Uma compilação de perfis americanos de diversos tipos de pessoas é obra de destaque jornalístico

Indispensável àqueles quem têm gosto pela escrita, Gay Talese, ícone do new journalism, é um exemplo de como um bom escritor pode transformar informações aparentemente inúteis em uma obra refinadíssima. Em Fama e Anonimato, ele traça perfis diversos, mostrando o interior louvável de cada indivíduo pela escrita da vida de pessoas que às vezes passam despercebidas à nossa sociedade.
O livro é um exemplo de como o jornalista pode sair de formulações-clichê em entrevistas. Logo se nota a não obviedade das características e fatos abordados em cada perfil. Quando discorre sobre o lutador Floyd Patterson, o autor não centra a narrativa em técnicas da luta ou em seu histórico profissional - em vez disso, mostra as angústias e os problemas cotidianos familiares do perfilado (como quando teve de correr para acolher a filha, que tivera um desentendimento na escola).
Fama e Anonimato foge do jornalismo barato e preguiçoso. Para construir os perfis, Talese literalmente vai às ruas, dando ao livro o direito de ganhar um posfácio escrito por Humberto Werneck dedicado a essa atitude: A arte de sujar os sapatos.
Quem disse que perfis só devem falar de pessoas? Talese foge do esperado ao dedicar 116 páginas a um retrato de Nova York: o número de piscadas médias que nova-iorquinos dão por segundo, qual a mudança no movimento comercial em dias de chuva e outros fatos curiosos são investigados pelo autor nesse perfil, que ocupa a primeira parte do livro.
Em seguida, aprofunda-se na construção da ponte Verrazzano-Narrows, contando tanto dados sobre os materiais e técnicas do projeto como imergindo na vida de quem está por trás dele, os boomers. Nesse ponto, o livro atinge um caráter mais sentimental, mostrando as dificuldades da vida desses trabalhadores e os perigos envolvidos nesse tipo de construção, além de abordar a morte de um dos operários.
A parte final é dedicada aos atletas, artistas e outras personalidades americanas, como o já citado Floyd Patterson e Frank Sinatra, em Frank Sinatra está resfriado. Este último é o mais célebre perfil de Talese, no qual, mesmo sem ter a concessão de uma entrevista com o cantor, consegue desvendá-lo a fundo a partir de conversas com as pessoas próximas a ele.
As 536 páginas do melhor do new journalism são indicadas até mesmo a quem não se interessa pela temática dos perfis, tamanha a criatividade e o estilo literário de Talese.
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