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03/06/2011 - 19h28 - Atualizado em 21/05/2012 - 06h07

Faculdade Cásper Líbero recebe Jon Lee Anderson, repórter da revista The New Yorker

Tiago Mota

Correspondente internacional contou episódios de sua carreira e fez recomendações aos futuros jornalistas

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Pedro Brum
Jon Lee Anderson escreveu a biografia de
Che Guevara após muito tempo de apuração

     No dia 21 de maio, o norte-americano Jon Lee Anderson participou de uma conversa com os alunos de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero sobre a sua carreira. Considerado um dos principais correspondentes internacionais em atuação no mundo, ele é atualmente repórter especial da revista The New Yorker, publicação famosa por matérias longas e investigativas. Além disso, o jornalista tem vários livros publicados, como Che Guevara: Uma Vida Revolucionária, que a crítica reconhece como a primeira e a mais completa biografia do revolucionário, e A Queda de Bagdá, resultado da cobertura da guerra do Iraque.
     Filho de diplomata, Jon Lee Anderson passou a juventude na América Central e conta que o início de sua carreira se deu “por acaso”. “Eu sempre tive um espírito aventureiro. O jornalismo apareceu como ferramenta para explorar o mundo”, disse Jon Lee. Segundo ele, parte da vontade em ingressar na profissão nasceu com o desejo de ver com os próprios olhos o porquê dos latinos não se agradarem com a política dos Estados Unidos, seu país natal.
     Grande parte do bate-papo girou em volta da biografia de Che Guevara, que o jornalista considera “a sua obra-prima”. O livro foi preparado durante cinco anos, três deles vivendo e apurando informações em Cuba e outros dois para escrever. “É um livro muito grosso, bom para segurar a porta quando bate muito vento”, comenta bem-humorado sobre a sua obra de 924 páginas.
     Por causa dessa experiência,  Jon Lee percebeu que “Che era uma referência entre guerrilheiros, inclusive entre aqueles que não dividiam a mesma ideologia. Ele era marxista e é venerado entre extremistas islâmicas”. Para obter grande parte dos dados, o repórter teve acesso aos diários particulares de Che, que ele considera uma "peça chave" na composição de seu trabalho: “Deu carne para o que havia se tornado um fantasma”, explica.
     Para a composição do livro e de perfis famosos, como de Gabriel Garcia Marquez e Augusto Pinochet, ensinamentos preciosos foram extraídos para os jovens estudantes. “Para perfilar alguém, é preciso ter contato direto com a pessoa não só com entrevistas, mas passar o máximo de tempo com ele. Conhecer sua família, o lugar onde mora, como trata as pessoas ao seu redor. Isso dá também ao texto um movimento de tempo e espaço”, define o jornalista. 
     Um exemplo dessa metodologia foi o perfil que Jon Lee Anderson conta fez de Pinochet. Nesse caso, ele precisou conhecer os filhos do líder político. De acordo com o jornalista, um deles conversou sobre obras históricas roubadas com a maior naturalidade. Ao se perder em uma favela chilena, a filha de Pinochet se desesperou e afirmou ser aquele um lugar de “terroristas, ladrões e homossexuais”. Jon Lee, é claro, desaprovava essas atitudes, mas conseguia perceber características importantes para a construção do perfil. “Essas coisas dizem muito sobre o perfilado, mais do que ele próprio poderia dizer”, conta.

COBERTURA DE GUERRAS

     Correspondente em conflitos armados, Jon Lee Anderson cobriu a guerra no Iraque e voltou recentemente à Líbia, onde escreveu sobre as revoltas populares contra o ditador Muammar Gaddafi. Sobre a experiência no país de Saddam Hussein, Jon Lee contou que “a primeira impressão que teve no Iraque é que estava no meio do filme Apocalipse Now”.  A experiência no campo de batalha é intensa e dolorosa. “O odor da guerra é forte. Não necessariamente ruim, mas desagradável”, relatou o repórter. Para ele, os momentos piores momentos da cobertura é o se deparar com a morte de crianças, jovens e amigos jornalistas, como a morte de dois repórteres durante os conflitos na Líbia.
    Parece impossível, mas Jon Lee destacou a importância do jornalista se manter imparcial mesmo quando presencia atrocidades cometidas por ditadores, como foi o caso de Saddam Husseim. “Tem que ser profissional. A imparcialidade é um 'Santo Graal' pelo qual nós, jornalistas, buscamos. Quando se toma partido em uma guerra, você aceita que o o outro lado pode ser assassinado”, a.
    O jornalista falou ainda sobre Reginald Goodrich, chefe de gabinete do ex-ditador da Líberia Charles Taylor, que contou-lhe sobre os feitos cruéis de seu líder. Entre os atos, estavam atrocidades como rasgar a barriga de grávidas para descobrir o sexo dos fetos como fins de aposta. Mesmo em posse dessa informação, Jon Lee Anderson achou melhor não publicá-la, pois Goodrich poderia correr risco de perder a vida. “É claro que decidimos em não publicar, mas por um momento fiquei tentado”, contou.
     Por último, Jon Lee Anderson foi perguntado se era possível identificar um líder revolucionário antes de sua ascensão. Como resposta, ele disse que “carisma é um talento orgânico", pois na Líbia era difícil encontrar alguém que pudesse se tornar um grande líder. Para ele, as sociedades pós-regime autoritário tendem a ser “vulgares”, já que a população passou anos sem falar e está desacostumada com a livre expressão e democracia. No entanto, o jornalista concluiu lembrando que diversos líderes extremistas ganharam o apoio popular e foram vistos como uma figura de mudança política. “Para muitos, Osama bin Laden era um líder revolucionário”, disse.



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