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17/06/2011 - 12h09 - Atualizado em 23/05/2012 - 16h45

As provocações de Saramago

Por Gabriela Sá Pessoa, Editora do site

Morte do escritor português completa um ano em junho

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Reprodução
“Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do
trabalho de pensar, e parece-me que, sem
ideias, não vamos a parte nenhuma”, escre-
veu Saramago em seus últimos momentos

Se a previsão do crítico estadunidense Harold Bloom estiver correta, há um ano o mundo perdeu “um dos últimos titãs de um gênero [romance] em vias de extinção”. O escritor em questão é José Saramago, falecido em 18 de junho de 2010, aos 87 anos. Levando em conta as análises de Bloom, que só consideram “grandes” um restrito grupo de autores, pode-se dizer que, sim, Saramago era dos bons.

Único autor de língua portuguesa a receber um Nobel de Literatura, ele deixou uma obra conhecida pelo enfrentamento e subversão das palavras, além da abrangência de temas. Essa amplitude inspirou Paranóico Pérez, conto de Enrique Vila-Matas sobre um escritor que, quando finalmente decidia escrever um romance, Saramago se antecipava e lançava um livro com ideias iguais às suas.  

Transitando entre prosa e os gêneros dramático e lírico, as criações do autor português superavam a esfera do literário e exprimiam suas críticas em relação à sociedade, num tom de ensaísmo e experimentação do sujeito em realidades extremas. Como Saramago mesmo dizia, escrevia “para compreender o que é um ser humano”.

É o caso de Ensaio Sobre a Cegueira (1995), adaptado para o cinema por Fernando Meirelles, e de As Intermitências da Morte (2005). Nesses romances, fatos absurdos - uma cegueira branca atinge determinada cidade e a Morte para de matar - põem a ordem à prova, testando os limites da civilização.

No entanto, sua crítica aos mecanismos sociais não se restringiu à literatura. Ele, que se considerava um “comunista hormonal”, sempre se pronunciou sobre as injustiças e conflitos de seu tempo, criticando o poder econômico e mantendo-se firme às convicções políticas.

A religião também foi abordada, de maneira crítica, na obra do escritor português - e ateu. No polêmico O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), ele reescreveu a história de Jesus humanizando-o; já em Caim (2009), seu último livro publicado em vida, ele atribui a Deus culpa do assassinato de Abel e, novamente, ataca as escrituras bíblicas.

Ele escreveu até o fim. Mesmo com as complicações provocadas pela leucemia, manteve o blog Outros Cadernos de Saramago, o qual atualizou no último dia de vida com as palavras: “Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Falta-nos um Saramago e as provocações que fazia ao nosso pensamento.   



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