“Santiago” retrata as peculiaridades do mordomo da família Salles

A fotografia exibida nos instantes iniciais é um prenúncio do enredo a ser desenvolvido nos próximos minutos do documentário Santiago. Uma foto dentro de outra, a própria fotografia, e em seguida a locação onde foi registrada reflete, de forma indireta, a existências de histórias dentro de histórias. Um ensaio sobre o processo de se fazer um documentário. Após a apresentação, uma espécie de prólogo, a porta do elevador se fecha e sobem as letras - “Reflexão sobre o material bruto”.
Mais uma vez, o longa brinca com a atividade metalinguística. O material bruto é tratado de modo subjetivo. O que se mostra são inúmeros fragmentos, pequenas metáforas camufladas de forma inteligente.
Santiago foi mordomo na “casa da Gávea”, o antigo lar da família Moreira Salles, transformado no atual Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. A brutalidade marca, de certa forma, a desconstrução da obra. Santiago possuía inúmeras particularidades: era erudito, conhecia outras línguas, rezava em latim, e reunia uma coleção de páginas por ele redigidas sobre a realeza de vários países.
É notável a tentativa de conciliar as memórias de João Moreira Salles, o diretor, com o distanciamento necessário à transferência de papel. O antigo mordomo seria, agora, um personagem. O material, composto por 9 horas de entrevista, foi obtido em 1992. E assim permaneceu, intacto, por treze anos. O plano inicial de contar a história de Santiago se convertera em um calabouço de memórias. Mais de João que de seu personagem.
Eduardo Escorel e Lívia Serpa procuram dar conta da maçante tentativa de romper a relação chefe-mordomo. A montagem de Santiago desconstrói um ideal - não é um documentário redondo - não há uma unidade entre declarações de entrevistados e registros históricos audiovisuais. Os depoimentos do empregado dividem o espaço com imagens da própria gravação e alguns registros fotográficos. Em vários momentos, ouve-se a voz do diretor pedindo para cortar, repetir uma frase ou uma expressão. E o mordomo obedece, como se continuasse a se resignar ao chefe, remetendo aos velhos tempos. O conteúdo é permeado por um toque ausente de comiseração.
Há uma referência ao filme A Roda da Fortuna - uma das únicas cenas coloridas -, que faz uma síntese do produto final e parece fechar um ciclo iniciado pela citação de Werner Harzog, por um modo quase paradoxal. A dança fortuita, de modo “lindo e gratuito”, em contraste com a ideia de que "o mais interessante está naquilo que acontece antes ou depois da câmera ser ligada".
A dança das mãos do mordomo, a tentativa de relatar conflitos internos interrompida abruptamente pela ordem do chefe. Falar sobre o mais íntimo não parecia necessário à abordagem pretendida no projeto inicial. Como diria o próprio diretor, “tem de se desconfiar de tudo”. Santiago incita o espectador, a todo momento, à desconfiança. E quem diria que esse exato corte atribuiria a tônica essencial para o bom resultado da obra.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.