suas experimentações e não o encontrava no formato tradicional de uma banda de blues.
Dedicou-se, então, a estudar os representantes mais significativos da arte nordestina. Descobriu o maracatu, o samba rural e, como conseqüência, incorporou esses elementos ao seu primeiro álbum solo, Greia (2004). O disco põe no mesmo balaio a criatividade de Bob Dylan e de Luiz Gonzaga, o suingue de Jackson do Pandeiro e de Ray Charles. Tudo é música, afinal – e de extrema qualidade. Neste ano Jefferson lançou Encruzilhada, misturando sonoridades brasileirsa às africanas.
Na entrevista a seguir, o gaitista fala de sua relação com os diferentes ritmos que o influenciaram, além do mercado musical e dos diferentes públicos ao redor do país.
Seu trabalho tem uma assinatura muito particular, que é a fusão entre ritmos essencialmente brasileiros e o blues. Que paralelo você estabelece entre essas duas sonoridades aparentemente distintas?
Não são distintas. Tudo vem do mesmo berço, ou seja, da África. Eu brinco com isso nos shows, sempre digo que as embarcações vieram do mesmo local - uma veio para o Brasil e outra, para os Estados Unidos. Cada escravo absorveu um pouco de cada local, mas no fundo a raiz é a mesma, a música negra. Se você pegar Lamento Sertanejo, do Dominguinhos, e prestar atenção na letra, aquilo ali é blues, o cara com saudade da terra dele, se sentindo sozinho...
O mercado fonográfico passa por uma transformação profunda. Velhos modelos que sustentaram a indústria até aqui estão em colapso comercial. Como você vê o acesso à música pela internet?
Acho ótimo. Se soubermos trabalhar, temos como vender bem e manter um público fiel. Mas, para isso, o músico tem que aprender a ser produtor, webdesigner, divulgador, além de tocar, claro. Aumentou o trabalho, mas em compensação somos donos de nossas carreiras.
Quais as principais vantagens e desvantagens de ser um músico independente no Brasil?
Só tem vantagens, pois sempre gostei de saber como tudo funciona e isso para mim não é obrigação. Eu gosto de criar minha divulgação, responder aos fãs, cuidar do site, fechar shows, fazer projetos... Agora quem acha que precisa só tocar realmente deve ter muita reclamação a fazer (risos).
Você viaja bastante levando sua música para lugares fora do eixo Rio-SP, inclusive no exterior. O que distingue o público de cada um desses lugares? O que você encontra por onde passa que não está na cobertura cultural da chamada “grande mídia”?
Como meu som sai do padrão imposto pelos radicais do blues, tive que achar novos campos de trabalho e, para minha felicidade, descobri o Nordeste, onde a cultura ferve. Vários músicos super talentosos, eventos de grande porte e o mais importante: público e produção abertos a novos sons, novas misturas, sem deixar de valorizar a cultura local. Essa é mais uma vantagem da internet, já que podemos divulgar o trabalho sem a chancela do que chamam de “grande mídia”. Na verdade, tinha de ser chamada mesmo de “mídia do jabá”.
Quais suas perspectivas para o mercado de música brasileiro?
Não gosto de fazer previsões nem sonhar, prefiro trabalhar e correr atrás do meu objetivo, que é viver exclusivamente de música. Graças a Deus, estou conseguindo e sei que ainda vai ter muita coisa nova aparecendo no mercado, muitos com data de validade vencida e alguns que ainda vão permanecer ativos. Mas para isso é preciso ralar. E muito.
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